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Luz e Sombra: Morante foi pérola além da arena, em Sevilha

Luz e Sombra: Morante foi pérola além da arena, em Sevilha, na tarde de ontem, no seu regresso às arenas.

Texto: Rui Lavrador
Fotografias: Diogo Nora

Na tarde de ontem, em Sevilha, não se assistiu apenas a um regresso. Assistiu-se a uma travessia. Uma daquelas raras, onde o homem e o mito se encontram no mesmo corpo, em conflito silencioso. Morante de la Puebla voltou à Maestranza e, com ele, entrou também tudo aquilo que não se vê.

A sombra que caminha com o toureiro

Desde o primeiro instante, havia algo diferente no ar. Não era apenas expectativa. Era uma espécie de respeito contido, quase reverencial, como se o público soubesse que estava diante de alguém que regressa de um lugar onde poucos conseguem voltar.

Por isso, quando Morante pisou a arena, não entrou sozinho. Trouxe consigo a sombra da depressão, esse território invisível onde o tempo pesa mais e a luz custa a nascer. E isso sentia-se. Em cada passo. Em cada pausa. Em cada silêncio.

Além disso, o traje escolhido reforçava essa narrativa íntima. Negro, profundo, azabache e pérolas. Uma homenagem ao dia de Ressurreição, sim. Mas também uma declaração. Como se dissesse: há escuridão, mas há luz. E ambas convivem. Assinatura de Justo Algaba.

Entre o vazio e a tentativa

No entanto, o primeiro touro foi quase uma metáfora cruel. Difícil, curto, sem entrega. Como certos dias em que nada flui, por mais que se tente.

Morante procurou. Insistiu. Mas encontrou pouco. Houve um instante, apenas um, em que tudo pareceu alinhar-se. Um passe limpo, sentido, daqueles que fazem o tempo parar. Mas foi breve. Demasiado breve.

Assim, a sensação que ficou foi a de um homem ainda à procura de si próprio. Como se estivesse ali, mas ainda não totalmente presente. Como se o corpo tivesse regressado antes da alma.

A viragem que nasce de dentro

Porém, há momentos em que algo muda. Não por fora, mas por dentro. E foi isso que aconteceu no quarto touro.

De repente, Morante já não parecia lutar contra o que o rodeava. Parecia aceitar. E é muitas vezes nesse lugar – entre a aceitação e a fragilidade – que nasce a verdade.

A sua forma de estar, solta, quase abandonada, revelava uma coragem diferente. Não a do confronto, mas a da exposição. A de quem se mostra sem defesa.

Além disso, cada gesto carregava mais do que técnica. Havia ali memória, dor, resistência. Havia vida. E isso não se ensina. Nem se finge.

A luz que insiste em existir

À medida que a faena crescia, a praça levantou-se. Mas não foi apenas aplauso. Foi reconhecimento. Como se todos percebessem que estavam a assistir a algo que ultrapassa a própria tauromaquia.

Porque, no fundo, o que ali aconteceu foi simples e raro. Um homem, atravessado pela sombra, conseguiu ainda assim criar luz.

E essa luz não era perfeita. Nem limpa. Era tremida, humana, imperfeita. Mas era verdadeira.

O regresso que não se explica

No final, as duas orelhas foram apenas consequência. Um sinal visível de algo muito mais profundo e invisível.

Assim, Morante de la Puebla não regressou apenas à arena. Regressou à vida, naquele instante partilhado com milhares de pessoas.

E talvez seja isso que torna esta tarde impossível de esquecer. Não foi apenas sobre tourear. Foi sobre resistir. Sobre cair e levantar. Sobre carregar a escuridão e, ainda assim, escolher criar beleza.

Porque há regressos que não se medem em troféus. Medem-se em silêncio, em verdade e na coragem de voltar a ser luz quando tudo à volta insiste em ser sombra.

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