Monda do Lavrador: Revoltosos tempos estes que vivemos, embora tamanha seja a apregoação do bem

Quando tanto se fala da vitalidade do sector das artes e criatividade, em Portugal, não deixa de ser estranho que salas esgotadas comecem a ser uma raridade.

Por entre os distintos factores, há uma clara e indubitável falta de coordenação territorial em termos de programação. Por muito que Lisboa esteja na moda, não tem capacidade de ter mais de 2 a 3 espectáculos no mesmo dia e no mesmo horário, dentro do mesmo segmento. Caso contrário, é certo que dois deles não esgotam.

Lisboa é apenas o caso mais sintomático, de um sector em que ultimamente se tenta impor o gosto ao invés da diversidade, multiculturalidade, tradição e qualidade.

Não é admissível que poderes, públicos e/ou privados, levem ao limite do aceitável a oferta. Primeiro porque o público português não tem capacidade para ir a tudo, segundo porque muitas das salas nem sequer são adequadas para o mediatismo (ou falta dele) de alguns ‘artistas’ e terceiro porque ninguém está para pagar valores absurdos para ver algo que não gosta.

Depois a promoção dos artistas, seja em que área for, está verdadeiramente vergonhosa. Ninguém consegue vender nada passando uma clara imagem de perfeição, simplesmente porque ela não existe. E ninguém vai comprar algo que não existe.

É giro anunciarem-se concertos em salas como CCB, Villaret, Altice Arena, Campo Pequeno, etc, mas a primeira pergunta é: Terá esse artista público para encher a tal sala? Ou os seus seguidores são apenas virtuais e não vão aos espectáculos?

Recentemente estive num espectáculo de ‘stand-up comedy’ em que o dito ‘humorista’ usou e abusou de vocabulário abusivo e brejeiro. Na audiência estavam miúdos (e miúdas) de 12/13 anos. Os que querem aumentar a idade para assistir a corridas de touros, deverão ser os mesmos que acham que ouvir ‘Put*’, ‘Con*’, ‘Cara***’, ‘Fod*’ é algo de educativo e até pedagógico.

É nesta constante incoerência e falta de cultura geral que o povo português caminha, qual rebanho submisso, para o abismo e a sua perda identitária. Claro que podem, e devem, existir pessoas que não gostam de touradas. Têm todo o direito. Mas tão violento é ver sangue, como é jogar jogos de luta ou ouvir vocabulário brejeiro.

Nunca nos esqueçamos que cada um é aquilo que realmente quer ser, independentemente do que o rodeia.

Contudo este espectáculo de stand-up comedy estava esgotado! Outros espectáculos, como por exemplo alguns concertos de artistas de imensurável talento, estão despidos de público. Será que quando utilizamos a retórica do ‘ser-se culto’ é a isto que nos referimos? E não, não é uma questão de gosto. É um facto sobre qualidade. Ter ou não ter!

Culpa, também, de alguns órgãos de comunicação social que se vendem na opinião ao invés de apenas venderem publicidade.

Enquanto a imprensa achar que a sua auto-promoção de ser ou não o mais lido, ser ou não o mais justo, ser ou não o mais rigoroso (consoante os euros na conta) e não servir o jornalismo, a informação e a opinião fundamentada, então estamos todos a ter aquilo que merecemos.

Rui Lavrador

Iniciou em 2011 o seu percurso em comunicação social, tendo integrado vários projectos editoriais. Durante o seu percurso integrou projectos como Jornal Hardmúsica, LusoNotícias, Toureio.pt, ODigital.pt, entre outros Órgãos de Comunicação Social nacionais, na redacção de vários artigos. Entrevistou a grande maioria das personalidades mais importantes da vida social e cultural do país, destacando-se, também, na apreciação de vários espectáculos. Durante o seu percurso, deu a conhecer vários artistas, até então desconhecidos, ao grande público. Em 2015 criou e fundou o Infocul.pt, projecto no qual assume a direcção editorial.

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