Terça-feira, Junho 22, 2021

Marco Rodrigues: “Eu sou do Roque” não o afasta do Fado

Marco Rodrigues: "Eu sou do Roque" não o afasta do Fado

Marco Rodrigues: “Eu sou do Roque” não o afasta do Fado, tendo-nos explicado porquê.

Escrito e composto por David Fonseca, um estreante nas lides fadistas, “Eu Sou do Roque” é o surpreendente novo single de Marco Rodrigues.

O fadista decidiu convidar David Fonseca a escrever para si, tendo esse desafio sido aceite.

Marco Rodrigues revelou que esta é uma estreia de David Fonseca a escrever para um fadista, tendo o desafio partido “à imagem daquilo que já fiz em alguns dos meus discos“.

Sempre achei enriquecedor, porque tenho um percurso que me permite conhecer a linguagem fadista, tanto para mim, enquanto intérprete, como para a música que interpreto, trazer pessoas de outras áreas“, tendo por isso convidado alguém de outra área musical a escrever para si.

Eu já conheço o trabalho do David há algum tempo, surgiu a possibilidade de fazer um convite- um convite é apenas isso, a pessoa pode aceitar ou não- ele aceitou, porque também já conhecia parte do meu trabalho e de repente surgiu com este tema que eu costumo dizer que são aqueles tipos de temas que se mastigam“, disse-nos, sobre o ‘Eu sou do Roque’.

Ou seja, ouvimos a primeira vez e não nos é indiferente, ou pela surpresa ou pelo tema em si. As pessoas ficam com dúvidas e vão querer ouvir o tema uma segunda vez. À segunda já vão encontrar algumas coisas engraçadas na letra, que nem sequer se tinham apercebido. À terceira vez, se calhar, ouvem uma malha de baixo que não se tinham apercebido que tinha acontecido. Noutra vez, se calhar, no refrão percebem que há ali uns bombos tradicionais que levam a música para a festa, para a cena popular. Existem mesmo os bombos tradicionais ali [imita o som dos bombos]”, especifica.

Ainda sobre este single, explica que “há ali um movimento que existiu em Portugal, daí ser Roque com ‘qu’, porque é à tuga, é assim que eu gosto de dizer. Ao contrário das outras linguagens musicais, não conheço nenhum movimento do blues português, não conheço nenhum movimento do jazz português, mas conheço o movimento do rock português”.

E seja eu fadista, seja eu intérprete, sou influenciado pelas coisas que ouço. E sem dúvida que o rock português faz parte da minha geração. Não acredito que nenhum fadista não tenha ouvido Xutos & Pontapé, Rui Veloso…“, vincou.

À parte disso, o tema relata uma história comum. Aquele tipo de histórias em que tentamos mudar algo em nós para que alguém goste de nós. Até que chegamos à conclusão, no final do tema percebe-se, que é bom mudarmos as coisas para percebermos aquilo que nós queremos. Não mudar as coisas em função daquilo que os outros queiram que mudemos“, contou-nos ainda, sobre a mensagem do tema.

Marco Rodrigues assume que “sempre gostei de cantar histórias de personagens contemporâneas ou inventadas”, destacando que “acho que o texto está muitíssimo bem escrito, anexa-se a isto um vídeo feito pela Cláudia Pascoal, só uma miúda com a capacidade dela e com aquela postura na vida teria a capacidade para fazer um vídeo daqueles“.

Resumidamente, “tudo isto relata influências minhas, aquilo que eu sou enquanto português e não deixo de ser eu, Marco Rodrigues, enquanto fadista a interpretar um tema que não é fado“.

Na letra há uma alusão a Xutos [Xutos & Pontapés] e ainda a Cobain [Kurt Cobain], tendo questionado Marco Rodrigues se quando se iniciou nas lides fadistas pensava ter um tema com uma alusão a banda de rock, o fadista recordou-nos que “no disco ‘Copo Meio Cheio’ tenho um tema do Carlão que fala sobre uma personagem de um bairro que quer modernizar-se, mas que as características da malta do bairro não permitem“, acrescentando que “é um tema gravado num fado tradicional, Fado Pena, e tem a palavra swag, a palavra fato-de-treino, que é das palavras mais difíceis de cantar. Tem ‘corta-unhas’ que é aquilo que nenhum cantor alguma vez pensou cantar e eu não me sinto com mais ou menos capacidade“.

Gosto é de cantar coisas que relatem, que sejam fotográficas. E que façam sentido perante a história que eu estou a querer apresentar às pessoas“, vinca.

Do elo que liga Fado e Rock, questionei-o se existia alguma ligação entre este tema e o disco ‘Fados do Rock’ editado por Zé Perdigão há alguns anos.

