Sérgio Godinho: O novo disco “fala de amores e desamores, fala de situações sociais, fala de abandono, fala de problemas simples”

sergio godinho

 

 

 

Sérgio Godinho tem um novo disco, “Nação Valente”. É o regresso aos discos de um dos mais importantes nomes da cultura portuguesa, e da música nacional em particular. Num disco com 10 faixas, destacam-se as presenças de nomes como José Mário Branco, Márcia ou Pedro da Silva Martins. Todas as letras, excepção ao tema de Márcia, são da autoria de Sérgio Godinho.

 

 

 

Este álbum (que tem produção de Nuno Rafael) será apresentado nos dias 23 e 24 de Fevereiro no Capitólio, em Lisboa e nos dias 03 e 04 de Março na Casa da Música, no Porto. Os bilhetes para estes espectáculos estão disponíveis nos locais habituais.

 

 

O Infocul entrevistou Sérgio Godinho sobre este novo trabalho mas também sobre o seu lado mais pessoal e até a visão que tem da música portuguesa na actualidade. Houve ainda tempo…para o músico deixar ‘um conselho de amigo’ aos leitores do Infocul.

Quando é que começou a pensar neste disco?

 

Aproximadamente ainda de uma maneira muito informe há dois anos. Quando tive muito embrenhado na minha ficção narrativa. Primeiro no livro de contos e depois no romance. Mas ao mesmo tempo eu comecei a sentir, mas também o pessoal que trabalha comigo, e nomeadamente também os músicos e o Nuno Rafael, digamos que é o líder da banda, que tínhamos que começar a pensar num disco de originais e veio a ideia também de haver algumas parcerias neste disco. Eu várias vezes pedi música a outros e fiz letras também, como foi o caso do “Sopro do Coração” e outras canções que tiveram música, nesse caso, do Hélder Gonçalves e letra minha e também seguir também esse método embora haja algumas músicas do “Coração Valente” que são letra e música minha mas há várias com parcerias. Sempre com letra minha e música de outros. E foi assim, ‘o caminho faz-se caminhando’, como diz o clichê poético.

O ter trabalhado aqui, em termos de composição com o José Mário Branco, Nuno Rafael ou Filipe Raposo é uma aposta no seguro e na sensibilidade artística daqueles que já conhece bem?

 

É uma aposta…não. Houve novos. Foi uma aposta que foi caso a caso, realmente. Há ali dois compositores com quem eu nunca tinha trabalhado como compositores: o Pedro Silva Martins (dos Deolinda) e o David Fonseca. Com o David Fonseca eu tinha cantado e tinha composto uma canção no tempo dos Silence 4 mas a música não era dele. Ele tinha cantado ‘O meu irmão do meio’ mas nunca nos tínhamos cruzado assim. Mas essa aposta vem da própria Objecto. As músicas que eles me mandaram estimularam-me logo mas…quer dizer, a haver um convite há uma confiança que nós há de levar a qualquer coisa que seja interessante. Quanto aos outros sim. É uma continuidade. O José Mário Branco é o mais antigo parceiro. Há canções nos nossos dois primeiros LP’S que são comuns. “O Conhecimento do charlatão” tem uma versão dele e outra minha e há, portanto, reencontros sim.

O que é que o público pode esperar para este “Nação Valente”? É uma homenagem ou podemos considerar a sua visão sobre o país?

 

Uma homenagem não. Uma visão sim. Não é de maneira nenhuma uma homenagem. É uma visão activa do que é o nosso país mas no disco não está sempre a falar do país. Implicitamente até pode estar. Fala de amores e desamores, fala de situações sociais, fala de abandono, fala de problemas simples. Por exemplo, o “Noite e Dia” fala de um homem que tem  dois trabalhos, um no turno do dia e outro no da noite que já ao mesmo tempo está sem poder se encontrar consigo mesmo. Portanto, é…fala da vida no fim de contas. Mas sim, estou neste país e sou português, portanto sim. Mas não é uma homenagem.

O Sérgio estudou psicologia, passou pelo teatro, pelo cinema, editou vários discos e também livros. O que é que ainda lhe falta fazer?

 

Fazem-me essa pergunta muito recorrentemente, o que é curioso. É continuar  porque os palcos agora também vão começar a acontecer. Estou a rever o meu segundo romance. Este disco saiu agora. Felizmente está a correr muito bem. Entrou directo para número 1 do top e portanto ainda tenho muita vida à frente…e vida de palcos. Eu acho que é nos palcos que canção  se faz mesmo e ganha corpo porque toda aquela vibração do público, a nossa vibração e a vibração do público são momentos para mim únicos.

Temos aqui a indicação que recentemente apresentou o disco num concertos nos Armazéns do Chiado. Temos datas marcadas para o Capitolio e também para o Porto. Existem outras datas que já possam ser reveladas ao público?

 

Sei que existem outras datas mas não…isso está com o pessoal que trabalha comigo.

Vai percorrer só o país ou também vai para o estrangeiro?

 

Não há estrangeiro. Faço espectáculos no estrangeiro mas não é tão comum como isso porque as minhas canções não têm características étnicas, vá. Não tem instrumentos. O fado é mais fácil de exportar, por exemplo. Portanto, acontece mas não é coisa tão recorrente como isso mas à custa das canções já andei por muitos lugares.

Quem é que é o Sérgio Godinho fora dos palcos e o que é que gosta de fazer?

 

Eu gosto de ouvir música, gosto de ver filmes, gosto de estar com amigos, gosto de estar com aqueles que amo, gosto de perder tempo a conversar, gosto de comer e de beber. Agora só bebo vinho tinto ou branco, posso beber branco, mas sobretudo tinto, já não bebo whisky. Gosto de cozinhar de vez em quando, não sou um enorme cozinheiro mas gosto. Gosto de estar sentado numa esplanada a ver as pessoas passarem e a perguntar-me como será a vida delas ao mesmo tempo que bebo um copo de vinho tinto…tem que ser já ao fim da tarde.

Quem é que aponta como os mais promissores da música portuguesa?

 

Não tenho. Seria deselegante. Não vou responder a isso. A única coisa que eu posso responder a isso é que neste disco a única excepção, a única canção que não é minha é uma canção da Márcia, chamada “Delicado” e que eu cantei à minha maneira e com o nosso tempo um bocado diferente ficou muito minha também e acho que a Márcia tem um enorme talento. Compõe muito bem, tanto música como letra, tem uma maturidade que é surpreendente….É uma pessoa que tem uma maneira de escrever muito clássica. Por exemplo, o Samuel Úria, já estou em dois nomes, atira para vários lados e portanto também tem um percurso muito interessante mas não vou estar a particularizar muito. O que eu acho é que se estão a passar coisas muito interessantes na música portuguesa já há bastante tempo e em vários sectores. Há bocado falei no fado. Também no fado há novos nomes. Esses então vão aparecendo cada dia. Mas também noutros géneros. No pop, no rock, nas músicas que não se podem sequer definir. Eu não consigo definir muito bem a minha música porque é…são géneros mistos e eu gosto dessa mistura.

Qual é que é a mensagem que deixa aos leitores do Infocul?

 

Estejam com as antenas ligadas à vida mas não estejam com as antenas demasiado ligadas de maneira que não se consigam focar. É preciso focar também e levarmos as coisas até ao fim. O meu pai dizia…eu escrevia quando era garoto, começava um conto assim mas não pensava, não acabava e o meu pai dizia-me ‘Sérgio, aquilo que começas acabas’ e eu acho que também é importante. Não é bem um conselho mas é aqui…um conselho de amigo, vá!

 

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Notícia publicada a 12/02/2018


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