Pedro Chagas Freitas escreve sobre a doença de um filho e o limite do insuportável, nas suas redes sociais.
Não é um desabafo simples. É um texto cru, escrito a partir do limite. Nas redes sociais, Pedro Chagas Freitas partilhou uma reflexão profunda sobre a experiência de viver a doença de um filho, num registo que rapidamente mobilizou leitores.
Quando o mundo muda de escala
Logo no início, o escritor descreve uma transformação silenciosa, mas definitiva, na forma como passa a olhar para a vida quotidiana. “Quando se vive a doença de um filho, o que muda mais é o lugar do insuportável. Coisas que antes pareciam inaceitáveis (uma fila longa, um olhar torto, um comentário idiota, um dia mau no trabalho) passam a ser ruído, uma espécie de decoração de miséria ligeira que não me afecta.”
A partir daí, o texto mergulha num outro tipo de realidade, marcada por sons e silêncios que não deixam margem para distrações. “Conheci outro tipo de barulho: o da máquina que apita quando não devia, o das solas dos médicos no corredor, o silêncio da sala de espera do bloco operatório às três da manhã, o do alarme para a medicação que não pode faltar.”
O essencial sobrevive, o resto encolhe
Depois, Pedro Chagas Freitas explica como essa vivência altera a tolerância emocional. O que antes incomodava deixa de ter peso. “Hoje, suporto facilmente o insuportável de antigamente: a falsidade, as urgências inventadas, as vaidades com som de plástico, as invejas pequenas. Nada disso me incomoda.”
Nesse contexto, o mundo exterior perde importância. “Quando se passa tempo suficiente entre paredes brancas a olhar para o corpo pequeno e doente da pessoa que amamos acima de nós mesmos, o mundo lá fora encolhe. O que não é essencial torna-se ridículo. E quase tudo não é essencial.”
O abismo como aprendizagem
Mais à frente, o autor rejeita qualquer romantização da dor, mas reconhece o impacto transformador da experiência. “A paz profunda precisa de um pouco de abismo. O precipício ensina: o risco a sério, o medo verdadeiro, arranca-nos as camadas de estupidez com que nos embrulhámos a vida toda.”
Ainda assim, faz questão de clarificar que não se trata de uma evolução moral. “Não sou melhor pessoa por ter passado por isto. Só outra pessoa. Mais crua, mais selectiva. Tenho menos paciência para o que não importa nada e muito mais para o que importa tudo.”
Uma paz que não vem dos livros
Por fim, o texto termina sem respostas fáceis. O escritor admite a impossibilidade de avaliar a experiência em termos de ganho ou perda. “Se me perguntarem se valeu a pena, não tenho resposta.”
Ainda assim, deixa espaço para momentos raros de serenidade. “Há dias em que tudo fica calmo. Nesses dias, por breves momentos, sinto uma coisa parecida com paz. Não a paz dos livros; a outra, a que se aprende com os olhos postos no abismo. Com a mão firme a segurar quem amamos.”
Texto integra nova obra do autor
O texto partilhado nas redes sociais faz parte do livro O Hospital de Alfaces, já disponível em hipermercados e livrarias.
Assim, Pedro Chagas Freitas volta a usar a escrita como espaço de sobrevivência, expondo a fragilidade, o medo e a lucidez que nascem quando a vida é levada ao limite.
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