Marco Rodrigues começou por elogiar Zé Perdigão, mas explicou que “não tem nenhuma ligação sequer. Não conheço sequer o disco. Mas se calhar há uma ligação. Somos ambos portugueses, somos mais ou menos da mesma geração, ouvimos mais ou menos o mesmo tipo de música. E enquanto as pessoas não perceberem que os intérpretes são o reflexo daquilo que vivem, daquilo que sentem…

O amarantino confidencia, até, que “para mim seria muito complicado interpretar um tema destes, se eu não tivesse noção do que é o fado e as suas características“.

E puxa dos galões no que ao fado diz respeito, pois “ainda sou de uma geração que teve privilégios que esta nova geração, infelizmente, não poderá ter, como partilhar noites de fado com Fernando Maurício, com Beatriz da Conceição, conhecer as pessoas, falar com as pessoas, elas conhecerem-me. Gostarem de mim! Tudo isto é ser fadista, é enriqueceres a tua bagagem no meio do fado“.

Posto isto, “quando as pessoas não conhecem a linguagem que estão a fazer, aí podem ter alguns problemas ou complexos. Agora, quando conhece…“, relembrando que “a música serve para unir pessoas“.

Para o final do ano está prevista a edição de um novo disco.

O videoclipe, realizado por Cláudia Pascoal e Ricardo Leite e produzido pela Danado Films.

EU SOU DO ROQUE – Letra

Foi terça à noite que subi àquele palco
E vi-te lá do alto com as amigas a jantar
Fiquei vaidoso porque ia cantar o fado
Que é o que eu faço em todo o lado quando quero impressionar
Mas nem pra mim olhaste e foste embora
Saíste porta fora sem sequer olhar pra trás
E ali fiquei sozinho a sonhar contigo…

Na manhã seguinte telefonei ao Zé Maria
Ele toca bateria na banda da associação
E ao Eduardo, que herdou um velho teclado
Quando o padrinho caiu pró lado com um problema de coração
E pra completar o roque na sua estética
Veio a guitarra eléctrica do meu primo Juvenal
E ali fiquei sozinho a sonhar contigo…

EU SOU DO ROQUE
NÃO TE DEIXES ENGANAR PELO MEU FATO DE GALA
CÁ DENTRO HÁ UMA ALMA INQUIETA QUE ESTÁ SEMPRE À ESPREITA
PELO MOSH NESTA SALA
EU SOU DO ROQUE
E VOU MOSTRAR A TODOS O ROQUE QUE O FADO TEM
SOU TODO XUTOS, SOU RASTILHO PARA OS PUTOS QUE ANSEIAM PELA FESTA
SOU GUITARRAS, SOU COBAIN

Marquei concerto e espalhei muito panfleto
Garganta num aperto quando entraste no salão
Os decibéis daquele roque do raio
A provocar muito desmaio, muito suor e comoção
Mas nem assim puseste os olhos em mim
E saíste antes do fim, uma desconsideração
E ali fiquei de novo a cantar sozinho…

EU SOU DO ROQUE
NÃO TE DEIXES ENGANAR PELO MEU FATO DE GALA
CÁ DENTRO HÁ UMA ALMA INQUIETA QUE ESTÁ SEMPRE À ESPREITA
PELO MOSH NESTA SALA
EU SOU DO ROQUE
E VOU MOSTRAR A TODOS O ROQUE QUE O FADO TEM
SOU TODO XUTOS, SOU RASTILHO PARA OS PUTOS QUE ANSEIAM PELA FESTA
SOU GUITARRAS, SOU COBAIN

Veio o sucesso e toda a gente me queria
Até a mulher vadia que tanto me destratou
Diz que era fã, que me via no ecrã
Que eu era o galã com que ela sempre sonhou
Mas já é tarde e esse coração alarde
Interesseiro e cobarde não o quero mais pra mim
Fechei os olhos e cantei pra ti assim…

EU SOU DO ROQUE
NÃO TE DEIXES ENGANAR PELO MEU FATO DE GALA
CÁ DENTRO HÁ UMA ALMA INQUIETA QUE ESTÁ SEMPRE À ESPREITA
PELO MOSH NESTA SALA
EU SOU DO ROQUE
E VOU MOSTRAR A TODOS O ROQUE QUE O FADO TEM
SOU TODO XUTOS, SOU RASTILHO PARA OS PUTOS QUE ANSEIAM PELA FESTA
SOU GUITARRAS, SOU COBAIN

Rui Lavradorhttp://www.infocul.pt
Jornalista e Director Infocul.pt

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