Terça-feira, Novembro 30, 2021

Não Há Nada Mais Simples

Não Há Nada Mais Simples

Não Há Nada Mais Simples, um artigo de opinião de Raul Tartarotti.

Santo Antão (Santo Antônio) foi um famoso santo dos anacoretas, Santos que foram pra caverna, e passaram quase uma vida inteira no deserto, jejuando, comendo gafanhoto e mel.

Morreu aos 105 anos, foi atacado diariamente pelo demônio, que o elegeu como meta corporativa para perseguir, porque precisava desviar Antão de seu propósito em tornar-se santo. Esse demônio se concentrou no Antônio por quase oito décadas, e quando ele rezava era carregado no ar, tema que inspirou Michelângelo a pintar a tela intitulada “Tormento de Santo Antônio”, que mostra o santo atacado por demônios.

Quando ele olhava para o crucifixo, via uma mulher nua ao invés de Cristo, quando ele decidia comer, aparecia sobre a mesa, a comida mais extraordinária possível. Antão resistiu a tudo, era um homem excepcional, praticamente um não humano.

Oscar Wilde, poeta dos anos 1870, disse que se suportamos a tentação, é porque ela não foi intensa suficiente pra nos tirar de nosso eixo.

Segundo uma tradição apócrifa, o demônio desistiu de Antão, quando esse chegou aos 105 anos. E disse ao seu alvo de tormento: – você venceu, pela primeira vez na história, alguém foi mais forte do que eu.

O demônio foi embora e Antão agradeceu a Deus com uma simples oração: – muito obrigado, agora me tornei um santo.

Antão decidiu sobre sua vida e a própria morte, porque depois desse calvário só lhe restou padecer, já que o inimigo arrefeceu os ataques.

Decisão semelhante nos foi apresentada no filme “A Despedida”, onde a atriz Susan Sarandon interpretou a personagem Lily, que sofre de uma doença degenerativa, e decide colocar fim a própria existência, antes que a enfermidade a impeça de tomar qualquer rumo sozinha. O filme não é apenas sobre o direito de escolher o momento da própria morte, mas principalmente, sobre o direito de viver com dignidade e autonomia, até o fim de seus dias. A frase que a protagonista mais repetiu no filme é: “Eu consigo”.

É quase um grito para preservar sua liberdade de tomar decisões e manter sua independência, únicos substantivos que a tornam uma criatura viva.

Enfrentar a si mesmo é singular e solitário e de proporções únicas. E quase como eu é um outro, o que implica aceitar um estranho em “mim”, certo estranho já sentido e inseparável de mim – o estrangeiro dentro do próprio corpo.

Sendo assim, sempre amamos estar só de um modo novo, “sem mim”, e mesmo assim, na incerteza angustiante, nos reinventar sempre.

Fernando Pessoa nos deixou um poema pra pensar sobre esse viver durante: “Se depois de eu morrer, quiserem esquecer a minha biografia, não há nada mais simples. Tem só duas datas – a da minha nascença e a da minha morte. Entre uma e outra, todos os dias são meus”.

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