Terça-feira, Junho 15, 2021

Luís Trigacheiro: “As raízes não se negam nunca”

Luís Trigacheiro: “As raízes não se negam nunca”

Luís Trigacheiro: “As raízes não se negam nunca”, disse o cantor em entrevista a Rui Lavrador.

O cantor acabou de lançar o seu primeiro single, ‘Meu nome é saudade’, que antecipa o primeiro disco.

O disco deverá sair no final do ano, marcando assim o início do percurso discográfico do vencedor do The Voice Portugal.

“Meu Nome é Saudade”

O alentejano concedeu uma entrevista ao Infocul, na qual abordou o novo single, o percurso, o que está a ser pensado para o disco e ainda o Alentejo.

Questionado se é um homem com muitas saudades ou se mandou toda a saudade para o tema, Luís disse-nos que “ambas as partes, antes de mais”.

Obrigado pelo convite. Começo por te dizer que sim, sou uma pessoa com muita saudade e isso acaba por ser fácil de transmitir depois, à parte da música”, complementou.

Este tema conta na sua composição com nomes como Bruno Chaveiro, João Direitinho, Diogo Lopes (Syro), José Ganchinho, Eduardo Espinho, tendo nós questionado Luís sobre como surge este tema e como foi o processo criativo.

O jovem músico explicou que “esse tema surgiu no meio de um grupo de amigos meus.

Juntaram se e criaram a melodia, criaram a letra, criaram o refrão, as coisas todas e depois fundiram e assim nasceu”.

Posteriormente, “lembro-me do Bruno Chaveiro ligar para mim a dizer que tinha um tema para mim e nós andávamos a recolher repertório para o single e até inclusive para fechar o álbum. Pronto, o tema surgiu. Ficou muito logo no ouvido e tinha tudo aquilo que eu acho que se enquadrava e que procurávamos”.

Seguidamente “eles apresentaram o tema à Universal, todos gostaram. Eu depois fiz a minha parte, a minha versãozita”.

Já com todo o processo encaminhado, “depois foi encontrar o produtor certo, que foi à primeira, e depois juntarmos os músicos certos”.

A última fase foi juntar “os ingredientes todos no caldeirão, cozinhámos, cozinhámos e eu lembrei-me que era giro ter o Alentejo, de certa forma, representado. Lembrei-me que seria engraçado juntar um coro alentejano, uma coisa pontual, e dar alguma portugalidade à coisa. Daí a guitarra portuguesa, a percussão… Um tema mais orgânico”.

E então, acabámos por fazer aquilo assim, foi muito giro ver o processo todo desde o nascer da música até ao produto final. Foi muito interessante, foi muito giro, porque para mim foi o primeiro tema. Estava curioso. Estava ansioso e agora já consigo mais ou menos ver como é que as coisas acontecem porque até saírem cá para fora, aquilo tem todo um processo por detrás que é muito giro”, disse-nos ainda.

Luís Trigacheiro é mais um talento vindo da incubadora que é o Alentejo, tendo nós questionado se sentia o peso de carregar a região às costas.

É assim, eu costumo dizer que as raízes não se negam nunca. Eu não sou aquele tipo de pessoa que chega a Lisboa e começa a falar alfacinha, mas a minha linguagem é sempre a mesma. E, portanto, vou fazer por levar sempre o Alentejo e por tê-lo presente no meu trabalho até porque isso é uma coisa que inconscientemente acontece. Sabes por mais que tu queiras, vai estar sempre presente porque foi aí que tudo começou. E então é quase inevitável. é muito difícil as raízes não estarem presentes”, disse-nos.

Para Luís Trigacheiro, “acaba por ser um fardo que carrego de livre vontade, percebes? E não que veja como uma obrigação minha, esse fardo, e de ter de levar o Alentejo mais além. É a nossa cultura que vai mais além, não sou eu nem tu”.

The Voice Portugal representou uma grande mudança no mediatismo alcançado pelo cantor alentejano, embora já cante há alguns anos.

Sobre as mudanças que o programa trouxe à sua vida, Luís assumiu que “como pessoa continuo exatamente igual, as mesmas parvoíces, os mesmos compromissos. Tudo igual”.

Agora, em termos profissionais, já ouvia muita música, agora ainda ouço mais. Quero ter mais noção das coisas, quero melhorar tudo, em termos não só vocais, mas também musicais, em termos de dicção. Acho que sou muito melhor em termos de empenho, estou muito mais focado”, destacou.

Antes de participar, e ganhar, no The Voice Portugal, “eu via a música como um hobby e não a full time. Agora é uma coisa muito presente na minha vida, entendes? Tento aperfeiçoar cada vez mais, aprender com os melhores. E esta vida permitirá que eu aprenda cada vez mais com os melhores”.

Aprendizagem com António Zambujo e Marisa Liz

No programa da RTP1, começou por ter António Zambujo como mentor, passando depois para a equipa de Marisa Liz.

Sobre o seu conterrâneo disse que “tenho o António como uma referência minha, já há algum tempo, inclusive nós damo-nos bem. Ele sempre me aconselhou. Durante, antes e depois. Sempre me aconselhou”.

