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‘Inverbo’: O novo disco de Pedro Abrunhosa

‘Inverbo’: O novo disco de Pedro Abrunhosa saiu hoje e arrisca-se a ser o melhor disco de 2026, mesmo ainda estando em Janeiro.

Ouvi Inverbo sem pressa. E isso, hoje, já diz muito.

Fiquemos muito tempo a ouvi-lo

Não é um disco que se escute em movimento, nem enquanto se responde a mensagens, nem com o pensamento a meio de outra coisa qualquer. Pelo menos comigo não funcionou assim. Tive de parar. Sentar-me. Voltar atrás em algumas canções. E aceitar que não estava ali para “avaliar” nada, mas apenas para escutar.

Cinco anos depois de Corpo I Alma, regressa com um disco que não parece querer regressar a lado nenhum. Inverbo não soa a resposta, nem a reacção, nem a reposicionamento. Soa mais a necessidade. E isso é uma diferença grande.

Há muito tempo que não sentia um disco português a pedir tanto tempo. Não porque seja hermético ou difícil, mas porque se recusa a ser apressado. As canções são longas. Algumas demoram a abrir. Outras insistem numa mesma ideia até quase incomodar. Mas isso faz parte do gesto. Nada aqui parece pensado para funcionar rápido.

A palavra como casa

A palavra ocupa o centro de tudo. Nota-se. Antes de qualquer melodia ou arranjo, há linguagem. Há frases que pedem silêncio à volta. Há versos que não querem ser ultrapassados. E isso obriga-nos, enquanto ouvintes, a fazer algo que já não é muito comum: ficar.

Ficar numa canção. Numa ideia. Ficar num sentimento sem logo tentar resolvê-lo.

Não sinto Inverbo como um disco sobre amor no sentido habitual. Não é celebração, nem drama, nem catarse fácil. O amor aqui aparece mais como insistência. Como aquilo que sobra quando o entusiasmo passa. Quando o mundo se torna barulhento demais. Quando a vida, simplesmente, cansa.

Há uma melancolia constante, mas não paralisante. Não é um disco derrotado. É um disco cansado, talvez. E lúcido. O amor surge como forma de permanência, não como promessa de salvação. Isso torna-o mais próximo. Mais verdadeiro. Pelo menos para mim.

Um disco que só faz sentido ao ser cantado por ele

A voz de Abrunhosa ajuda a tornar tudo isso credível. Continua imediatamente reconhecível, mas soa diferente. Mais marcada. Mais exposta. Há menos vontade de impressionar e mais vontade de dizer. Às vezes quase parece que está a falar mais para si do que para nós. E isso cria uma intimidade estranha, desconfortável em alguns momentos, mas honesta.

Nem todas as canções me tocaram da mesma forma, e isso parece-me normal num disco assim. Mas houve algumas que ficaram logo. “Vem Abrir a Porta à Noite”, “É Sempre Escuro Antes de Amanhecer”, “Glória aos Vencidos por Amor”, “Não Te Ausentes de Mim” e “Esta Saudade Não Dorme” foram aquelas a que voltei mais vezes. Não sei explicar exactamente porquê. Talvez pela forma como a palavra e a interpretação se encontram. Talvez pelo espaço que deixam.

Um disco “Em contramão”

Há algo de profundamente anti-contemporâneo em Inverbo. Não no sentido nostálgico, mas no sentido de recusa. Recusa da pressa, da simplificação. Recusa de transformar emoções complexas em mensagens fáceis. Isso tem um custo. Este não é um disco “imediato”. Não é um disco para todos os momentos. E talvez não queira ser.

Num mundo que nos empurra constantemente para a frente, Inverbo faz outra coisa: convida-nos a ficar. Ficar mais um pouco. Com a música. Com a palavra. Connosco próprios.

E, honestamente, isso já é muito.

Obra brilhante de Pedro Abrunhosa!

Alinhamento do disco:

  1. Leva-me P’ra Casa
  2. Vem Abrir a Porta à Noite
  3. Devias Vir Salvar-me
  4. É Sempre Escuro Antes de Amanhecer
  5. Fica Comigo Que a Noite é Perto
  6. Glória aos Vencidos por Amor
  7. Morri Mil Vezes no Teu Peito
  8. Não Te Ausentes de Mim
  9. Oxalá o Meu Vestido Ainda se Lembre de Mim
  10. Olha Por Ti Antes de Olhares Por Mim
  11. Esta Saudade Não Dorme
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