“Guerra dos Tronos” de Lisboa: o rei que regressa, o guardião do território e o príncipe herdeiro entraram em cena pelo trono do Campo Pequeno e aconteceu tudo, como se fosse uma série de ação ao vivo. E foi ontem, dia 7 de agosto de 2025.
Texto: André Nunes e Rui Lavrador / Fotografias: Nuno Almeida
Campo Pequeno: O Trono de Ferro
O Campo Pequeno é o trono simbólico do toureio a cavalo, um autêntico e metafórico “Trono de Ferro”. Quem triunfa aqui, confirma-se como figura nacional. E mais além… com os ecos de uma batalha a ecoarem por uma carreira.
Nesta corrida, todos querem ocupar o centro da arena — e do poder.
Três cavaleiros, três nomes, três caminhos para o mesmo Trono de Ferro — o da capital, o da honra, o da memória. A casa estava esgotada, em clima de expectativa e antecipação para um serão de competição e arte.
Tabuleiro de poder na primeira praça
Nesta noite de verão, a arena do Campo Pequeno transformou-se num tabuleiro de poder.
Diego Ventura regressou como os reis que partiram para conquistar e voltam para dominar. João Ribeiro Telles defendeu o território como quem guarda a história da sua casa, com a irreverência ilusionista que o assiste. E Tristão Telles Queiroz, com sangue nos olhos e o peso da linhagem nos ombros, fez da confirmação da sua alternativa um acto de reivindicação: não é apenas o filho — é o herdeiro.
Além disso, estiveram presentes os grupos de forcados amadores de Vila Franca de Xira e Académicos de Coimbra.
Em Lisboa, na noite de 7 de agosto, o jogo dos tronos foi jogado com ferros, com pegas e com toiros. E o trono de Lisboa — como sempre — só se ganha na arena.
E respondemos às perguntas: Quem domina? Quem herda? Quem regressa?
[Best_Wordpress_Gallery id=”8264″ gal_title=”campopequeno-7agosto-2025″]Tristão Telles Queiroz e a abertura do livro: confronto com ‘Rabino‘
Tristão é um jovem toureiro, mas cheio de legitimidade e promessas, à procura ainda de se afirmar. Nesta confirmação da alternativa, encontrou o momento em que entra oficialmente no jogo pelo trono. Pode-se falar do seu nome, mas tem demonstrado uma comunicação diferente com o público em praça, assim como coragem e transparência no seu toureio
Tristão Ribeiro Telles confirmou a alternativa no Campo Pequeno, tendo por isso aberto praça, frente a um touro que saiu distraído e andarilho, após a sorte gaiola bem executada pelo cavaleiro. Deixou-o aproximar-se da montada, em ladeares pela praça toda e até entre tábuas, sem permitir toques na montada. Nos compridos, esteve em bom plano.
O ginete ribatejano teve uma atuação atrevida, mesclando bons momentos com outros menos bons. A quarta e quinta bandarilhas curtas são de grande nível, principalmente pelos terrenos que pisou. Pelo meio duas passagens em falso e uma bandarilha curta (a terceira) cuja reunião não resultou bem. Contudo, ficou lançada uma rivalidade pelo trono da casa maior do toureio.
Lide positiva e muito aplaudida pelo público. Como curiosidade, o touro – da ganadaria David Ribeiro Telles – tinha ferrado o número 124, com 642 Kg, de nome Rabino. Manteve-se fiel ao confronto frontal com o oponente, com bastante ação e dinamismo para alegria do público a abrir a noite.
O jovem lobo entra no jogo dos tronos
Actuação muito positiva de Tristão Ribeiro Telles a fechar a corrida. Com atitude, voltou a executar sorte gaiola e a partir daí partiu para uma lide de muita qualidade, quer na brega em quer no desenho das sortes. Saiu em beleza e no momento certo, no momento mais alto da lide.
Assim, devido à sua juventude, Tristão demonstrou-se impulsivo (no bom sentido), com personalidade própria a emergir, ainda em busca de afirmação. Toureia com raça, às vezes até demais — a vontade de triunfar sobrepõe-se à frieza táctica.
