Vivemos numa sociedade cada vez mais desafiadora e cada vez mais envelhecida. Hoje, já não se fala apenas nos idosos, mas também numa “nova classe” que começou a ganhar nome próprio: os “very old” ou muito velhos, com idades que atingem e ultrapassam os oitenta anos. No entanto, apesar da idade, muitos destas pessoas mantém uma jovialidade quer do corpo quer da alma, sendo capazes de ainda desempenhar diversas funções do dia a dia entre outras.

Mas sendo assim, o que se entende por velhice? Será o fim da vida? Será mais uma etapa? Mais uma experiência? Pois muito bem. Segundo Cesina Bermudes, a velhice é “Uma situação dinâmica na qual o potencial da mente, aumentado pela experiência dos anos, deve ser aproveitado e canalizado para se adaptar às circunstâncias.” Não é sinónimo de fim de vida nem de decadência do ser pessoa, a velhice não é nem uma doença! É a prova de que se teve saúde para a atingir.

Certo é que, com o avançar da idade, se vão perdendo certas faculdades, quer físicas quer psicológicas, quer de ordem material, afectiva e mundana, mas outros condicionalismos também são acrescentados a todos estes anos de vida, talvez em tom de compensação por se chegar a uma idade avançada, em que o idoso se vai adaptando à sua nova ou contínua condição de vida. Ou seja, a adaptação ao envelhecimento é o equilíbrio entre ganhos e perdas, não em quantidade mas em ganho pessoal.

Das perdas possíveis na terceira idade, destacam-se a Doença e sofrimento físico, a Redução da mobilidade, a Perda da autonomia, a Inactividade, A Diminuição de contactos familiares e sociais, a Alteração do local de vida, a Alteração dos hábitos, a Dependência económica, a Perda de poder no lar, a Falta de distracção ou interesses específicos, bem como a Perda de entes queridos.

Não obstante, e embora não sendo uma substituição, existem também ganhos que vem aprimorar e colmatar muitas destas perdas, tais como: Alívio das tensões e obrigações no trabalho, Ocupação do tempo livre com mais prazer, Realizar tarefas deixadas para mais tarde, Contacto com crianças, Rever-se no sucesso de filhos e netos, Auxílio a amigos e familiares, bem como um Sentido altruísta e espiritual da vida.

Nesta linha de pensamento, actualmente caminha-se para uma nova interpretação do conceito de idoso e de senescência, em que a pessoa pode ter um papel integrante na sociedade, mesmo depois de ter atingido uma idade tão avançada, desde que manifeste condições e vontade para isso, contrariando a tradicional visão ne nada fazer e desânimo pela vida que já passou. Agora, é preciso preocupar com a vida que vem. E essa vinda tem um assento fulcral na sociedade, que deve funcionar como incentivo e trampolim para uma melhoria das condições de vida dos seus membros mais idosos.

Segundo Lanjèrre, a velhice equivale a um abismo em que o idoso cai e lá fica preso. No entanto, se a sociedade lhe atirar uma corda, o idoso pode sair do abismo e realizar novas funções que, posteriormente, conduzirão a novos empreendimentos, contactos e ao sucesso, ou seja, a uma nova esperança de vida.

Ou seja, na perspectiva actual de idoso e senescência na sociedade, a melhor conciliação do idoso à sua nova condição adaptativa faz-se com o partilhar de ideias e sentimentos, com o delegar de funções, aspirando a um objectivo, com novas formas de empreendimento, e novos contactos, identificando novas fontes de informação e resolvendo problemas de forma criativa, de modo a atingir novamente o sucesso e uma visão da vida ainda mais promissora.

Cesina Bermudes considera que, encarar a vida levando tudo o que sucede para o lado bom, a tem ajudado a envelhecer sem dar por isso e que a manutenção da juventude de espírito ajuda a conservar o corpo. Ou seja, a disposição de espírito de recusar estar doente é muito mais construtiva, em que a psique se sobrepõe ao soma.

A velhice não existe. O passar dos anos não é mais do que um estado de espírito que se desenrola na mente de cada um e que o permite viver. Quer dizer que não se trata de dar mais anos à vida mas sim de dar mais vida aos anos, ou seja, tudo depende do que fazemos como tempo que nos é concedido e das oportunidades que aproveitamos.

Certo é que com o avançar da idade, o soma ressente-se e faz notar a sua voz, mas é também verdade que a psique, tão inerente a este, é-lhe bem superior e dar-lhe-á que fazer se se o opuser. Esta é a parte do ser humano que nunca degenera e que lhe permite transcender a simplicidade da matéria através da sua vontade.

Vontade! É uma bela palavra. É através dela que a juventude do espírito rejuvenesce o corpo”, quando a alegria progride e o mal se torna bem, quando, inconscientemente, se descobre que essa atitude se desenvolve cá dentro e só assim se manifesta. Não é mais que a disposição e o “espírito alegre” praticado inconscientemente e espontaneamente, desde que o “ser” tomou consciência de si e deu azo a uma vida.

Sim! A psique sobrepõe-se ao soma uma vez que a disposição de espírito de se opor à doença produz um néctar construtivo de vitalidade. Ser velho não é morrer, é dar juventude ao corpo insuflando-lhe um mar potencial de experiência acumulada canalizada à sua não nova mas contínua condição.

Rogério Vieira

Médico de Psiquiatria desde 1 de Janeiro de 2017 no HESE, HSM e Centro Hospitalar Psiquiátrico de Lisboa - CHPL; Médico Interno de Ano Comum no HSEIT, Ilha Terceira, Açores em 2015/2016; Mestre em Educação e em Cidadania pela Universidade dos Açores - UAC; Membro da Associação Portuguesa de Internos de Psiquiatria - APIP, desde 2015; Representante dos Internos de Psiquiatria do HESE em 2017/2018; Presidente do Conselho Fiscal da Associação Portuguesa de Internos de Psiquiatria - APIP; Representante da Associação Portuguesa de Internos de Psiquiatria - APIP, na Federação Europeia de Internos de Psiquiatria - EFPT, em 2019; Colaborador no Congresso anual da Associação Psiquiátrica Alentejana - APA, desde 2017 ; Mestrado Integrado em Medicina pela Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa - FMUL; Licenciatura em Enfermagem, pela Universidade dos Açores - UAC; Formação Pedagógica Inicial para Formadores pela Santa Casa da Misericórdia de Angra do Heroísmo - SCMAH; Colaborador no Jornal Diário Insular, a União e Sinais Vitais, com vários artigos publicados; Curso de Tripulante de Ambulância de transporte - TAT pela Cruz Vermelha Portuguesa da Ilha Terceira; Curso de Traumatologia e Resgate Em Altura - Salvamento em Grande Ângulo, pela Cruz Vermelha Portuguesa da Ilha Terceira; Curso de Pré Hospital Trauma Life Suport - PHTLS, pela Sociedade Portuguesa de Cardiologia; Curso de Socorrismo Básico, pela Cruz Vermelha Portuguesa da Ilha Terceira; Oficial de Ambulância na Cruz Vermelha Portuguesa da Ilha Terceira em 2005; Membro Fundador e Vogal da Secção da Assistência Médica Internacional - AMI, da Ilha Terceira de 2003 a 2006; Locutor na Radio Horizonte Açores de 2000 a 2004; Dirigente Desportivo e antigo atleta da Associação de Karaté dos Açores - AKA;

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