Quarta-feira, Agosto 4, 2021

LisbonPH entrevista Prof. Doutor. João Gonçalves

A LisbonPH – Júnior Empresa da Faculdade de Farmácia da Universidade de Lisboa entrevistou o Professor Doutor João Gonçalves, Professor Catedrático da Universidade de Lisboa, nos departamentos de Microbiologia e Imunologia da FFUL, e atual Coordenador deste Centro de Investigação que tem, nomeadamente em tempos de pandemia, sido fulcral na testagem e desenvolvimento de soluções terapêuticas.

Esta entrevista focou na temática: “iMed.ULisboa – O enquadramento da Investigação Farmacêutica na Sociedade e no Meio Académico”.

iMed.ULisboa – O enquadramento da Investigação Farmacêutica na Sociedade e no
Meio Académico

O que é o iMed.ULisboa e quais as funções que desempenha?

O iMed.ULisboa é o Instituto de Investigação do Medicamento. É um instituto que está na Faculdade de Farmácia da Universidade de Lisboa e que alberga a força de investigação presente na faculdade, ou seja, gera toda a orientação científica e de investigação sobre as diferentes áreas da Faculdade de Farmácia.
Podem ser áreas mais básicas, da descoberta do medicamento, que vão desde a parte da química à bioquímica, toda a biologia fundamental dos alvos terapêuticos ou dos modelos que depois poderão ser utilizados posteriormente na parte do teste de desenvolvimento de alguns medicamentos ou fármacos, mas que potencialmente poderão ser utilizados sempre no desenvolvimento desses medicamentos. Tem uma parte muito orientada para o mecanismo de ação dos medicamentos, perceber, identificar e isolar mecanismos de ação, que depois possam ser utilizados no estudo de diferentes medicamentos.
Toda esta investigação mais básica depois é um bocadinho orientada para a parte mais translacional, que é não só o desenvolvimento ou a aplicação de todos estes conceitos de investigação mais básica, de modo a desenvolver novas estratégias terapêuticas, novos potenciais medicamentos, a exploração de novos mecanismos de ação para diferentes medicamentos, mas também uma orientação de uma aplicação destas tecnologias no doente.
Mas também é o contrário, ou seja, partimos do próprio doente e dos problemas que existem no desenvolvimento e monitorização dessa terapêutica – trazemos de volta para o Instituto, de modo a que algumas questões que nos são colocadas da parte mais clínica depois sejam abordadas do ponto de vista mais laboratorial dentro do Instituto de Investigação do Medicamento.
No fundo, temos uma parte mais básica, a investigação em modelos in vitro que depois tentamos aplicar no doente, mas também uma parte translacional, que é do doente para o laboratório. É aqui nestas duas dimensões que o iMed se está a colocar. Claro que quando nós olhamos mais para uma parte mais de investigação básica e outra parte mais translacional, temos sempre a questão de como é que isto se pode transpor para a sociedade.

Como é que funciona essa transposição da investigação para a sociedade?

É muito importante aqui também que estas relações com o mundo real sejam feitas.
Portanto, o Instituto de Investigação do Medicamento também participa e faz investigação na parte da utilização e de como é que aquilo que nós fazemos no laboratório se pode depois transpor para a utilização prática na clínica e na parte mais da profissão do farmacêutico.
Dentro destas três dimensões – uma parte mais básica, uma parte mais de mecanismos de ação e uma parte mais de identificação de novos potenciais fármacos, a sua transposição para o doente, para a melhoria e prevenção da saúde. São estas três dimensões que são o objetivo do iMed. O iMed está muito relacionado não só com o medicamento, mas também com a promoção da saúde e a prevenção da doença. São estas diferentes abordagens que o iMed faz neste momento.


Como descreve um dia na vida de um investigador no iMed.ULisboa?

