José Barros: “O Alentejo e a sua riqueza cultural está aqui todo nesta expressão”

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O novo trabalho de José Barros Navegante, que tem como título “À´Baladiça” e remete para a última rodada de bebidas antes da partida, é composto por músicas originais e tem poemas de Amélia Muge, Camilo Pessanha ou Teresa Muge. Foi editado a 12 de Janeiro e promete levar os ouvintes ao que de mais bonito a música portuguesa tem.

 

José Barros concedeu uma entrevista ao Infocul, na qual aborda o seu percurso, a construção deste disco, o actual estado da música em Portugal. Destaque ainda para o Alentejo, especialmente Alvito. Uma entrevista conduzida por Rui Lavrador.

 

José, quando começou a pensar neste disco?

 

Este disco começou a ser pensado há muito tempo. A ultima edição José Barros Navegante já datava de 2012. Desde 2008 que não gravava disco de originais com o projecto Navegante e foi a partir de 2014 que comecei a compor os temas deste novo disco.

 

 

 

Quando surge o projecto Navegante que tem neste disco a sua 11ª edição?

Este projecto José Barros Navegante tem origem em 1993, data dos primeiros concertos ainda sem disco editado. Em 1994 gravo o primeiro disco, Navegante, uma edição Movieplay. Com o final do grupo Romanças, do qual fui fundador e mentor, iniciei este novo projecto cujo primeiro objectivo era a música portuguesa, ontem como hoje.

 

 

 

Este é também o seu 22º disco. Quais as características que mais destaca neste trabalho?

A música portuguesa. Ou o que ela é ou pode significar hoje. O canto polifónico português, os instrumentos tradicionais portugueses, o fado e o cante como Património Imaterial da Humanidade, tudo boas referencias do que é a cultura portuguesa no mundo de hoje.

 

 

 

Editor, compositor, produtor, programador, é quase um homem de diferentes artes. Qual a mais desafiante?

Já não me revejo sem nenhuma delas estarem presentes nos meus trabalhos. Fazem todas parte de mim mesmo. Mas essencialmente compositor, músico e cantor. Estas serão sempre as mais desafiantes porque expõem-me verdadeiramente. Um compositor expõe-se sempre quando compõe, um cantor ou músico quando toca ou canta. Editor por necessidade, ou programador porque quero partilhar os conhecimentos que desenvolvi pela minha paixão pela música portuguesa são já consequências naturais que desenvolvi depois das primeiras.

 

 

 

Neste disco assina todas as músicas. O que o inspira?

A minha cidadania. Ser português hoje, aqui ou no mundo, mostrar a cultura portuguesa pelo mundo todo é paixão que alimenta o coração. E músicos, cantores nada são sem coração e alma. Valeu a pena./ Tudo Vale a Pena/ Se a Alma Não é Pequena.

 

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Em termos de letras conta com Amélia Muge, Camilo Pessanha, Teresa Muge e inclusive poemas seus. Foi difícil a escolha? O que mais valoriza nos poemas?

Será sempre muito difícil escrever uma canção sem que a letra nada me diga. Não digo não a uma canção de amor, ninguém o poderá nunca dizer, mas futilidade do amor, nunca. Nem a futilidade do que quer que seja. Se não temos nada para dizer será sempre melhor estar calado. Eu estive calado até ao momento que tinha muito para dizer. Este disco diz muito. Sobre muita coisa, sobra o que se passa em Portugal mas também no mundo. Não pode haver indiferença. As letras deste disco são isso mesmo: muito para dizer, que fica dito e editado neste disco, neste momento, nos dias de hoje. E só poderia ter escrito estas canções agora.

 

 

 

Os músicos que gravaram este disco consigo são companheiros de longa data. A escolha foi fácil quando decidiu quem o acompanhava?

Os músicos Navegante estão definidos e escolhidos há mais de 20 anos (Miguel Tapadas e Vasco Sousa) ou pelo menos 10 anos ( Carlos Santa Clara e Abel Batista). É um Navegante já muito rodado, muitos espectáculos, muitos discos gravado em conjunto e uma cumplicidade visível em discos anteriores. Quando encontramos almas gémeas, bons amigos, belíssimos músicos é tudo mais fácil. Depois de os encontrarmos obviamente.

 

 

 

Conta com vários convidados neste disco. Quem são e porquê estas escolhas?

José Manuel David e Rui Vaz (ex. Gaiteiros de Lisboa) são companheiros de muitos discos, muitos projectos e muita vivência cultural que partilham ou partilharam desde sempre. Quatro Ao Sul, por exemplo, Prémio José Afonso em 2013 são um desses projectos. Carlos Alberto Moniz e Samuel, amigos e companheiros sempre disponíveis para participar e cantar com bem sabem. Mimmo Epifani, virtuoso bandolinista italiano, com o qual partilho o projecto José Barros e Mimmo Epifani, projecto ítalo-português ou luso-italiano, cujo primeiro disco foi editado em 2016. Rão Kyao pela admiração e som das suas flauta único no mundo. Armindo Neves um dos melhores guitarristas portugueses de sempre, amigo de longa data porque estamos há anos a combinar parcerias. O mesmo com o grande guitarrista Miguel Veras, que finalmente partilhámos sons acústicos como sempre nos propusemos.