Demonstra a pressão, ainda para mais na monumental de Lisboa, que tem e por isso nota-se que está num momento de transição, a deixar de ser promessa para ser presença. Assim como se nota que tem sangue, escola e talento. Tristão é o jovem lobo, o príncipe Robb Stark a caminho. Falta-lhe conquistar o povo e as praças, mas tem todo o tempo taurino para isso.
Diego Ventura: regresso para uma batalha
Após anos sem tourear em Portugal, Diego Ventura fez um regresso histórico no Montijo. Mas faltava algo mais. O regresso à catedral do toureio a cavalo. Passou anos fora, consolidou sempre o seu império, mas regressa ao centro de poder.
No Campo Pequeno, não veio conquistar — veio reclamar o que já foi dele com lides diferentes de alguma monotonia que se instala por vezes na nação portuguesa. Mostrou-se explosivo e com uma quadra afinadíssima que quase que dança à frente do oponente.
Ventura é o rei que voltou do exílio com dragões — neste caso, cavalos de fogo. Não pede licença. Chega, toma e impõe-se, com um Jon Snow da tauromaquia.
Não há como negar que o público estava em delírio com Ventura, logo desde que começou a dobrar o touro no início. Na tentativa do primeiro comprido, teve algumas hesitações neste regresso esperado, quebrando o ritmo e o calor da assistência. Ainda assim, recebeu palmas de encorajamento e, no segundo intento, cravou um bom ferro comprido.
Foram 8 anos passados deste a última vez que pisou o reino do Campo Pequeno. A sua primeira actuação é de distintos sentimentos. Total domínio das montadas, toureio de cercanias e pausado, assinalando-se a segunda e terceira bandarilhas curtas como extraordinárias, com cite muito em curto, forte batida ao píton contrário e reuniões ajustadas.
Rematou a lide com chave d’ouro ao apostar na cravagem de um ferro, com a sua montada sem cabeçada. Pena as 3 passagens em falso ao longo da lide, que retiraram algum brilho à actuação. Lide muito positiva, com o público a aplaudir bastante o rejoneador luso-espanhol.
Usou sempre a sua montada quase como uma muleta, ladeando, tudo quase em slow motion — o silêncio reinava até ao momento da cravagem.
Delírio imediato nas bancadas para El Rey
Na segunda lide, apresentou-se mais efusivo e ritmado, como é seu timbre.
El Rey Diego Ventura esteve estratosférico no regresso ao reino do Campo Pequeno na lide do segundo touro do seu lote. O perfeito domínio de espectáculo de Ventura fá-lo dominar todos os momentos da sua actuação e a passagem por Lisboa foi rematada com pinceladas de maestria, rebeldia e a noção de que actualmente é o número 1 em termos mediáticos. Dois curtos a provocar o touro, deixando ele arrancar, antes de fazer batida ao píton contrário e cravar, para depois elevar ainda mais a fasquia enquanto reduzia distâncias na preparação das sortes seguintes. Com o público completamente em êxtase, rematou a actuação com três ferros de palmo em sorte de violino e apeando-se do cavalo. Ventura (re)conquistou Lisboa.
Em vários momentos marcantes, cavalo e touro ficaram imóveis frente a frente, numa verdadeira medição de forças. O tempo pareceu parar, apenas embalado por pasodobles que evocavam os temas de Ennio Morricone para Sergio Leone, na tensão e intensidade. Ventura foi rojoneador nesta noite, mas também ator que soube levantar o público.
[Best_Wordpress_Gallery id=”8265″ gal_title=”campopequeno-7agosto-2025-1″]João Ribeiro Telles: o guardião do território nacional com honra e espetáculo
O cavaleiro João Ribeiro Telles já é uma força estabelecida e surgiu em Lisboa após uma temporada de elevação e de foco. Segue uma linhagem que “governa” com sabedoria, rebeldia artística e com honra também. Para além de um papel de continuidade, surgiu ontem com papel de liderança familiar, tal como um Lannister.
João é o regente que governa com honra — com força na raiz e noção do espetáculo que nos melhores dias consegue conceder. Sabe quando elevar a expectativa, arriscando e aplicando um confronto dramático que rasga o protocolo. O seu toureio vai das entradas frontais às batidas ao pitón contrário, pureza e verdade.