Um dia na vida de um investigador… Nós não fazemos descobertas todos os dias, não é? Estas coisas parecem ser muito “românticas”, mas todo o processo de investigação e desenvolvimento demora sempre muito tempo porque há todo o processo de pesquisa muitas vezes não laboratorial – é, muito mais vezes, pesquisa do que é que se está a fazer naquela área ou por onde é que eu posso ir, quais é que são as perguntas e falar com muitas pessoas.
Depois, há a parte mais laboratorial, pré-laboratorial, que o investigador também deve fazer.
Se calhar eu, na altura da minha carreira, já não faço muito a parte laboratorial, tenho muitas pessoas no laboratório que fazem essa parte. A minha função é um bocadinho mais pré-laboratorial e perceber estrategicamente por onde é que quero ir. É falar com muita gente, ler e identificar problemas, mas também gerir o próprio laboratório.
Gerir o laboratório significa gerir muitas pessoas e o que é que elas estão a fazer, de modo a que todas as pessoas que estão no laboratório não se percam, é preciso orientá-las. É muito fácil perdermo-nos na investigação, porque muitas vezes estamos a olhar para sítios que não devemos, ou que certamente não são o mais importante.
Eu estou a tentar orientar, e depois há os que trabalham no laboratório. Trabalhar no laboratório significa, fundamentalmente, ser muito focado, orientado e muito disciplinado porque as pessoas podem ser muito inteligentes, mas se não forem muito orientadas e disciplinadas é muito difícil conseguirmos chegar a algum lado.
No laboratório, um dia é um dia de trabalho, que começa muitas vezes de manhã em que se faz uma série de coisas em duas ou três horas, depois há tempos de paragem, depois volta-se novamente. Há sempre aqui um trabalho da bancada laboratorial, mas também um trabalho de secretária. A vida de um investigador, ou um dia, é sempre esta relação entre a bancada do laboratório e o computador. Hoje em dia, não vivem um sem o outro.
É esta dupla função que é um dia normal de um investigador. Claro que as coisas ao longo de vários dias vão aumentando de intensidade, quando se começa a fazer uma ou várias experiências, ou se tentam abordar algumas questões. As coisas vão começando devagarinho, muito lentamente, até que vão acelerando à medida que nós já vamos tendo alguns resultados. É esse um dia, ou vários dias, da vida de um investigador.

O que é que a pandemia da COVID-19 alterou no iMed.ULisboa e, consequentemente,
nas suas investigações?

A pandemia alterou muita coisa. Alterou muitas das áreas de investigação em que nós estávamos a trabalhar antes da pandemia, houve algumas áreas que pararam. Na altura, e já faz um ano desde que começou esta pandemia, tivemos que parar alguma investigação exatamente para começar outra.
Parámos durante muito tempo esses projetos (por exemplo, no meu caso, muitos deles relacionavam-se com o cancro e a autoimunidade) e orientámos a nossa investigação para um trabalho mais de serviços. Começámos logo em março a desenvolver este projeto, todos estes protocolos e a parte laboratorial do diagnóstico.
Foi uma altura em que ainda tínhamos pouca coisa para fazer o diagnóstico da COVID-19.
Nós entrámos rapidamente para pôr o nosso know-how laboratorial ao serviço do diagnóstico da COVID-19. Tudo isso alterou, as pessoas que estavam a trabalhar nesses projetos de que eu falei anteriormente tiveram que se reorientar e fazer coisas relacionadas com a COVID-19.
Muitas das áreas, não só do diagnóstico, como da serologia, da parte imunológica, na monitorização da infeção, agora da monitorização da eficácia da vacina, tudo isto se alterou.
Há um ano atrás, nós não tínhamos noção nenhuma de que iríamos, passado um ano, estar tão envolvidos na COVID-19.
Isto significa também que, quando nós fazemos investigação, estamos preparados para entrar rapidamente noutras áreas. Fazer investigação numa área relacionada, neste caso, com a parte da Imunologia e Virologia, podemos adaptar-nos muito rapidamente às diferentes realidades. Foi isso que aconteceu, adaptámo-nos.

Como avalia a adaptação do iMed.ULisboa durante a pandemia da COVID-19?

Este último ano tem sido um exercício para todos nós. Toda a gente tem tido que fazer esse
exercício tal e qual como nós fizemos, que foi adaptarmo-nos a uma realidade que não descartámos, não deitámos fora – adaptámo-nos apenas. É uma das formas que o ser humano tem de responder às crises, não é? Adaptar-se.
Acho que fomos capazes de nos adaptar bem e acho que todos nós temos que tirar alguns ensinamentos de tudo isto, que são quanto melhor e mais rápido nos adaptarmos, mais seremos capazes de sobreviver em todas estas crises, e acho que estamos a demonstrar que isso é possível.

