Pedro Espinheira e a mudança de cabo nos Forcados Amadores do Ribatejo: “acredito que a maior marca que deixo é a humildade”

Pedro Espinheira e a mudança de cabo nos Forcados Amadores do Ribatejo: “acredito que a maior marca que deixo é a humildade”, referiu.

No próximo domingo, dia 12 de Maio, realiza-se uma corrida de touros na Praça de Touros de Salvaterra de Magos, que tem como destaque maior a saída de Pedro Espinheira da liderança do Grupo de Forcados Amadores do Ribatejo.

Assim, Pedro Espinheira será substituído por Rafael Costa, na liderança do grupo.

O Infocul.pt entrevistou Pedro Espinheira sobre a corrida do próximo domingo, uma conversa na qual Pedro fez um balanço do seu percurso.

O cartel conta com Luís Rouxinol, Ana Batista e Marcos Bastinhas, além do Grupo de Forcados Amadores do Ribatejo, que pegará em solitário.

Os touros são das ganadarias: Prudêncio, Ribeiro Telles, António Silva, João Ramalho, Jorge Carvalho e Canas Vigouroux.

Pedro, como está a ser encarada a tua última corrida como cabo dos Forcados Amadores do Ribatejo?

Encaro esta última corrida como cabo dos Forcados Amadores do Ribatejo com um misto de sensações profundamente marcantes. Por um lado, sinto a satisfação de missão cumprida após 12 anos dedicados ao grupo, dos quais 10 passei como cabo, liderando e partilhando inúmeros momentos que se transformaram em amizades duradouras e memórias inesquecíveis. Nunca tive dias tristes aqui, mesmo nos momentos mais desafiantes, a alegria da superação sempre predominou.

Encaro também este momento com a responsabilidade que ele exige, com grande alegria de reencontrar antigos companheiros que partilharam este caminho comigo e com o orgulho que observo os atuais e novos membros que irão dar continuidade à história deste grupo tão especial. Cada passo que dei aqui foi acompanhado de alegria e companheirismo, e levo comigo não só a experiência, mas também o espírito de camaradagem que sempre nos caracterizou.

Foi uma decisão muito pensada ou houve um determinado momento em que surgiu essa vontade de colocares um ponto final?

Foi uma decisão extremamente ponderada, marcada pela consciência de que nada é eterno. Compreendo que estamos aqui de passagem e que saber sair é tão ou mais importante quanto a forma como entramos. Não são decisões que surgem repentinamente, foi algo que construí ao longo do tempo. Ser forcado torna-se parte intrínseca da nossa identidade, da nossa maneira de ser e estar no mundo, nunca são decisões repentinas, por isso, foi uma decisão cuidadosamente pensada. Sempre estabeleci metas para mim mesmo, e esta não foi exceção.

Contudo embora seja o fim da minha carreira ativa como forcado, não é um adeus definitivo. Continuarei a acompanhar e a apoiar o grupo, pois este lugar também é a minha casa e o sentimento de pertença permanece intocado.

Fazendo uma perspetiva, qual a maior marca que deixas enquanto cabo e também enquanto forcado?

Refletindo sobre o impacto que tentei criar tanto como forcado quanto como cabo, acredito que a maior marca que deixo é a humildade com que sempre procurei desempenhar minhas funções. Reconheço que, muitas vezes, não somos bons em autocríticas, pois pode surgir a sensação de soberba. No entanto, sempre fiz um esforço consciente para atender às expectativas com a maior humildade possível.

Essa marca torna-se ainda mais vital quando temos a responsabilidade de liderar um grupo. A humildade não apenas une o grupo ao nosso redor, mas também fomenta o crescimento de amizades que, com o tempo, se transformam em família. É essa qualidade que possibilita a superação coletiva e serve como a pedra basilar de um grupo coeso e forte. Essa é a essência do legado que sempre aspirei deixar, um legado de liderança humilde, mas firme, que inspira e une.

Esse impacto pode ser claramente observado nas prestações do grupo ao longo dos últimos anos, que sempre foi regular nas suas prestações e no número de corridas em que estivemos presentes. Isso é, sem dúvida, o resultado desse trabalho.

