15 de Janeiro de 2019, é o primeiro “Vento Norte” do ano… o primeiro do Infocul. O desafio foi carta-branca para o que quisesse escrever, sobre os assuntos que eu achasse “importante” partilhar com todos os leitores… e depois de muito pensar decidi fazer um pequeno inventário, um resumo musical do ano que há dias findou. Não lhe vou chamar “Lista dos Melhores do Ano”, mas tenho uma certeza: alguma da melhor Música de 2018 passou certamente por aqui:
Duarte “Só a cantar” – escrita afiada num trabalho inteligentemente construído. Duarte vai da doçura a uma linguagem mais dura e real que espelha brilhantemente assuntos de todos os dias. Do Fado ao comportamento humano, das relações pessoais às sentimentais. “Covers” e “Que Fado é esse afinal” põem o dedo na ferida mas há muito mais para descobrir por aqui.
Ana Deus e Luca Argel “Ruído Vário, cancões com Pessoa”– uma portuguesa e um brasileiro pegam na obra de Fernando Pessoa e fazem o impossível: modernizam-na sem adulterar o seu sentido estético e poético. Quase que vou mais longe e digo que Pessoa nunca soou tão contemporâneo e ao mesmo tempo tão radical como neste disco que também é um livro.
Francisco Salvação Barreto “Horas da vida”– classe, interpretação, sobriedade e bom gosto. Ao primeiro disco Francisco Salvação Barreto acerta em todas as frentes. Este não é apenas um disco de Fado tradicional, é um dos melhores discos de Fado tradicional dos últimos anos.
Elza Soares “Deus é Mulher”– Elza Soares transporta consigo todas as dores e inquietações deste mundo. Mulher, negra, guerreira, tem uma história de vida que é de uma luta constante. E a sua música é isso mesmo, uma luta contra um mundo cada vez mais à beira do abismo. “Minha fé quem faz sou eu/ não preciso que ninguém me guie/ não preciso que ninguém me diga/ o que posso e o que não” (in “Credo”) canta Elza, e quem somos nós para discordar?
Miguel Xavier “Miguel Xavier” – uma alma antiga num corpo jovem. Um primeiro disco que nasce já clássico e que mostra que o Fado está longe de se tornar datado ou em vias de extinção. Miguel Xavier tem pouco mais de 20 anos mas o seu disco de estreia reflete uma maturidade e uma alma que perdurará por muitos mais anos.
Eugénia Melo e Castro “Mar Virtual”– o desafio era enorme: transformar em música a poesia concreta de seu pai, E. M. de Melo e Castro. E a escolha foi a mais acertada- um disco a piano e voz em parceria com o músico brasileiro Emílio Mendonça. O resultado? O melhor disco de Eugénia desde “Paz”. Tão belo e minimalista com a poesia complexa que o inspirou.
José Manuel Barreto “Porta 313” – foi gravado como se fosse ao vivo numa Casa de Fados, sem artifícios, sem rede, sem aparato e a “respirar” verdade. É talvez o disco mais genuíno de 2018. E num mundo cada vez mais artificial talvez seja esse o maior elogio que lhe possa fazer. A música como devia ser sempre: verdadeira e com alma.
Helena Sarmento “Lonjura”– o disco foi apresentado pelo genial “Fado jurídico-criminal” (já agora aconselho todos a ver o iluminado videoclip que o acompanhou) mas há muito mais por aqui. Desde o belíssimo tema título a uma impressionante leitura de “Era um redondo vocábulo”. Um disco adulto, de uma qualidade quase rara nos dias de hoje.
André M. Santos “Sete” – um disco dividido entre sete temas instrumentais e sete temas com convidados (Ricardo Ribeiro, Teresa Salgueiro, Ana Laíns e Carla Pires entre outros). O resultado é uma viagem por vários estilos com uma coisa em comum: o respeito pela boa Música. Um disco recheado de surpresas e que funde num só universo musical tantos universos diferentes.
Cátia de Oliveira “Ao vivo na Casa da Música” – a expectativa era alta, seria o primeiro grande concerto da Fadista e o resultado impressionou todos os que esgotaram a conhecida sala de espetáculos do Porto. Segura, irrepreensível, acompanhada por excelentes músicos e com um reportório imaculado, Cátia de Oliveira mostrou porque é umas das mais celebradas Fadistas da Invicta. Passar de fadista de Casa de Fados aos grandes palcos não é para todos, Cátia passa essa prova com distinção.
E pronto, aqui estão os dez discos (e que difícil foi a escolha) que trouxeram a 2018 uma “luz” diferente. Se 2019 trouxer pelo menos metade da qualidade aqui apresentada já será um belo ano. Para finalizar este primeiro Vento Norte não posso deixar de mencionar outros 5 grandes discos que 2018 viu nascer:
Sandra Correia “Aqui existo”
António José Proença “Fado companheiro dos meus dias”
Cristina Bacelar “Nem tudo é Fado”
Manuel Barbosa “Destino que me foi traçado”
Conceição Ribeiro “Rumo”

Até ao próximo “Vento Norte” sejam felizes e ouçam muita e boa música.

dav

2 thoughts on “Adeus 2018, olá 2019.

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