Helena Sarmento: “O local onde se nasce ou onde se vive não é uma condição, mas tão só uma circunstância.”

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“Lonjura” é o mais recente disco de Helena Sarmento. A fadista nortenha apresenta-nos um trabalho com 11 faixas, recuperando clássicos, apresentando originais e acima de tudo, cantando com verdade. Podia ser um mero cliché, mas não o é. Neste disco é perceptivel a intensidade e profundidade do canto de Helena Sarmento.

 

A fadista concedeu uma entrevista ao Infocul, onde além do disco, fala do seu percurso, do fado, de Lisboa e do Porto, da vida. Uma conversa que tal como o seu fado, viaja por uma paleta de possibilidades. Um disco muito bem conseguido, por parte de Helena Sarmento e que demonstra que o fado não é de uma cidade, é de todos os que o queiram amar.

 

 

 

Helena, este é claramente um disco de fado?

Sim, este é claramente um disco de fado.

 

Quando começou a pensar neste disco?

Este disco começou a ser pensado em finais de 2015. Ainda o começámos a gravar (no início de 2016) mas acabámos por suspender porque as coisas não estavam a fluir como deviam. Penso que a principal decisão que tomei relativamente a este disco foi essa, a de não forçar nada e a de “seguir a maré” e o meu instinto, quer relativamente aos temas que foram gravados quer relativamente aos cúmplices do projecto.

 

Quais foram os maiores desafios?

Este disco foi gravado no até agora mais difícil ano da minha vida e o maior desafio foi mesmo gravá-lo e, não obstante essas muitas dificuldades e tristezas, desfrutar – como nunca tinha desfrutado – do próprio acto de gravação do disco, do estar no estúdio e sentir isso como um acto de construção do disco. A partir do momento em que o acto de gravar se tornou mais amigável do que até hoje sempre tinha acontecido, foi possível entregar-me muito mais ao próprio desenvolvimento do disco e todos os temas acabaram por ter o sabor de um desafio, uns mais que outros evidentemente, mas todos.

Os próprios covers:

Era um Redondo Vocábulo, de Zeca Afonso, por exemplo: há anos que a ideia de gravar este tema me perseguia. Mas tal como nos acontece com tudo o que achamos delicado e precioso, demoramos muito os olhos na sua admiração mas receamos que o mínimo toque das nossas mãos lhes adultere a beleza.

Neste caso a questão é ainda mais complicada, pois que quem gosta de cantar Zeca Afonso quer cantar Era um Redondo Vocábulo e há quem o cante de forma extraordinária.  

Mas a solução acabou por estar no magnífico arranjo do André Teixeira que com extrema elegância e inteligência conferiu um inesperado e merecido destaque ao baixo, executado pelo Ginho e deu espaço em lugar nobre à criação livre do Samuel Cabral. Apenas tive que cantar…

O Bêbedo e a Equilibrista, da autoria de João Bosco e Aldir Blanc, que foi celebrizado na voz de Elis Regina e que é o tema que encerra o disco.

Todos nós falamos a voz do nosso tempo e por isso se justifica que num disco embora marcadamente próprio se expressem referências ou influências e, no meu caso, muitas delas encontram-se na música brasileira.

É o caso de Elis Regina.  

Elis é Elis.

Inimitável.

Por isso, aqui, nós os quatro, eu, o Samuel, o André e o Ginho, fomos à procura do fado que poderia estar lá dentro.

Espero que o tenhamos encontrado.

 

 

Neste disco conta com quatro originais: Fado em Branco, Fado depois da tempestade, Contigo por Lisboa e Fado Jurídico-Criminal. Com uma história centenária, o fado parece uma fonte inesgotável em termos de inspiração.  É mesmo assim?