No programa, “aliás com o António não tive muito tempo para trabalhar com ele, porque só tive apenas entre a prova cega e a batalha”.

Já “a Marisa em termos profissionais motiva-te imenso, muito focada e passa esse foco para ti”.

Em termos de conselhos recebidos da cantora, contou que ela “diz que tu tens de dar o teu melhor, mas desfrutar do teu melhor também. Ou seja, não tenho de encarar aquilo como se fosse a última coisa que vai acontecer na vida, mas sim como a melhor coisa que está a acontecer neste momento da vida

Mediatismo bom vs Mediatismo mau

Felizmente, hoje em dia, os meios de comunicação e as redes sociais funcionam excelentemente no que toca ao marketing, aquisição de serviços e promoção da tua marca. Mas depois tem também o outro lado da moeda”, começou por nos dizer sobre a mudança que a visibilidade do programa lhe trouxe.

Assim, “acabo por me resguardar um bocadinho nesse sentido”, confidenciou, explicando que “não lhes dou mais do que aquilo que eu acho que as pessoas precisam imaginar”.

Luís Trigacheiro assume que não tem jeito para expor toda a sua vida nas redes sociais e que decide apenas publicar aquilo que se enquadra na questão profissional, preservando assim a sua intimidade.

O Cante Alentejano

O Cante Alentejano tem ganho uma dinâmica e mediatismo muito grandes, nos últimos anos, devido à elevação a Património Imaterial da Humanidade.

Questionámos Trigacheiro se considera isto positivo ou se pode levar a uma adulteração da essência do Cante.

São duas perguntas muito pertinentes. Eu vou ser o mais esclarecedor possível. Eu acho que o futuro do cante alentejano está salvaguardado. Sim, porque inclusive nós, pelo menos aqui na nossa zona no concelho e distrito de Beja, em que existe um investimento por parte da Câmara que se chama ‘Cante nas Escolas’, e consiste em aulas de cante alentejano aos miúdos”, começou por explicar.

Estas aulas têm uma duração de meia hora a 45 minutos em que “tu os motivas, ensinas as modas, as letras, o ponto, tudo.  Fazes umas brincadeiras com eles e ficam super entusiasmados e isso garante, de certa forma, o futuro do cante alentejano”.

Destacou ainda, como positivo, a internacionalização do cante alentejano e a sua maior divulgação a nível nacional “e é já visto como algo que faz parte do nosso património da nossa cultura”.

Adulterar a essência do cante, creio que não vai acontecer porque criar todos criamos. Eu próprio quando canto sozinho uma moda, dou as minhas nuances e canto à minha maneira e vai sempre haver uma pessoa mais idosa que vai dizer que ‘não está bem’, mas também não há nada que diga que aquilo tem de ser só assim daquela forma”, continuou.

Existem referências de 1900 e troca o passo, assim que foi possível gravar um dos grupos corais mais antigos, e aí tens as modas mesmo puras e duras como elas são, como elas nasceram, mas não podemos ficar só agarrados a isso. Eu acho que é também giro quando tudo começa a inovar”, acrescentou.

A Gastronomia do Alentejo

Conversar sobre o Alentejo obriga-nos a destacar a gastronomia rica desta região.

Na mesa de Trigacheiro não pode faltar “um bom pão alentejano, bons enchidos, bons queijos, bons presuntos. Tens de ter sempre azeitonas. A confecção de panela acho das mais características da nossa gastronomia”, confidenciou.

O nervosismo da estreia em público

Luís começou tarde nas cantorias, mais propriamente aos 16 anos e ao Infocul revelou como se sentia nesse dia.

Não foi ao solo, a solo é a primeira vez que estou fazendo tudo. A primeira vez que cantei em público devia ter uns 16 anos. Foi num grupo coral, estava super nervoso, e só fiz um ponto. Não fiz mais nada”, confidenciou.

Lembra que “estava rodeado de pessoas mais idosas, mestres, aqueles que nos ensinam as primeiras coisas como deve ser”, acrescentando que “estava todo borrado, porque lembro-me perfeitamente de pensar ‘Se isto corre mal ou dá barraca, a malta mais velha vai se passar comigo e já não vou voltar’. Mas correu bem. A partir daí foi sempre a progredir. Graças a Deus, até agora”.

O Disco

O disco sairá no final do ano e “vai ser uma coisa muito homogénea, muito dentro da portugalidade que o primeiro tema teve. Isso vai estar sempre presente, as minhas raízes obviamente vão estar lá. Não digo a cem por cento, porque não dá para estar e também não é o meu objetivo, mas vão estar presentes de certeza”.

Além de algumas novidades, “podem esperar muito trabalho de qualidade acima de tudo e de compromisso. Eu acho que vão gostar imenso”, disse confiante.

O disco contará, em princípio, com produção de Ricardo Cruz, o mesmo produtor do single de estreia, ‘Meu nome é saudade’.

Rui Lavradorhttp://www.infocul.pt
Jornalista e Director Infocul.pt

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