Quinta-feira, Março 4, 2021

José Macedo Tomás aborda os 50 anos do Grupo de Forcados Amadores de Coruche em entrevista ao Infocul

Foto: Rute Nunes e Carlos Pedroso/Infocul.pt

O Grupo de Forcados Amadores de Coruche celebra, em 2021, 50 anos de actividade. Para a efeméride foi já criado um logótipo específico e estão previstas outras acções. O Infocul.pt esteve em Coruche para entrevistar o actual cabo do grupo, José Macedo Tomás, sobre este momento especial e também para abordar o presente e futuro da tauromaquia e algumas histórias do grupo.

José Macedo Tomás é conhecido como faísca, por inerência familiar, filho de um dos elementos fundadores do grupo, actual cabo e destaca-se como um excelente primeiro-ajuda.

50 ANOS DO GRUPO DE FORCADOS AMADORES DE CORUCHE

Em conversa com o Infocul, começou por dizer que “para nós é um marco muito importante. Foi um grupo construído com muita dificuldade, com muita turbulência. Temos uma história muito sofrida. É importantíssimo para nós chegarmos aqui a este marco, aos 50 anos”.

Em tempo de pandemia, que coloca tudo em suspenso, assume que “tínhamos muitos projectos, vamos ver quais são possíveis de realizar”, adiantando ainda que “em concreto, temos já algumas corridas preparadas para pegar. E gostaríamos que uma delas fosse mesmo a de aniversário, se possível, no dia 24 de Junho, data da fundação e dia em que o grupo se estreou”.

O Cabo disse ainda que “temos uma série de outros desejos ou sonhos, outras ambições, mas esperemos que quando o tempo melhorar e chegarmos ao verão, possamos fazer algumas corridas mais”, dando conta de que “as cerimónias presenciais vão ser muito dependentes do que for possível fazer, mas uma das coisas que vamos fazer, e já começámos a fazer, é relatar algumas histórias destes 50 anos e partilhar com os nossos seguidores, nomeadamente dos meios online”.

Foto: Rute Nunes e Carlos Pedroso/Infocul.pt

SER FORCADO

Sobre o momento em que decidiu que ser forcado seria uma boa opção, disse, por entre risos e bom humor, “acho que não é nenhuma opção de vida, muito menos boa. Eu recordo-me do primeiro treino e sei que o vício ficou logo aí”.

Detalhou, recuando no tempo: “Foi em 2002, já há muito tempo, e um amigo meu da altura, o João Galamba, tinha ido a um primeiro treino de temporada do grupo de Coruche e naquela semana não me falou de outra coisa. Convenceu-me a ir”.

Por entre mais uma boa dose de humor, assumiu que “não tinha jeito nenhum, como ainda hoje pouco tenho, para pegar de caras. E como em qualquer primeiro treino de qualquer elemento, há um momento em que se vai ter de pegar de caras”.

Fiz quatro ou cinco tentativas para pegar uma vaca pequenina… aquilo deixou-me tão frustrado, que a frustração me viciou e depois disse ‘não pode ficar assim, tenho de resolver na próxima’. Depois há o ambiente e a amizade no grupo. E isso é que me agarrou, tenho muito orgulho e satisfação nisso. Não trocava isto por nada”, afirmou convicto.

Mas disse sem rodeios: “Não é uma boa opção de vida, por muitas razões”. “É uma paixão e todas as paixões são difíceis de colocar em palavras”, acrescentou.

Questionado se os forcados são conhecidos como os românticos da festa por serem os que menos recebem ou se por, verdadeiramente, serem os que mais amam esta tradição, disse que “os ganadeiros são os mais apaixonados e a base de tudo. Se não houver touros, não há tauromaquia. Nós não recebemos para fazer as pegas, o ganadeiro acho que entra em prejuízo para criar o touro”, acrescentando que “se formos pelo critério da remuneração, o verdadeiro romântico é o ganadeiro”.

PRAÇA DE TOUROS DE CORUCHE: A PRESSÃO DE ESTAR SEMPRE BEM!

A entrevista foi concretizada junto da Praça de Touros de Coruche, actualmente sob gestão d’A Nossa Praça.

José Macedo Tomás disse que “o público de Coruche não é muito condescendente, nem connosco nem com os outros artistas. Acabamos até por sentir alguma pressão, porque não queremos defraudar o nosso público. Há outras praças em que o público é muito mais condescendente”, e que por isso “eu enquanto Cabo, há outras praças em que me sinto mais à vontade para arriscar num elemento mais novo, menos rodado, do que em Coruche”.