A primeira lide foi de qualidade, templada, madura e a confirmar a grande temporada que tem vindo a desempenhar. Três bandarilhas curtas de boa qualidade, embora a lide não tenha chegado com som suficiente à bancada, o cavaleiro esteve em plano superior, destacando-se ainda na brega e na escolha dos terrenos para o desenho das sortes. Hesitou no primeiro curto, mas, na restante lide, elevou a intensidade, com um toque de classe na montada. Ligou-se ao público e ao oponente, que lhe deu espaço para desenhar um toureio ao seu estilo — energético.
Estilo veloz e liderança serena
João Ribeiro Telles teve uma segunda actuação mais “morna”, ainda assim com momentos positivos e destacando-se em duas bandarilhas curtas e na parte final com o cavalo Ilusionista, com o qual deixou uma bandarilha a quiebro, como é habitual. Enfrentou um touro que nem sempre foi claro na investida, principalmente no momento da reunião.
João mantém a onda triunfal desta temporada, e a sua passagem pelo Campo Pequeno foi mais um passo numa temporada que tem tudo para marcar a diferença.
Forcados: as casas aliadas na batalha
Os grupos de forcados de Vila Franca e Académicos de Coimbra são, nesta metáfora, as casas nobres aliadas que protegem, honram e equilibram o jogo. Entram em campo como os exércitos leais aos seus senhores, enfrentando a bravura dos toiros.
Pelo grupo de Vila Franca de Xira, Lucas Gonçalves concretizou a pega ao primeiro intento com competência e com o grupo a fechar bem e rapidamente. Rodrigo Andrade concretizou a pega à primeira tentativa, de forma fácil. Guilherme Dotti cumpriu a missão ao primeiro intento, aguentando bem a investida do touro, até o grupo conseguir fechar.
Por sua vez, em representação dos Académicos de Coimbra, Martim Rodrigues concretizou a pega ao segundo intento, após não reunir bem na primeira. João Gonçalo concretizou a pega à segunda tentativa, após brindar a deputados e presidentes de câmara. António Pinto Basto concretizou a pega ao primeiro intento, com arte e valentia.
Os dragões: seis toiros de Ribeiro Telles
Os touros são tudo o que resta do Mundo Antigo, da era dos deuses, tal como os dragões de “Game of Thrones”. O touro é o animal mais belo e o seu culto é o ritual mais antigo de todos os tempos. Os seis toiros Ribeiro Telles são assim criaturas simbólicas do poder e do risco. São o juízo final de cada cavaleiro: ou os vencem, ou caem perante eles. Apesar de díspares em força, contribuíram para uma noite animada em Lisboa, onde existiram detalhes para todos os gostos dos aficionados.
Em suma, nesta corrida tivemos um regresso triunfal de um “rei de fora” (Ventura), e a entrada de um novo jogador no tabuleiro (Tristão), com o senhor do território (Telles) a assumir-se como um dos governadores da nação taurina portuguesa, que ainda tem a tocha bem acesa nas suas mãos, e que seguirá para sucessos ainda esta temporada.
[Best_Wordpress_Gallery id=”8266″ gal_title=”campopequeno-7agosto-2025-1-2″]Lisboa respira toureio e tem vontade por mais e mais
Nota final ainda para o diretor de corrida do evento. Portou-se de forma mais justa digna do que o exemplo. Foi coerente nas suas decisões de conceder música e/ou voltas, e decerto que nenhum artista se sentiu prejudicado nas suas decisões. Foi uma direção irrepreensível.
Até a “banda sonora” esteve mais cinematográfica, ao estilo HBO, “nas mãos” da Banda do Samouco que, apesar de manterem um alinhamento já típico, mostraram uma cadência diferente na sua interpretação nos pasodobles que acompanharam as cortesias e as duas lides de Tristão.
Seguimos para o resto da temporada, com uma lufada de ar fresco e muito do que falar. E afición também é isso! Falar, conviver, e sair de Lisboa a desejar ver mais, inclusive ver mais no Campo Pequeno. O trono está lá, seguirão os próximos cavaleiros ainda este mês! Mesmo com detalhes que não foram brilhantes, os cavaleiros e forcados de ontem frisaram um pensamento que o público demonstrou ser verdade: já estamos em agosto, mas a temporada está a aquecer, tal como o tempo, para melhor!




