Ganadaria João Gaspar: “Muitas vezes saímos orgulhosos dos touros que apresentamos”

Ganadaria João Gaspar: “Muitas vezes saímos orgulhosos dos touros que apresentamos”, referiu João Paulo Gaspar.

Ganadaria João Gaspar: "Muitas vezes saímos orgulhosos dos touros que apresentamos"

Entrevista e Texto: Rui Lavrador
Fotografias: Paulo Gil

João Paulo Gaspar é, actualmente, o responsável da ganadaria João Gaspar que teve assinalável sucesso, na corrida inaugural das Sanjoaninas 2022, a 18 de Junho, na Monumental Praça de Touros da Ilha Terceira.

Uma ganadaria que data de 2010, tendo o primeiro touro sido lidado em 2011. Assim, contam-se 11 anos, desde a lide do primeiro touro.

Sobre estes onze anos, João Paulo Gaspar, referiu que “faço um balanço positivo. Não sei ao certo, mas cerca de 70 touros corridos, tivemos no máximo uns 10 maus ou mansos, 7 ou 8 bravo e o resto foram touros com qualidade, claro que com alguns defeitos, mas que no meu ponto de vista sempre serviram para lides boas, dos cavaleiros, e também para as pegas dos forcados”.

Sobre os primórdios da ganadaria, explicou que “esta ganadaria, curiosamente, era do meu sogro. O meu pai comprou esta ganadaria aos irmãos Toste. O Sr. Toste falou com o meu avô se queria comprar a ganadaria, era raça da praça, o meu avô tinha raça da corda. O meu pai falou comigo e com a minha irmã e decidimos que iríamos ficar com a ganadaria. Temos de ver que a ganadaria já estava feita e com gado muito bem apurado. Foi fácil comprar, mas o difícil é manter uma ganadaria. E ter bravura é ainda mais difícil, mas penso que temos conseguido manter as coisas. Já se sabe, claro, que queremos sempre mais. Um ganadeiro deve ser exigente com os seus touros, porque se não for, o público não ficará satisfeito de certeza. As coisas têm de sair bem para os aficionados”.

A ganadaria conta com reses de raça brava de lide, mas também da raça brava dos Açores. A diferença sente-se no comportamento e também na fisionomia.

O encaste esse é murube, explicando-se resumidamente da seguinte maneira. As vacas desta ganadaria foram adquiridas à Ganadaria Irmãos Toste, que por sua vez as tinham comprado a Paulo Caetano. Os sementais são da ganadaria Lupi. Há ainda a referir que há um semental de Rio Frio, que mais à frente será abordado pelo ganadeiro.

O encaste murube é um encaste que eu gosto muito. Vamos tentar manter este encaste, se bem que o touro que metemos às vacas há quatro anos era de Rio Frio, o que foge um bocadinho a isto, mas achámos que os nossos touros estavam a precisar de um bocadinho de picante, por assim dizer. Os touros murubes são muito nobres, considerámos que faltava um bocadinho de picante ou então que faltava um bocadinho de perna. O encaste murube não se pode perder, nem o queremos, e enquanto pudermos vamos fazer de tudo por isso”, explicou João Paulo Gaspar.

A ganadaria de João Gaspar lidou pela primeira vez um curro completo, no passado dia 18 de Junho, na corrida inaugural das Sanjoaninas 2022.

No primeiro dia fiquei um bocado desiludido, porque as expectativas estavam bem altas, mas depois já reflecti sobre a corrida e claro que o 4º touro é um manso que não serviu, mas os restantes penso que saíram bem. Nas pegas, os touros iam em linha reta, e depois de pensar e reflectir, sinto-me satisfeito com o curro que saiu”, referiu o ganadeiro, sobre o balanço dessa corrida.

Voltando à ganadaria em si, foi-nos revelado que “actualmente temos à volta de 150 animais. 30 touros de corda, esses que em pouco tempo temos de retirar aqui da ganadaria. Temos pouco espaço e queremos focar-nos nos touros para a praça. De lide, temos cerca de 35 vacas, 3 sementais. 1 deles é o pai desses touros [que foram lidados]. Estivemos a pensar se oiríamos manter ou não. É um segredo que ficará na ganadaria. Mas de lide, temos à volta de 120 cabeças”.

Uma das novidades nesta conversa que João Paulo Gaspar teve com o Infocul.pt, prende-se com o futuro dos touros para a tourada à corda.

Daqui a 2 ou 3 anos, com quase 100% de certeza, serão apenas touros de praça. Infelizmente, e eu sei que o meu avô gostava que mantivéssemos esses touros, mas não conseguimos. Vacas de corda temos aí apenas duas e vão ficar, apenas para eu dizer que tenho ainda gado do meu avô”, começou por nos dizer.

Sobre a selecção dos touros, explicou que “os touros para a tourada à corda, não fazemos assim nada em concreto. As novilhas, na altura do meu avô eram analisadas nos currais ou quando eram levadas a alguns arraiais. Mas o touro para a tourada à corda não é assim um animal muito exigente. Um touro com sangues cruzados dava um touro para tourada à corda que era um espectáculo”.