Como conheceu a LisbonPH e como é trabalhar com esta Júnior Empresa?

Já conheço a LisbonPH há muitos anos, um bocadinho antes de 2013. Lembro-me de alguns colegas vossos, antes de começarem, terem vindo falar comigo porque queriam fazer uma Júnior Empresa. Sempre tive muito carinho por isso porque já tinha tido a possibilidade de trabalhar com outras Júnior Empresas, por exemplo do Técnico, e sabia a importância que isso tinha não só para a Academia, como para o próprio crescimento dos alunos.
Quanto mais os alunos crescerem num ambiente de inovação, de desenvolvimento e de competição, mais aprendem. Portanto, sempre achei que a LisbonPH era claramente uma excelente iniciativa da capacidade individual de cada um dos estudantes. Não é como a Associação dos Estudantes, que tem outras vertentes e outras missões. A LisbonPH sempre me pareceu uma oportunidade dos estudantes com uma visão mais empreendedora a colocarem rapidamente e desenvolverem ideias.
Como eu sou muito parecido com esse tipo de comportamento, sempre acarinhei e sempre me disponibilizei, dentro das minhas possibilidades de tempo, que por vezes não são muitas, para pelo menos aconselhar numa ou noutra vertente da LisbonPH. É muito gratificante ver que outras faculdades olham para a LisbonPH como o exemplo, eu sei disso.
Aqui perto temos a Faculdade de Medicina, em que os próprios estudantes de Medicina olham para a LisbonPH como um bom exemplo daquilo que se pode fazer e que eles lá dentro não conseguem. Por tudo isto e pela capacidade, pela inovação e empreendedorismo que a LisbonPH dá aos farmacêuticos, aos estudantes de farmácia e tudo aquilo que representam na profissão, na preparação das pessoas e dos estudantes para o que é o mundo real da profissão, isso é muito reconhecido.
Hoje, principalmente quando falo com pessoas que estão na Indústria, alegra-me muito ver que muita gente da Indústria fala sempre da LisbonPH porque ouve falar sempre nesse empreendedorismo que a Faculdade de Farmácia tem. Acho que sim, claramente a LisbonPH tem sido uma dinamizadora e uma diferenciação dentro de todos os cursos de Farmácia, dentro dos cursos da área de Saúde e do Ensino Universitário.


Que tipo de colaborações tem com a LisbonPH?

Foram várias as colaborações que temos feito ao longo dos anos, desde cursos até concursos para estudantes ou bolsas. Toda a dinamização e o próprio empreendedorismo que a LisbonPH emprega em tudo o que faz é muito importante, para dinamizar muitos cursos, por exemplo. É importante que sejam feitos mas, muitas vezes, falta exatamente a dinamização e o espírito jovem para os colocar em prática.
As colaborações que nós temos tido nestas áreas são claramente muito gratificantes e foram muito importantes. Fundamentalmente, é isso que eu tenho visto ao longo destes anos, as colaborações que nós temos tido valorizam sempre muito mais pela vossa participação. Empregam sempre uma dinâmica e dão sempre uma dinâmica diferente de dinamização das nossas atividades.
Isso é muito importante nos dias de hoje, em que a quantidade de coisas que se fazem é tanta que nós queremos ser o mais inovadores possível na forma em como fazemos isso.
Essa dinamização é a palavra certa para as colaborações que temos tido, que é vocês terem esta capacidade de pensar fora da caixa.
Como já disse, foram várias colaborações, desde cursos até à organização das Bolsas da LisbonPH, que são sempre um aspeto muito importante, e de colaboração com o iMed.ULisboa. Vocês foram capazes de identificar problemas e para além de identificá-los, também foram capazes de propor soluções. Isso é muito importante em todas as colaborações que nós temos tido.

Entrevista realizada e redigida pela LisbonPH – Júnior Empresa da Faculdade de Farmácia da Universidade de Lisboa

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