Explica que Coruche é “uma praça desafiante, em que queremos estar sempre bem”.

Foto: Rute Nunes e Carlos Pedroso/Infocul.pt

SER CABO

Enquanto cabo, revelou que “a única coisa que um forcado precisa de ter para pertencer ao grupo de Coruche é humildade e vontade. Vontade para ser forcado e humildade para saber esperar o seu tempo, tem de aprender com os outros, tem de ter o seu tempo”.

Assumiu que “a minha maior dificuldade é juntar a constância e regularidade do grupo dentro de praça (…) sem afastar alguns elementos que têm menos qualidade ou estão menos rodados. Isso tem sido o mais difícil. O ideal era que todos tivessem a sua oportunidade e que quando chegasse a sua oportunidade, todos estivessem à altura”.

O NOVO LOGÓTIPO

A primeira iniciativa para marcar os 50 anos do grupo foi a criação específica de um logótipo para esta temporada, de modo a assinalar a efeméride.

José Macedo Tomás explicou que “a ideia do logótipo não é original, já muitas marcas o fazem para criar o marco”.

Realçou que “são 50 anos, queremos dar importância ao momento e esta é uma das pequenas coisas que queremos fazer para a importância que queremos dar”, acrescentando que “entendemos que devíamos fazer isto, criar um logótipo apenas para esta temporada- a temporada dos 50 anos- e é apenas e só para isso. As pessoas têm recebido muito bem a importância que estamos a dar a esta temporada. O logótipo tem sido muito bem recebido, pela estítica, ficou muito apelativo e pela própria mensagem que transmite e foi buscar ao logótipo original que é de entreajuda, que o grupo é uma entidade sem rosto”.

GERAÇÕES DO GRUPO DE FORCADOS AMADORES DE CORUCHE

Sobre a importância das histórias que os mais antigos transmitem aos forcados mais novos e a relevância que estas assumem para que seja entendida a grandiosidade do grupo, José Macedo Tomás abriu o coração.

Faço aqui uma confissão: É uma das partes do grupo de Coruche, em que ainda olho para outros grupos com inveja. Os nossos elementos quando penduram a jaqueta, fazem um luto enorme e desaparecem durante 5, 6, 7 anos. Tem sido a cultura do grupo de Coruche, não consigo encontrar nenhuma razão, mas tem sido assim, os casos que não são assim são raros”, começou por dizer.

Acrescentou que “é uma das coisas que eu gostava de mudar. Não sei se vou conseguir. Mas temos feito por isso”.

O INTERESSE DO PÚBLICO FEMENINO PELOS FORCADOS

Sobre o afamado interesse que os forcados despertam no público feminino, começou por se rir ao dizer que “foi um bocado com essa história que fui enganado, também. Eu desde que fui para os forcados tenho um conjunto de cicatrizes, mazelas muitas, já fiquei sem dentes, portanto não me parece que isso tenha contribuído para atrair o público feminino”.

Quando questionado se tinha tido poucas mulheres durante o tempo em que integra o grupo de Coruche, assumiu que “sim, muito poucas (esta parte depois é para cortar) [risos].  A minha mulher não pode ver esta parte”.

OS ANTI-TAURINOS E O QUE PODE SER MELHORADO NA TAUROMAQUIA

Sobre a actual fase crítica para a tauromaquia, em termos sociais, José Macedo Tomás disse que “o que motiva as pessoas a criticar a tauromaquia é o desconhecimento. Porque se conhecessem a fundo a cultura tauromáquica, a maioria ia entender um pouco do que está por detrás dos 15 minutos em que o touro é lidado na arena. Os fanáticos serão sempre fanáticos”, acrescentando que “as pessoas estão um bocado formatadas para achar que os animais respondem aos mesmos estímulos que os humanos”, dando como exemplo “muitos anti-taurinos que criticam a maneira como tratamos o touro bravo, mas que depois têm os seus cães fechados no apartamento 23 horas por dia”.

Deixa ainda uma mensagem aos aficionados: “Não podemos reagir com a agressividade com que nos atacam”.

Há muita coisa em que podemos melhorar. Não falo da parte dos 15 minutos da lide, mas falo da parte do transporte e no pós-corrida”, detalhou, acrescentando que “acho que o que temos, em Portugal, no pós-corrida é bastante mais danoso para o animal do que a lide”.

Foto: Rute Nunes e Carlos Pedroso/Infocul.pt

A IMPRENSA E AS CORRIDAS APENAS COM 4 TOUROS

Nesta entrevista, o cabo do GFAC falou ainda sobre a imprensa e a relação dos agentes da festa com ela.