Relativamente à praça, as coisas são totalmente diferentes. As nossas novilhas são todas tentadas, com a muleta e vão à vara. Além disso, como a nossa ganadaria é mais dirigida a toureio a cavalo, o que nos interessa mesmo é a vara. Uma vaca que vá à vara e leva 2, 3, 4, ou 5 (varadas), claro que tem bravura. Porque é sinal que investe, sabendo que pisa, vai lá uma e outra vez. Além disso, as nossas novilhas são todas tentadas cá na terra pelos irmãos Pamplona [Tiago e João]. E posso dizer-lhe que de há cinco anos a esta parte, fiquei com cerca de 7 novilhas. Em 4 ou 5 tentas, fiquei com 8 novilhas só. Ou seja, é sinal que estamos a selecionar ao máximo. Também aqui não precisamos de ter 50 vacas, para correr 8 ou 10 touros. Tentamos ao máximo ficar com 100% de touros bons, embora isso seja uma coisa que nunca sabemos como vai ser”, acrescentou.

João Paulo Gaspar falou-nos depois dos grandes sacrifícios que são feitos para manter a ganadaria e dos elevados custos que isso acarreta.

É muito difícil. É preciso muito sacrifício, é mesmo das coisas que é preciso ter um gosto enorme. E se fizermos as contas todas, todas, todas desde trabalho a gasóleo, despesas, ração, milho, medicamentos, se juntarmos tudo, posso afirmar que nós ganadeiros não ganhamos dinheiro nenhum. E falo por mim e pela minha ganadaria. Não ganhamos nada! O que ganhamos muitas vezes é trabalho, ganhamos muitos desgostos, porque vida de ganadeiro tem muitos desgostos. Mas claro que também temos coisas positivas. Muitas vezes saímos orgulhosos dos touros que apresentamos. Agora, em termos lucrativos, são poucos. Porque há uma grande despesa para se manter os touros e o gado bravo”, referiu.

É preciso mesmo muito amor. Vamos dar um exemplo que está a ser lidado um touro na praça, de 4 anos. Esse animal já tem de ter no mato uma irmã/irmão de 3 anos, outro de 2 anos, outro de 1 ano e a mãe. Ou seja, um touro em praça, tem 4 cabeças no mato a comer por ele. Ou seja, 10 touros em praça, já temos 50 cabeças a comer. Ou seja, não é o touro que está em praça que vai pagar o sustento das outras cabeças todas. Depois, nós temos sempre o gado bem tratado, vacas a parir todos os anos. Mas uma ganadaria tem de funcionar assim, para que todos os anos possamos ter touros para a praça”, exemplificou.

Uma das questões que poderia trazer rentabilidade financeira a esta questão seria o turismo taurino.

Embora nos tenha referido que “já recebemos várias visitas para ver gado, novilhos, novilhas, o gado mais novo, e são sempre bem-vindos. Por vezes, chego aqui ao mato e aparecem ali pessoas a perguntar se podem entrar e eu deixo”. Contudo, são coisas pontuais e sem usufruto ou rentabilidade financeira.

Explicou-nos que não há agências turísticas com este tipo de programas e que para conseguir fazer o intitulado ‘turismo taurino’ “teríamos de estar dedicados a isto a 100%. Mas, eu tenho o meu trabalho, o meu pai tem as suas coisas e o que acontece é que eu venho aqui cerca de duas a 3 horas por dia, alguns dias mais, depende muito”, assim para que isso possa vir a ser uma realidade, teria de ter “outras condições no espaço onde pasta a ganadaria” e ainda “ter mais tempo para que pudesse fazer as coisas em condições”.

Sobre a forma como rapidamente se pode definir os touros desta ganadaria, João Paulo Gaspar começou por usar, e bem, o seu sentido de humor: “Vou usar duas palavras: Cornos Grandes”.

Há muita gente que diz que a nossa ganadaria tem muita córnea e a realidade é mesmo essa. O touro 41 de Samuel Lupi, que aqui deixou descendência é um touro com muita córnea. Por norma são touros pequenos, que chegam rematados à praça, com peito, com cara, são touros ‘escorridos’”, complementou.

Na mente está o sonho de ver os seus touros serem lidados no continente. “Se isso acontecesse, era um sonho. Podiam ser apenas 2 touros, mas claro que se fosse um curro de 6 era extraordinário. Ou até mesmo que fosse 1, por exemplo num concurso de ganadarias. Era uma coisa muito interessante e que ficaria na nossa história”, destacou.

Questionado sobre o facto de as ganadarias insulares estarem ‘resumidas’ a lidar touros no arquipélago, lembrou que no continente há muitas ganadarias, mas também que se falando das coisas, podia haver ganadarias insulares a serem lidadas no continente.

Destacou o momento mais desafiante enquanto ganadeiro, “este curro para as Sanjoaninas deste ano”, que se recorde foi a estreia da ganadaria a lidar um curro completo. Não considero que tenha sido um momento difícil, foi apenas difícil ao nível de ansiedade, emoção e nervos.

Dentro de 10 anos não sabe em ponto estará a ganadaria, mas garante que “ao nível da qualidade, estamos a manter”, esperando “não cair em tentação de meter outros sementais que sejam coisas muito diferentes”. Embora, “há 4 anos tenhamos colocado um semental de Rio Frio e depois um touro malhado, que vamos ver o que dá. Mas temos cá sangue murube e pelo menos para os próximos 3 anos haverá touros com esse encaste, que acho que nos vão dar mais alegrias, tal como os irmãos nos deram”.

Pela negativa, destacou ainda o aumento dos preços da ração e outros produtos, em parte devido à guerra entre Rússia e Ucrânia. Porém, assumiu que este ano cobrou mais dinheiro pelos touros, devido a esse mesmo aumento do custo dos produtos.

Por fim e convidado a definir a ganadaria numa única palavra, escolheu “Apresentação”.

E a ganadaria João Gaspar prima, maioritariamente, pela apresentação dos seus exemplares, fruto da entrega desta família à tradição, ao campo e ao gado bravo.

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