O estranho mundo dos encontros

 

 

Vai não há muito tempo que tive um encontro com uma criatura – por sua vontade em me levar a jantar – que se afigurava ser uma pessoa interessante, mas que, porém, afinal, era só desagradável. E narcisista. E quem me conhece sabe que para narciso já basto eu!

 

 

 

Uma postura muito rígida, sobre a vida, o século XXI, as pessoas em geral, e até a própria forma como se vestem. “Aluno/a meu não me pode entrar na sala de aula de manga cava, não permito, é uma falta de valores e princípios gritante”, disse. Pensei eu, “temos o caldo entornado”, que não dou muita importância à aparência porque já se sabe que o que conta é o momento em que a miudagem abre a boca. Se bem o pensei, melhor o aconteceu: o caldo entornou. Eu retorqui que “não dou importância à forma como eles entram vestidos na sala, desde que não sejam mal-educados e que se saibam comportar, as mangas cavas não me fazem espécie”. A criatura (chamemos-lhe assim!) continuou a bater na mesma tecla. Eu, que tenho uma paciência do tamanho de um dedal para pessoas-que-batem-na-mesma-tecla como se só aquilo que dizem e pensam é que está certo, dei início a um revirar de olhos ao ponto de – quase – ficar com tonturas.

 

Mas não te interessa, mais do que as mangas cavas, que os alunos sejam bem educados?”, ainda perguntei eu, numa tentativa vã de salvar a conversa – que a francesinha até estava boa -, mas afinal não, “se não se sabem apresentar é porque não têm princípios”. Pronto. Está certo. “Não estou nada de acordo contigo”, retorqui, enquanto pegava no casaco em sinal de está-a-ficar-tarde.

 

 

 

A criatura não se mancou e continuou a bater na mesma tecla enquanto pagávamos e íamos caminhando até ao parque de estacionamento. “Está a ficar tarde”, atirei eu, ali por volta das vinte e uma horas e cinquenta e cinco, como quem diz “até logo ó Freitas” [n.r.: “adeusinho”].

 

 

 

Em conclusão, que já se sabe que isto vai longo – e como dito num texto anterior, em termos de fuso horário das redes sociais já estais aqui há uma eternidade -, aquela noite foi muito útil para saber que, pelo menos aos olhos daquela criatura, sou um professor/profissional de pouco gabarito, pois preocupo-me mais com o facto de os meus alunos serem bem educados e corretos do que com o tipo de roupa que vestem, e que, por isso mesmo, tenho valores e princípios que não são os típicos de uma “educação sólida e correta”. Hã, hã. Escusado será dizer que “num bai dar“, que uma pessoa mete-se nisto de conhecer gente nova e acaba é por ver cair por terra todo um par de anos de educação dada pelos ricos paizinhos!

Partilhar
  • 2
  •  
  •  
  •  
  •  
  •  
  •  
    2
    Shares

Notícia publicada a 15/04/2018


About the author /


Post your comments

Your email address will not be published. Required fields are marked *

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.

_