Sobre o motivo de os forcados não serem tão criticados nas crónicas e serem os que menos espaço ocupam em termos textuais, disse que “talvez os cronistas não se sintam tão à vontade para criticar os forcados como se sentem para criticar os cavaleiros, um matador ou bandarilheiro”, explicando que o público gosta muito dos forcados e que essas críticas poderiam levar a outras críticas por parte do público à imprensa.

Coruche marcou a diferença em 2020 com a realização de uima mini-feira taurina, com 4 touros em cada corrida, e sobre esta opção de corridas apenas com 4 touros (ao invés dos habituais 6/7), o cabo do GFAC disse que “os puristas vão sempre dizer que é travestir o espectáculo. Se lhes respondermos que antigamente havia corridas com 12 touros, eles vão responder que depois passámos para 8, 6, agora 4 e se assim continuar qualquer dia não há nada. Eu acho que é um argumento válido”.

Acrescentou ainda que “acho que é uma experiência como outra qualquer. Acho que correu bem. Como artista não me interessa, porque eu quero pegar o maior número de touros possível”, ressalvando que “se calhar numa nocturna faz sentido. Se calhar, se fizermos como aqui em Coruche, 2/3 dias, faz sentido. Os 12 touros que se faziam divididos por 2 corridas, passam a ser divididos por 3. Isso é tudo válido”.

REGRESSO AOS TREINOS E OS MAIORES RIVAIS

Em pleno confinamento, o cabo não sabe quando poderá o grupo regressar aos treinos.

Já estava a preparar as coisas para treinarmos no final deste mês [janeiro], mas com este confinamento ficou tudo cancelado. Estamos à espera da mudança do estado da pandemia, para podermos marcar”.

Quando questionado sobre quais considera os grandes rivais do Grupo de Forcados Amadores de Coruche, explicou que “provavelmente estes grupos que eu digo, não nos vêm da mesma forma”, antes de mencionar os grupos de Montemor e Amadores de Alcochete.

Foto: Rute Nunes e Carlos Pedroso/Infocul.pt

CRÍTICAS, ELOGIOS E PARTIDAS

Sobre a forma como recebe as críticas, disse que “ninguém gosta de críticas. Demoro a digeri-las. Mas há uma coisa que não faço: Não selecciono críticas pelo emissor, mas sim pelo conteúdo”.

Pedimos ainda uma reacção, sobre o público feminino considerá-lo um dos cabos mais bonitos em Portugal, tendo respondido: “Que reacção é que se pode ter? Sorriso e Obrigado”.

Desafiámos ainda a contar uma peripécia que tenha acontecido, desde que está no grupo. Antes de ler, pegue num lenço e prepara-se. Vai rir até às lágrimas:

Uma vez pegámos na Póvoa de Varzim- não me lembro que corrida era nem que touros eram- mas a corrida deve ter corrido bem, porque a seguir fomos até à discoteca e foi…até a discoteca fechar.

Depois, à boa moda dos forcados, dois quartos para fardar- o objectivo é fardar, jantar e depois ir embora- mas a corrida deve mesmo ter corrido bem porque ninguém foi embora.

Então, tínhamos 2 quartos de hotel para 20 e tal / 30 elementos.

Quando chegou o sono, chegou a sério. Num dos quartos já estava tudo a dormir, uns para um lado, outros para outro. Nas malas dos forcados há sempre a pomada de aquecimento, o bem conhecido muscular. Então do que se lembraram? Baixaram os boxers de um, que estava a dormir de barriga para baixo, afastaram as nádegas e espalharam a pomada nessa zona que o sol não vê. Depois foi achocalhar e está feito.

Entretanto há um que está na casa de banho e o que foi vítima da partida começa a ficar com calores. Ele arranca para a casa de banho e pede “deixa-me entrar, deixa-me entrar…” e fica toda a gente do quarto a rir, com ele dentro da banheira e com o chuveiro a tentar acalmar o ardor… Ainda hoje há muita gente que dorme com receio e à cautela de barriga para cima”, revelou.

A nível particular, recordou o momento em que “numa volta à arena no Campo Pequeno, foi atirado um leque pelo José Castelo Branco e eu pela graçola peguei no leque, beijei o leque e atirei de novo ao José”.

Pode ver e ouvir a entrevista na íntegra, no link abaixo:

Entrevista e Texto: Rui Lavrador
Fotografias e Vídeo: Rute Nunes e Carlos Pedroso
Produção: Infocul.pt

Rui Lavrador
Rui Lavradorhttp://www.infocul.pt
Jornalista e Director Infocul.pt

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