 

 

 

À’Baladiça é o nome deste disco e inspirado no Alentejo. O que significa este termo?

 

A Abaladiça é um termo que se usa no Alentejo quando se quer beber a ultima rodada antes da partida. À’Baladiça é o uso da prosódia como o povo a diz. Bebemos a ultima rodada e partimos. Em Inglês One For The Road; a “saideira” no Brasil e não só. Uma para o caminho, ou a ultima para o caminho. O Alentejo e a sua riqueza cultural está aqui todo nesta expressão.

 

 

 

Este disco é também uma homenagem a Alvito e aos ‘Papa Borregos’ (Grupo Coral da Associação de Cante Coral Alentejano do Concelho de Alvito)?

A Abaladiça é realmente um termo que ouvi no Alentejo, em Alvito, na sede do grupo coral alentejano da Vila de Alvito, quando em muitas rodadas de amigos, de cantorias e boas conversas referíamos À’Baladiça antes de abalar, de voltar a casa. O Charro, ilustre amigo e familiar, era uma das referencias do cante em Alvito e no Alentejo. A meu amigo Charro ( que já não está entre nós…), a Alvito, ao cante alentejano, à viola campaniça e ao Alentejo todo, dediquei o tema que dá titulo ao disco: À’Baladiça.

 

 

 

Em termos de espectáculos o que já pode ser desvendado em termos de datas?

 

Dia 10 de Março, em Sintra, no C. C. Olga Cadaval, Grande Auditório, a primeira apresentação d’À’Baladiça, 25 Anos assim se vai chamar este grande concerto. Serão 2 horas de espectáculo para ouvir todos os 11 temas e todos os músicos e cantores convidados desta À’Baladiça, na 1ª parte, e 11 canções escolhidas de todos os outros discos passados.Festejamos 25 Anos com muitos convidados: Mimmo Epifani (Itália), Rão Kyao, Carlos Alberto Moniz, Samuel Quedas, Rui Vaz, José M. David, Armindo Neves, Isabel Silvestre, etc

 

 

 

Há espectáculos já marcados para o Alentejo?

 

Já temos agendamentos e propostas para o Alentejo, este ano como sempre tem acontecido ao longo dos anos. À’Baladiça, tema dedicado ao Alentejo poderá ser o mote para os próximos. Brevemente daremos eco de todos este agendamentos que agora decorrem.

 

 

 

Como analisa o actual momento da cultura, e da música em particular, em Portugal?

 

A cultura portuguesa, a música portuguesa, os músicos e cantores portugueses estão como sempre estiveram: a criar, a compor, a levar a cultura portuguesa a todo o lado e sempre com bons resultados. A crise na cultura não se espelha na criatividade. Mas sente-se, e os músicos passam por dificuldades. Quando há uma crise a cultura é sempre a primeira a sofrer as consequências. Ter a atitude certa é reconhecer quer as coisas não estão bem para os músicos, compositores, cantores, que passam dificuldades porque nem sequer conseguem vender o que fazem porque a pirataria discográfica é vergonhosa.

 

 

 

O que urge mudar?

Quem souber o que fazer com o formato áudio disponível para venda de música, tem com certeza a atenção e gratidão de todos os músicos, todos os compositores, cantores. Em relação aos espectáculos, factor decisivo para a sobrevivência da música, como sempre o foi, a aposta dos municípios é fundamental que seja pensada e programada de forma abrangente a todas as áreas musicais e não apenas a algumas como tantas vezes acontece.

 

 

 

O público sabe separar o trigo do joio no que à qualidade diz respeito?

Nem sempre. Uma parte obviamente que sabe distinguir. Mas não tenhamos ilusões: uma boa ou a maior parte não sabe. Por isso é tanta a responsabilidade de quem organiza, quem programa e quem dirige.

 

 

 

Em termos de redes sociais onde pode o público interagir consigo?

 

www.navegante.pt    

Youtube/jobarnavega

Facebook.com/JoseBarros

 

 

 

Qual a mensagem que pretende deixar aos leitores do Infocul?

Criamos música, música portuguesa, para que a nossa presença no mundo e no mundo da música se faça notar. Queremos que em Portugal essa presença seja sempre a primeira realidade. Existe uma forma de compor, de cantar, uma forma de tocar que sempre nos distinguirá de muitos países, muitos outros músicos. Mas será sempre em conjunto com esses países e esses músicos e outras músicas, que poderemos melhorar, conhecer e fazer melhor música. Não estamos nem queremos estar sozinhos a gostar de nós próprios, mas o que nos distingue é motivo de orgulho. E devia ser para todos os portugueses.

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Notícia publicada a 06/02/2018


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