‘Maria’ ´o nome do mais recente disco da fadista Carminho, tendo sido editado no final de 2018, pela Warner Music Portugal.

 

Carminho escolheu entrar em contra-ciclo com o actual fado “popelarizado, popesticado” e “popolista”, como canta, e bem, no satírico ‘Pop Fado’, de César de Oliveira e Fernando de Carvalho. Um disco em que ‘menos é mais’, Carminho apresenta-nos o fado de sempre mas numa perspectiva do agora.

 

Inicia o disco à capella, ‘A tecedeira’, com a sua assinatura na letra e música, e é aqui que percebemos que este não é mais um disco, de uma fadista… É um disco de quem nasceu no fado, cresceu com o fado e que através deste disco faz o conhecimento sobre fado crescer aos que são menos melómanos. A voz de Carminho apresenta-se neste disco em bruto, com uma dicção primorosa e a emoção a ser servida, naturalmente, em doses muito generosas. É um disco emocionalmente fantástico pela vida que nos faz viver ao ouvi-lo. Choramos, rimos, cantarolamos, batemos o pé e ainda erguemos os braços ao alto para uns passos bailados ao som da música tradicional. Mas, é o Fado quem guia, define e marca este disco. É Carminho sem tendência para as notas altas, mas que veste-se de cupido e acerta em cheio nos amantes da música, do fado.

Na música do Fado Bizarro e com letra de Pedro Homem de Melo, ‘O Começo’, Carminho prende-nos em “Só dura o mundo enquanto dura a trova/ Rasgado o coração, pairam gemidos/ Nascemos porque a dor é sempre nova/ E não há sofrimentos repetidos”. A Maria do Carmo, que é filha da fadista Teresa Siqueira, que conhecemos artisticamente como Carminho, surpreende ao assinar quase todas as letras que canta neste álbum. É um lado pessoal e de vida que nos transmite através da escrita, levando-nos nesta aventura num carrossel emocional que é a sua voz. Cantar bem muitos o fazem, mas cantar bem e oferecer emoções já é mais difícil, e é quando isto acontece que podemos classificar como arte. A arte pode ser indescritível mas tem de ser sentida, e a Maria do Carmo na voz da Carminho, consegue-o fazer. ‘Desengano’ conta com letra sua e música de Jaime Santos.

Este álbum sendo muito bom na sua totalidade, tem alguns destaques que aqui quero mencionar. ‘O Menino e a Cidade’ é uma história bem escrita e vestida com a música certa de Joana Espadinha e a quem Carminho e nos deixa lacrimosos pensando no mundo: “Ele sabe que a vida não arde se o sonho é pequeno/ E que às vezes poderá queimar-te com seu veneno/ À noite a mãe chora baixinho/Sozinha pra não perturbar a cidade/ Que hoje dorme sem luar…” e se ainda não se esgotaram os lenços que secam as lágrimas, use-os em ‘Estrela’, com assinatura de Carminho na letra e música:

Tu és a estrela que guia o meu coração
Tu és a estrela que iluminou meu chão
És o sinal de que eu conduzo o destino
Tu és a estrela e eu sou o peregrino

Até aqui foi uma escuridão tão
Dessas que nos faz ser sábios do mundo
Vivi desilusão tão desigual
Que vim dar a minha infância num segundo

Nem sabes tu aquilo que fizeste
Por mim, até por ti quando chegaste
Só sei que ao te ver tu reergueste
O que em mim era só cinza e desgaste

Tu és a estrela que guia o meu coração
Tu és a estrela que iluminou meu chão
És o sinal de que eu conduzo o destino
Tu és a estrela e eu sou o peregrino

Amor que cedeu, mas numa distância
Distância que nos fez acreditar
Que é essa que dá a real importância
À liberdade que é poder e saber amar

Bem mais feliz agora certamente
Vou eu seguindo assim pela vida afora
Não mais estarei sozinha, estou bem crente
Que o teu feixe de luz própria me segue agora

Tu és a estrela que guia o meu coração
Tu és a estrela que iluminou meu chão
És o sinal de que eu conduzo o destino
Tu és a estrela e eu sou o peregrino

 

Mas, e agora que as lágrimas lavaram as alma, é altura e rodar a cabeça e mover suavemente os ombros ao som de um satírico ‘Pop Fado’, no qual Carminho pega numa música difícil e faz parecer fácil o seu cantar. Mas ouçam bem e repetidamente a letra, depois fechem os olhos e pensem no panorama fadista actual. As conclusões são…

Num jogo de emoções, criado por Carminho, voltamos a sentir a fatalidade fadista e a força de viver em ‘A mulher vento’ (letra e música de Carminho), uma mulher que “E assim cantando/ A Mulher Vento vai dando/um sentido claro e brando/À sua vida entregar”, seguindo-se uma homenagem aos talentosos da escrita em ‘Poeta’, no qual a fadista valoriza a palavra, escrita e cantada, num tema com a sua assinatura.

O Amor é fielmente cantado neste disco, na sua vertente feliz e triste, na sua simplicidade de simplesmente amar. No fado Sta.Luzia, Carminho assina ‘Se Vieres’ e deixa logo o avisa de “Se vieres vem com o amor”, num retrato fiel deste disco, apenas pode ser ouvido com amor. Porque Carminho vai contra a corrente e regressa às raízes, nunca deixando de ter uma vertente contemporânea e o seu crivo estético.

O tema que ousa e homenageia a liberdade, neste disco, intitula-se como ‘Quero um cavalo de várias cores’, com letra de Reinaldo Ferreira e música de Carminho, antecedendo ‘Sete Saias’, de Artur Ribeiro, que nos leva às sonoridades mais tradicionais pela voz da fadista. O disco fecha, em chávena de ouro como se chá fosse, com ‘As Rosas’, novamente com assinatura de Joana Espadinha, que nos traz emoções e valores como o amor e a gratidão.

Este trabalho contou com a produção da própria Carminho, sendo gravado por Artur David, assistido por Daniel Silva, no Bela-Flôr Recording Studios. A mistura coube a Artur David e Carminho e a masterização de Fernando Nunes. O tema ‘As Rosa’ foi gravado no Atlantico Blue Studios. Na guitarra portuguesa contou com Bernardo Couto, Luís Guerreiro e José Manuel Neto, Flávio César Cardoso na viola de fado, Marino de Freitas no baixo acústico, João Paulo Esteves da Silva no piano, destacando-se ainda a guitarra eléctrica, por Carminho (Estrela) e Filipe Cunha Monteiro (Pop Fado). Filipe Cunha Monteiro que esteve também no pedal steel.

 

Rui Lavrador

Iniciou em 2011 o seu percurso em comunicação social, tendo integrado vários projectos editoriais. Durante o seu percurso integrou projectos como Jornal Hardmúsica, LusoNotícias, Toureio.pt, ODigital.pt, entre outros Órgãos de Comunicação Social nacionais, na redacção de vários artigos. Entrevistou a grande maioria das personalidades mais importantes da vida social e cultural do país, destacando-se, também, na apreciação de vários espectáculos. Durante o seu percurso, deu a conhecer vários artistas, até então desconhecidos, ao grande público. Em 2015 criou e fundou o Infocul.pt, projecto no qual assume a direcção editorial.

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