Marco Rodrigues: “Eu faço questão de continuar a fazer um concerto de fado”

MarcoRodrigues@Barreiro-5326

 

 

O Fadista Marco Rodrigues actuou, no sábado, no Barreiro e o Infocul deu aqui a respectiva reportagem do espectáculo. No final do espectáculo, Marco Rodrigues concedeu entrevista a Rui Lavrador aproveitando para falar sobre a digressão.

 

 

 

Recordamos que o fadista já tinha concedida uma entrevista onde explicou, com maior detalhe, este novo disco. Aproveitamos também para recordar a reportagem do concerto no Barreiro.

 

 

 

 

Marco, o “Copo meio cheio” é o teu mais recente disco. Estás a apresentá-lo agora, hoje [sábado] aqui, no Barreiro. Como é que estão a correr estes concertos de apresentação? Como tem sido a reacção do público a este novo disco…que não é de fado, como tu disseste anteriormente.

 

Exactamente. Deixa-me muito contente por várias coisas neste disco. Para já consigo ter um dinamismo diferente no meu concerto. Eu faço questão de continuar a fazer um concerto de fado. Como reparaste, divido o concerto em dois blocos diferentes: um primeiro, onde as pessoas ouvem o meu registo que é um registo fadista, cantar fados mais tradicionais. Um trio tradicional. E depois tenho a possibilidade de apresentar este “Copo meio cheio” que traz um dinamismo diferente, onde acrescento, neste caso, a bateria e a percussão, sendo que há um instrumento de percussão que não é habitual como o contrabaixo sem cordas e serve como um instrumento de percussão. Há ai uma curiosidade, um som de madeira que traz algum tipo de interesse. E consigo com isso ter um dinamismo diferente. Começo com fados mais tradicionais, depois passo a apresentar este “Copo meio cheio” e depois a última parte do concerto é um misto entre alguns temas mais antigos e uns temas mais deste último disco.

 

 

 

Reparei que nos fados mais tradicionais tu optas-te mesmo por não ter percussão. É por uma questão estética ou é mesmo por uma questão de ideal?

Não. É uma questão de estética de linguagem. Para mim não faz sentido alguns fados terem…a maior parte dos fados tradicionais vivem muito da respiração entre o baixo, neste caso, e a puxada da viola. Aquele silencio que existe entre o ‘pum’ e o ‘tcha’ para mim é quase orgástica. Eu adoro esse silêncio, acho que faz todo o sentido a palavra aparecer no meio desse silêncio, a guitarra portuguesa aparecer no meio desse silêncio. Portanto, o preencher os fados tradicionais com algum tipo de som a nível de percussão para mim não faz muito sentido. Depois é uma questão de linguagem. Para mim não faz sentido mas para alguns pode fazer. Eu prefiro e sinto-me muito mais confortável e acho que faz mais sentido cantar dessa maneira mais tradicional. Lá está, sem adicionar, deixar que o tema respire por si só porque os fados têm essa característica, têm que respirar.

MarcoRodrigues@Barreiro-5321

 

 

Esta semana é a segunda vez que te estou a ver. Fizeste uma participação no concerto dos Amor Electro no Campo Pequeno para cantar o “Mar Salgado”. Em Portugal nós temos sempre o hábito de etiquetar os artistas: ou é fadista, ou é pop, ou é rock. Nunca pode ser versátil. Tem que ser sempre de um género. Com este novo disco há um afastamento do fado ou não?

Não. Nenhum afastamento. Aliás, é…eu sei que é apanágio em Portugal termos este…é quase cultural as pessoas quererem rotular as músicas e os intérpretes. Eu faço música de uma forma muito descomprometida. Eu tenho o fado como a minha matriz, conheço muito bem o fado, vivi no meio do fado durante…e contínuo a viver no meio do fado nas também ouço outras músicas e também há outro tipo de músicas que influenciam a música que eu faço e a mim. Portanto, não há rótulos parar mim. Há sim conhecer linguagens. isso sim é muito importante. É meio caminho andado para algum projecto ser mal feito quando alguns querem mexer numa linguagem que não conhece. isso é meio caminho andado para aquilo não ser uma coisa bem feita. Conhecendo a linguagem, sabendo respeitar as características das músicas e depois de uma forma completamente descomprometida deixar que as nossas influências e aquilo que nós ouvimos, cheiramos, as pessoas que temos à nossa volta, tudo isso influencia a música que nós fazemos e se o fizermos de uma forma descomprometida, aí sim vamos ter a nossa música porque é a nossa forma de apresentar a música e como sentimos a música. Essa coisa dos rótulos…eu acho que há bandeiras que se tem que segurar e eu conheço muito bem a bandeira do fado e conheço muito bem as pessoas que o seguraram durante uma serie de tempo, pessoas das casas de fado, as casas de fado, os bairristas, os tradicionalistas, como queiram chamar. Essas pessoas são essenciais para o fado. Foi assim que ele sobreviveu e assim que ele agora conseguiu um impulso diferente, e porque também as gerações se foram modificando. Naturalmente, hoje em dia não se escreve da mesma maneira, não se faz música que se fazia há 50 anos atrás porque é impossível, porque as pessoas…

 

 

 

O Carlão que o diga… [escreveu uma letra para um fado tradicional no novo disco de Marco Rodrigues]

Essa é uma forma de desafiar e também de me desafiar a mim, como disse no concerto porque não é normal um fadista cantar no fado Pena, a palavra swag. Não é?! E isso para mim e um desafio. Para mim faz todo o sentido. Nós estamos a viver 2018. O eu cantar swag num fado tradicional, as pessoas que estão a ouvir já sabem o que quer dizer swag, já faz algum sentido. Porque swag é uma palavra que encaixa perfeitamente naquilo que o Carlão queria dizer. São esses preconceitos que muitas vezes os brasileiros são muito melhores, e muito menos descomprometidos em relação a isso do que nós, a nível de que não tem problemas em escrever certas coisas, por exemplo. Acho que isso é fantástico.

 

 

 

Para terminar. “Copo meio cheio” é o nome deste disco. Pergunto se relativamente às expectativas iniciais que tinhas para a reacção do público, o copo já está meio cheio ou já ultrapassou?

Olha, eu para te ser sincero este disco mexeu comigo. Não foi ser um disco dedicado inteiramente ao meu filho e por ter neste momento um feedback que eu tenho recebido através das pessoas. Tanto nos temas mais conhecidos como  “O Tempo” como nos temas menos conhecidos, ainda, como esse do Carlão. O feedback imediato das pessoas deixa-me super contente e super orgulhoso. Portanto, o copo está já neste momento a transbordar e temos muitas coisas para acontecer com este copo ainda.

 

MarcoRodrigues@Barreiro-5299

 

 

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Notícia publicada a 19/02/2018


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