Pedro Chagas Freitas reage ao caso do bebé deixado à porta dos bombeiros: “Uma mãe que abandona um filho não tem de ser uma criminosa miserável”, disse.
O escritor condena o julgamento público da mulher e fala em “acto de amor e desespero”
O escritor Pedro Chagas Freitas recorreu às redes sociais para reagir ao caso da mulher que abandonou um bebé à porta dos bombeiros de Leiria, esta semana, e que entretanto foi constituída arguida. Numa reflexão poderosa e emocional, o autor criticou o moralismo social e defendeu que o gesto da mãe pode ter sido motivado por amor e desespero.
Logo no início da publicação, o escritor deixou clara a sua posição:
“Tenho medo dos donos das sentenças morais. Temos o vício cruel de reservar as pedras para quem sangra em silêncio.”
“Uma mulher deixa um bebé à porta dos Bombeiros, com cuidado, com lucidez”
Pedro Chagas Freitas lembrou o gesto da mulher e destacou o cuidado com que o bebé foi deixado, contrariando a ideia de abandono sem compaixão.
“Uma mulher deixa um bebé (não num contentor, não no mato) à porta dos Bombeiros, agasalhado, com fraldas e leite. Ou seja: com cuidado, com a lucidez fria de quem sabe que não pode dar, mas que ainda assim quer proteger.”
Para o escritor, a sociedade é rápida a condenar e a apontar o dedo, sobretudo quando se trata de uma mulher que não cumpre o papel que lhe é imposto.
“Nada alimenta melhor a opinião pública do que uma mulher a falhar o papel que lhe foi imposto.”
“Esta mãe não atirou o bebé para o vazio. Entregou-o ao mundo.”
Num dos trechos mais comoventes do texto, Pedro Chagas Freitas defende que o gesto pode ser visto também como um acto de coragem e discernimento, e até mesmo de amor.
“Há uma espécie de heroísmo em quem reconhece a própria impotência. Esta mãe não atirou o bebé para o vazio. Entregou-o ao mundo de forma quase cerimonial, à porta de um hospital, como quem diz: ‘eu não posso, mas alguém poderá.’ É um gesto de desespero. É também um gesto de um discernimento brutal. Pode até ser um acto de amor.”
O autor lamentou ainda que o amor que foge às convenções sociais seja rejeitado.
“O amor, quando não encaixa na narrativa romântica, é desconfortável.”
“O pai parece ter desaparecido como desaparecem os homens nas tragédias domésticas”
Pedro Chagas Freitas não deixou passar em branco o silêncio em torno do pai da criança, apontando o dedo à desigualdade na forma como a responsabilidade é discutida.
“O pai parece ter desaparecido como desaparecem os homens nas tragédias domésticas: em silêncio, com a consciência limpa, as mãos vazias, não se fala nele. Não há manchetes com o seu rosto, não há fóruns a questionar onde anda.”
E reforçou:
“Habituámo-nos todos a não perguntar: onde está? Não sei. Sei que não apareceu até agora, sei que a mãe estava sozinha, trancada na angústia.”
“A mulher é arguida. O homem, até ver, só tem de mudar de canal.”
Na conclusão da sua mensagem, o escritor condenou o julgamento moral coletivo e criticou a desigualdade de tratamento entre géneros.
“A multidão prega a moral, lava as mãos num tanque de certezas baratas. A mulher que abandona o filho é constituída arguida. O homem, até ver, só tem de mudar de canal.”
Pode ver a publicação AQUI.
