Ângelo Freire, 30 anos, começou a aprender Guitarra Portuguesa de nascença, ou como costumo dizer, com o chip da música integrado e neste caso concretamente já ligado ao fado e à Guitarra Portuguesa.

Ângelo cresceu num bairro típico lisboeta onde o fado era a sua casa. Cresceu no meio de fadistas antigos, tascas onde antigamente não era como hoje.

Foi um amor à primeira vista com a Guitarra Portuguesa nesses recantos típicos do fado.

O pai desde logo percebeu que o filho tinha nascido para a música, para o fado e cedo foi cultivando esse “bichinho”.

– “Uma vez que tem jeito e é o que ele quer, tenho que o apoiar, fazer com que estude e seja o melhor”, disse Ângelo referindo-se às palavras do pai.

Estivemos à conversa, sentados numas escadinhas ao pé da casa de fados “Boteco da Fá”, em Alfama.

Conheci o Ângelo tinha ele 12 anos, quando começou a estudar música e Guitarra Portuguesa. Era eu na altura, professora na mesma escola de música, depois de ter ganho um programa internacional de novos talentos de jovens da idade dele o “Bravo, Bravissimo”.

Durante alguns anos convivemos e trocámos música naquela escola, enquanto ele crescia e se desenvolvia cada vez mais como músico, onde pôde ter contacto com outros instrumentos, como o piano com vertentes musicais, como o Jazz, o clássico e automaticamente o tocar em conjunto nesta junção de instrumentos foi uma abertura enorme para o crescimento do cérebro musical, que então se estava a criar e também, obviamente, uma abordagem diferente da música e do fado.

Lembro-me de uma vez juntar a sua guitarra com piano, numa apresentação da escola. Uma nova experiência e inédita, na altura.

Começou então a tocar em casas de fado e onde, diz, foi a sua principal escola.

O fado é como ser português. Aprende-se com a vida, com a vivência da cultura, de coisas, bairros, dizeres, afazeres típicos portugueses. Cria-se uma cultura própria de um povo.

O fado aprende-se nas tascas, nos lugares onde se troca modos de tocar, cantar, expressar o sentimento quer vocalmente, quer instrumentalmente. Unem-se e torna-se a linguagem musical típica de um povo.

Não há um livro de instruções, um material didáctico do fado.

Começou pouco depois a tocar com artistas profissionais tais como Mariza, Camané, Raquel Tavares e Ana Moura de quem é hoje o guitarrista oficial e tantos outros conhecidos do panorama musical português.

Durante a nossa conversa fui fazendo algumas perguntas típicas de professora, mas também típicas de alguém que é uma mera curiosa, do povo e espectadora do meio artístico, como alguém que tem curiosidade em saber mais, em cultivar o que é bom em Portugal, e de alguém que quer mostrar a tantos portugueses a importância da música e a influência que tem se a estudarmos. E principalmente a importância da música bem-feita, com gosto, com uma aprendizagem da mesma ao longo da vida. Uma aprendizagem que começa com B-á-Bá da linguagem musical, como o português, como a matemática, como a física. Tudo se desenvolve de um modo mais rico e íntegro quando se tem o privilégio de puder estudar.

A conversa foi correndo e eu fui fazendo perguntas concretas, entre elas a mais óbvia e a que tinha mais ânsia: quanto foi e é importante o estudo da música (educação/formação musical) na tua vida enquanto músico profissional? E o estudo de um instrumento musical, neste caso a Guitarra Portuguesa? Quanto empenho ao tocar? Quantas horas de estudo?

Como é óbvio nada se faz sem um estudo. Sem um laboratório de improvisação e exploração da mesma.

Na música é extremamente importante saber a sua linguagem escrita, auditiva e deixar fluir. A sensorial, sentimental, de alma digamos assim, no meio da técnica e da formação musical.

Para o Ângelo (tal como para todos os músicos) foi e é imprescindível ter uma formação musical. Aprendizagem da teoria e do instrumento. Só com essa bagagem se chega a ser um MÚSICO.

Na escola via-o quase sempre agarrado à guitarra e sempre a tocar, a dedilhar umas notas, a criar melodias que ali se criavam sem querer ao dedilhar a sua guitarra. Assim também foi criando a sua própria criatividade musical.

Hoje em dia há demasiadas facilidades para se dizer que é músico.

Umas das principais e óbvias são sem dúvida as novas tecnologias.

A quantidade de programas com que se faz música sem se saber como, sem se saber que naquela junção de ritmos e sons que o computador faz no meu comando, estou a criar um acorde de 7ª maior, com baixo em Dó, juntamente com outro som que me faz um acorde numa 3ª acima e depois aquela batida em 4/4 (Compasso quaternário), mas que também pode ser um compasso composto 12/4…

O que raio estou para aqui a dizer?…

Pois é…

Como costumo dizer é como uma comida instantânea. Como a farinha Cérelac. Junta-se água e está feita…

Ser-se músico é antes de mais uma profissão. Uma aprendizagem, um estudo de horas numa vida e que não pára. É um estudo contínuo porque pode e deve aprender-se sempre mais.

Pode-se e deve-se dedilhar continuamente a Guitarra, o piano ou qualquer outro instrumento.

E atenção que as novas tecnologias são uma ferramenta que ajuda e em muito os músicos, mas sabendo o que se está a fazer faz-se muito mais com a potencialidade que a própria ferramenta já tem.

Para o Ângelo, hoje em dia ser músico profissional é algo que conquistou com esforço, trabalho, dedicação e principalmente muito amor à música, à guitarra, ao fado.

Meus amigos o Ângelo Freire é um orgulho pessoal mas também um exemplo do que é ser músico e ter trabalhado para isso.

O Ângelo (Como tantos músicos tenho a certeza) é hoje o primeiro a agradecer ao ensino da música e do instrumento juntamente com o empenho, a força de vontade, o amor pela música.

As novas tecnologias são e devem ser usadas, mas por favor aprendam antes música para saberem “falar” música com outros músicos. Só assim chegaram mais cultos, ricos como pessoas e como profissionais deste meio. Obviamente que a sensibilidade, o ter alguma facilidade em ter noção do que soa bem ou não quando se junta alguns acordes, instrumentos com uma batida, ajuda, mas que saibam o que estão a “dizer” e que saibam escrever para outros puderem tocar a vossa música.

Obrigada à música e Ângelo Freire, obrigada pela tua musicalidade tão rica fruto de trabalho, experiências musicais.

Que a música esteja sempre connosco!

 

 

Ana Cristina Esteves

Professora de Música

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