Nem todos podemos ser Pessoa, mas podemos fazer os mínimos olímpicos

hashtags

 

 

Os meus amigos dizem que sou o #nazidagramática e que tenho um feitio #poucoagradável. Isso e tendência para #revirarosolhos quando ouço #assassinatosàlínguadeCamões.

 

 

E é verdade: #nãomeaguento! Se está certo que #nemtodospodemosserPessoa, também podemos fazer os #mínimosolímpicos para evitar sermos conhecidos como #aquelequenãodistingueoádohá! Por favor, pessoas, “á” não existe, nunca existiu e #nãovaiexistirmesmoqueoescrevamváriasvezes.

 

 

As redes sociais [e se repararam na subtileza estou a dar uns toques nuns hashtags aqui pelo meio, apenas para desdizer a teoria de ter um feitio pouco agradável, de modo a parecer cool] fizeram proliferar o número de #crimesdelesa-pátria que são cometidos contra esta língua originária do latim.

 

 

E também é preciso falar de outro #flagelo: o “prontos”. No discurso oral, anda aí #nasbocasdemeiomundo e #serveparatudo. Também é outra coisa #difícildeaguentar, mas uma pessoa, em prol de uma #convivênciasaudável, faz por ignorar aquele último “s”, quase como se ele tivesse ficado em casa, #deondenuncadeviatersaído. É nestas ocasiões que me sinto impelido a #revirarosolhos, embora me tente controlar, quase sempre #semsucesso!

 

 

Está bom de ver que sou uma pessoa com #gostorefinado no que toca à nossa língua. Não há nada mais atraente do que conversar com alguém que sabe falar #bomportuguês e que não dá erros ortográficos. Sabem lá vocês [ou, provavelmente, até sabem…] o quão #árduo é tentar ter uma conversa com alguém que não distingue o #porque, do #porquê do #por que! Em caso de dúvida é ir ao #ciberdúvidas ou ao #priberam, está tudo #escarrapachado. E podia dar outros exemplos, como o #traz e o #trás, mas se calhar não vale a pena ir por aí, #jáquesãooutrosquejandos.

 

 

Se os erros ortográficos são um #turnoff, é, por outro lado, um turn-on manter um diálogo escrito com quem domina as #artimanhasdalínguaportuguesa e me faz bater palmas pela coerência, rigor e pragmatismo do discurso. Mas, uma vez mais, isto sou eu, que tenho uma #paixãoporquemescrevebomportuguês.

 

 

Tenho andado a ler um livro [«Ele está de volta»] que retrata o momento em que Adolf Hitler acorda, em Berlim, no ano de 2011, e não reconhece o que se passa à sua volta nem identifica o reich e se sente perdido e confuso. Como será que Almada Negreiros, Camilo Castelo Branco, Fernando Pessoa ou José Saramago reagiriam se voltassem a #Portugal2018 e percebessem que há quem diga #quaisqueres, senhores, q-u-a-i-s-q-u-e-r-e-s?! Talvez #fugissemasetepés dizendo que não foi para isto que dedicaram a sua vida.

 

 

 

O mundo é um elemento em evolução constante, e para nele vivermos temos de estar aptos a aceitar as mudanças, se bem que algumas são para (muito) pior. #Adaptar-nos-emos [n.r.: futuro do presente simples do modo indicativo] a elas algum dia?

 

Dos últimos desvarios da comunicação do século XXI são as hashtags. Confesso que lhes acho piada, são uma nova forma de comunicar, mas imaginem agora que #usavaumhashtagparatudoemaisalgumacoisa. Deus nos livre! [n.r.: ler em tom de recurso expressivo – antítese ou ironia – à escolha do(a) leitor(a)].

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Notícia publicada a 15/03/2018


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