Essa pergunta deve ser feita aos poetas e aos compositores. Neste caso ao João Gigante-Ferreira, que escreveu todos esses poemas (e compôs com o Samuel Cabral o Fado em Branco) ao Samuel Cabral, que compôs o Fado em Branco e o Fado Depois da Tempestade, e ao André Teixeira, que compôs Contigo por Lisboa e Fado Jurídico-Criminal.  Eu sou apenas uma intérprete apaixonada pelas palavras e pelas melodias que canto…
capa do cd com lettering

Noite de Inverno e Fado Azul (se Azul se atreve) surgem com novas palavras para Mocita dos Caracóis, de Marceneiro, e Fado Vianinha, de Francisco Viana. Gosta mais dos originais ou destas novas letras? Bem sei que é uma pergunta difícil…

Noite de Inverno é o fado deste disco que canto há mais tempo ao vivo. Foi estreado num concerto de comemorações do 25 de Abril em Paris, em 2014. No entanto, o Fado Azul (se azul se atreve) é mais antigo. Este fado estava pensado para integrar o meu primeiro disco (2011), sendo essa a razão, aliás, pela qual esse disco teve por título “Fado Azul”.  

À época, uma inesperada não autorização por parte dos então titulares dos direitos de autor desse fado tradicional impediram-me de o publicar.  

Mas porque o Amor é infinito, aqui está ele, sete anos depois, água, ar, terra e chama. Adoro esse poema e estou muito feliz com essa faixa do disco, acho que é das mais inspiradas por parte de todos nós.  

Para além dos “meus” “Noite de Inverno” e “Fado Azul” os poemas que mais adoro dos cantados nesses fados tradicionais são, curiosamente (e só agora me apercebo disso!), ambos de Vasco de Lima Couto e ambos criações da extraordinária Beatriz da Conceição: A Vida que eu Sofro em Ti (Mocita dos Caracóis) e Mandei Recado à Cidade (Fado Vianinha). Este último ouço-o muitas vezes pelo fadista e amigo António Laranjeira, n’ O Fado. É muito inspirador.

A decisão de gravar Noite de Inverno e Fado Azul (se azul se atreve), depois de tanto quanto gosto dos poemas do Vasco de Lima Couto, penso que responde à pergunta…

 

O Fado é bom para xuxu? Ou é muito melhor do que isso? Isto pegando no Fado Xuxu que também surge neste disco…

É muito melhor… (sorri). Num certo sentido, tudo isto é fado, como se sabe… Tal como nos meus dois discos anteriores, também neste interpreto um tema do reportório de Amália, com o único propósito de contribuir, na minha modesta medida, para que a sua memória permaneça e para que o Fado não esqueça o quanto, nele, todos lhe devemos. Foi assim que por mim foi cantado; é assim apenas que espero que seja ouvido.

 

 

 

Porquê Lonjura?

Lonjura é um poema do meu pai, que canto neste disco. E canto-o num dos fados que o meu pai melhor cantava – o Fado Menor do Porto. Chamar este disco pelo nome próprio desse seu poema é a minha homenagem pelo privilégio de o ter como Pai. Também me agrada este título, por outra razão: neste disco em nenhum lugar surge a palavra “saudade”, essa dominadora presença da ausência; “Lonjura” é aqui o seu superlativo: a presença da ausência de quem ainda está presente, a mais insuportável das saudades, tecida pelas mãos da doença.

 

 

 

O tema que dá nome ao disco, como referiu, foi escrito pelo seu pai. É o tema mais forte deste disco em termos emocionais, para si?

Sim.  As palavras, escritas em tempos bem mais felizes, quando hoje as canto sabem-me a premonitórias da condição de saúde do meu pai. Mas adoro essas palavras, adoro o Fado Menor do Porto e adoro o que o Samuel, o André e o Ginho fizeram com ele; a introdução, da guitarra do Samuel, tão breve, invade-me de uma tal forma que parece fazer correr pelos meus olhos fechados a dimensão trágica da vida, de qualquer vida, da minha vida. Se nunca até hoje tivesse compreendido a AUTOPSICOGRAFIA do Fernando Pessoa (“O poeta é um fingidor…”), essa introdução ter-ma-ia feito compreender completamente. Mas há outro tema que sinto com grande intensidade emocional: é o Fado em Branco. Aqui é a vida toda, pela vida toda, e não apenas a sua dimensão trágica.

 

Quem é Helena Sarmento e o que gosta de fazer fora dos palcos?

Gosto muito de caminhar, de passar a ponte Luís I (vivo bem perto), do Jardim do Morro ao Barredo, da Sé às escadas do Codeçal, da Ribeira à Serra do Pilar, da Ponte até ao Poente…  

De ouvir música (a minha mais recente paixão é o Benjamim Clementine, fui vê-lo a Lisboa…).

De ler.

