Inês de Vasconcellos sobre o novo disco: “Eu quis realmente encontrar canções que me fizessem sentido”, afirmou.
Há discos que chegam depressa ao mundo. Outros preferem ficar mais tempo no silêncio, a amadurecer antes de ganhar forma. “Entre Ontem e Agora”, o novo trabalho de Inês de Vasconcellos, pertence claramente a essa segunda categoria.
Foram cinco anos até que este segundo disco de originais ficasse pronto. Cinco anos que, na verdade, contam mais do que o simples tempo de produção de um álbum. Contam uma transformação.
A própria cantora reconhece que o percurso entre um disco e outro foi feito de mudanças inevitáveis.
“Porque nós estamos em constante mutação, as coisas muitas vezes não acontecem no tempo que nós desejamos que aconteçam.”
E é precisamente essa ideia que atravessa todo o trabalho. A música surge como consequência do tempo vivido — não apenas como projeto artístico.
Um disco que nasce da procura
Para Inês de Vasconcellos, fazer um disco nunca foi apenas reunir canções. Foi, sobretudo, encontrar aquelas que realmente fizessem sentido no momento certo.
“Um disco é algo que dá muito trabalho a fazer, temos que ter as canções certas.”
Essa procura acabou por definir a identidade do álbum.
“Eu quis realmente encontrar canções que me fizessem sentido, que eu conseguisse realmente interpretar, que fossem a minha verdade.”
O resultado é um disco que reflete um caminho pessoal e artístico. Um trabalho que não tenta apressar conclusões, mas antes registar um momento de maturidade.
O próprio título resume essa passagem.
“Portanto, daí também o disco chamar-se Entre Ontem e Agora, porque ontem eu era uma artista, hoje sou outra.”
O tempo também muda quem canta
Cinco anos podem parecer pouco tempo, mas na vida de um artista são suficientes para alterar muitas coisas. Experiências, encontros, perdas ou descobertas acabam sempre por deixar marcas.
Inês de Vasconcellos não tenta esconder essa evolução.
“Quem não muda em 5 anos? E eu não sou exceção.”
Essa mudança atravessa o disco de forma subtil. Está na forma como as canções são interpretadas, no tom das escolhas musicais e na forma como o fado surge integrado num universo mais amplo.
“Em 5 anos aconteceu muita coisa na minha vida. E eu acho que isso reflete na interpretação dos fados e das canções.”
O fado como casa — mas não como limite
Embora o fado continue a ser a base do seu universo musical, neste disco ele aparece como ponto de partida e não como fronteira.
A cantora descreve essa relação com uma imagem simples, mas eficaz.
“O fado é casa de partida, mas é uma casa com várias divisões e onde cabem vários jarros com vários ramos de flores.”
Essa metáfora traduz bem o espírito do disco. Há espaço para o fado, mas também para canções que se aproximam de outras linguagens musicais.
O resultado é um equilíbrio entre tradição e abertura. Um território onde a identidade fadista continua presente, mas sem necessidade de se fechar sobre si própria.
A canção que se impôs desde o primeiro momento
Entre os temas do álbum, “Mãos do Destino” ocupa um lugar especial. A canção nasceu durante uma sessão criativa na Valentim de Carvalho, a partir de uma ideia inicial dos Átoa e Mário Monginho.
Mas, mais do que o processo técnico, o que ficou foi o impacto imediato.
“Eu não sei explicar, é daquelas canções que para mim hipnotizou-me logo desde o início.”
Há músicas que se impõem naturalmente.
“Percebi logo que eu quero mesmo cantar esta canção e é uma canção muito especial.”
Esse tipo de ligação raramente se explica em palavras. Acontece.
Um disco que começa no digital
“Entre Ontem e Agora” encontra-se disponível, para já, apenas em formato digital. A possibilidade de uma edição física continua em aberto, mas ainda sem confirmação.
“O disco para já, só formato digital, formato físico talvez em breve, mas não para já.”
Para uma artista que cresceu numa tradição musical profundamente ligada ao palco e ao contacto direto com o público, o passo seguinte surge naturalmente.
O palco como próximo destino
O disco deverá ganhar vida em concerto já nos próximos meses. Inês de Vasconcellos prepara uma apresentação ao vivo em Lisboa, prevista para maio, numa sala que descreve como emblemática.
Os detalhes finais ainda estão a ser fechados.
“Sim, vou ter uma apresentação ao vivo numa sala emblemática aqui em Lisboa no mês de Maio.”
A data, para já, permanece por anunciar.
“Ainda não posso dizer o dia porque ainda não está tudo fechado.”
Até lá, “Entre Ontem e Agora” cumpre aquilo que o próprio título promete. Não é apenas um disco. É um ponto de passagem.
Um lugar onde se encontram duas versões da mesma artista: a que existia ontem e aquela que continua a nascer agora.
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