De estar com os meus amigos, poucos, muito poucos, tão raros quanto a amizade sincera.

De viajar.  

Preciso muito de viver em trânsito.  

(Mas, por dentro, estou sempre no palco…)

 

Como analisa o seu percurso até ao momento?

Ainda estou demasiado perto de mim, para que possa fazer um qualquer balanço. Os balanços são a síntese que se extrai após o encerrar de um qualquer ciclo e eu estou ainda a percorrer esse ciclo.

O que posso dizer é que tem sido muito difícil.  

A preocupação da coerência e o propósito de um projecto são maldições que assombram a consciência, mesmo quando libertam a voz.

Este disco é o meu terceiro disco com produção independente.

Mas é o meu terceiro disco e, ao que me é possível já afirmar, com uma repercussão e um acolhimento claramente superiores à dos trabalhos anteriores.

 

 

 

As críticas que lhe têm sido feitas apontam para a personalidade do seu canto. Ou seja, não é uma seguidora de ninguém. Tem o seu próprio cunho e caminho. Isto é o que o artista mais deseja ouvir, certo?

É uma pergunta difícil, pois a resposta afirmativa pode sempre ser vista como um auto-elogio imerecido…

Mas sim, claro que sim. Mas não apenas na música. Diz-se sempre que cada pessoa é irrepetível. Ser singular é, portanto, cumprir a própria vida.

E essa singularidade é reconhecida como merecedora de realce, claro que é um estímulo extraordinário. Mas tem o seu preço. A normalidade garante audiência mais vasta.

 

Como analisa o actual momento do fado em Portugal? Há muitos fadistas ou muita gente a cantar fado?

Pergunta malandra…mais própria para um crítico que para um fadista…

Mas não fujo à questão: acho que há muitos fadistas (o que é bom) e muito bons fadistas (o que é muito bom). Alguns reconhecidos e outros nem tanto. E, claro, também há outros. O fado, a esse nível, não é diferente de outras expressões musicais.  Mas a despeito de algum modismo resultante da própria dignificação do fado como património imaterial da humanidade, é indesmentível que o fado, especialmente do lado de quem ouve, atravessa um grande momento. Há muito fado para ouvir e quando há muito para ouvir é mais provável que se saiba distinguir o que é igual e o que é diferente e que isso tenha na verdade um significado verdadeiro.

 

O disco sai a 13 de Abril. O que já nos pode adiantar em termos de espectáculos?

O primeiro concerto de apresentação do disco será no Museu do Fado, no dia 15 de Maio, pelas 19:00.  

Estamos a construir a agenda, a outra data que temos para já para indicar é no dia 30 de Junho, pelas 21:30, em Guimarães (Moreira de Cónegos).

 

Como artista, peço que descreva este disco. Como o mostraria a alguém?

Eu sei que hoje em dia o tempo é algo verdadeiramente escasso, chega a ser dramático. Vivemos na vertigem, muito predispostos ao efémero. E eu não tenho nenhum guião, nenhum manual de instruções nem vocação para conduzir a vontade de ninguém. Nessa matéria, da relação entre o meu disco e as pessoas posso apenas desejar. E o que eu desejo é que quem quer que se cruze com ele encontre 38 minutos e 13 segundos (a duração das 11 faixas de Lonjura) e que, com o coração aberto e a cabeça livre, ouça este disco, do início ao fim.

 

Onde pode o público interagir consigo nas redes sociais?

No facebook www.facebook.com/helenasarmento, no instagram www.instagram.com/helena_sarmento, no canal do youtube  www.youtube.com/user/helenasarmentofado/videos.  

 

 

 

Ainda continua a existir a rivalidade Lisboa-Porto?

Temo que a resposta esteja na própria pergunta. (Anseio o dia em que a pergunta não faça o mínimo sentido).

O local onde se nasce ou onde se vive não é uma condição, mas tão só uma circunstância. Eu compreendo muito mal qualquer afirmação de superioridade ou de inferioridade a partir de um acaso geográfico. A arte, para o ser, tem de participar do universal; querer menos do que isso é não ser artista.  

 

Qual a mensagem que deixa aos leitores do Infocul?

Que ouçam Lonjura; que o sintam com o seu próprio coração e que o procurem entender com a sua própria cabeça.

 

 

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Notícia publicada a 12/04/2018


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