Irás passar o testemunho a Rafael Costa, na liderança do grupo. Quais as características que mais destacas no teu sucessor?

Passar o testemunho ao Rafael Costa representa para mim um momento de grande confiança e satisfação. O Rafael é um verdadeiro agregador, uma qualidade que ficou claramente evidenciada durante a votação para a escolha do novo cabo. Votação essa que era aberta e livre, onde todos tinham a oportunidade de votar e ser votados, o Rafael alcançou a unanimidade. Esta conquista não é algo trivial, é o resultado de anos dedicados não só como forcado, mas também como um verdadeiro amigo de todos os membros do grupo.

A capacidade de unir as pessoas é talvez a característica mais distintiva, mas ele possui muitas outras qualidades que são essenciais para ser um líder. A humildade, a habilidade de liderança e a facilidade com que cultiva amizades são atributos que complementam a sua natureza agregadora. Estou plenamente confiante de que o futuro do nosso grupo está em excelentes mãos.

A corrida de dia 12 terá um cartel harmonioso no que a estilos de toureio diz respeito. Quais as expectativas?

As expectativas para a corrida são bastante elevadas. Estamos perante um concurso de ganadarias do Ribatejo, o que por si só já indica a seriedade do evento e por isso estamos perante um curro sério.

No que toca ao cartel, este foi harmoniosamente composto, refletindo uma combinação de estilos que promete enaltecer a corrida. Temos a mestria de Luís Rouxinol, a classe de Ana Batista, cavaleira da terra e a irreverência de Marcos Bastinhas. Olhando para a corrida como um todo é atrativa e será certamente um marco da temporada 2024.

A tua despedida era para ter sido em Outubro, mas a corrida foi adiada devido a condições meteorológicas. Isso aumentou-te a ansiedade?

Não, o adiamento da minha despedida não aumentou a minha ansiedade. Claro que o plano inicial era concluir esta etapa após uma temporada completa, o que teria sido o ideal. Infelizmente, as condições meteorológicas não permitiram que isso acontecesse na altura prevista. Apesar dessa mudança de planos, agora não seria lógico tentar faze-lo com o mesmo objetivo e o que tentamos foi manter os pressupostos da corrida já anunciada anteriormente.

Ao fim de várias anos ligado à arte de pegar touros, como vês a evolução dos grupos e a forma como são vistos pelo público?

Observando a trajetória dos grupos de forcados ao longo dos anos, noto uma evolução significativa tanto em termos de classe como de brio. Não que antes não existisse essas qualidades, mas atualmente elas são mais visíveis e reconhecidas. O público já não se limita a avaliar o desempenho dentro da arena, a atenção estende-se também ao comportamento fora dela. A postura dos forcados nas trincheiras, durante a volta, na entrada e na saída da arena, são todos aspetos que agora recebem uma atenção detalhada.

E os grupos têm respondido a esses requisitos, com um cuidado crescente em todos esses detalhes. No Ribatejo, sempre primámos por essa atenção ao pormenor, cuidando da farda, dos botões, da apresentação geral e da postura. Ver essa preocupação generalizar-se entre os grupos deixa-me bastante satisfeito, pois demonstra um respeito crescente pela arte de pegar um compromisso com a excelência que valoriza a figura do forcado amador aos olhos do público.

Qual a história mais divertida, entre as muitas que deves ter, que te aconteceu ao longo dos anos na tauromaquia? (que possa ser contada)

Ao longo dos anos, acumulei muitas histórias e memórias, cada uma com a sua importância e marca distintiva. Nem todas podem parecer divertidas quando contadas, mas foram-no enquanto vividas. Uma das histórias que sempre recordo com humor aconteceu em 2014. Naquela época, o grupo foi dividido, metade foi pegar uma corrida em Alandroal e a outra metade, sob minha responsabilidade, seguiu para uma demonstração de pegas em Amélie-les-Bains-Palada, em França. A viagem já prometia ser uma aventura, dada a distância.

Chegando lá, o evento começou com recortadores, e logo depois seria a nossa vez. As vacas que saíram eram enormes, os bandarilheiros foram logo agarrados logo na primeira vaca. As outras vacas que eram ainda maiores, o que evidentemente não deixou os bandarilheiros muito confortáveis, entretanto fui procurar os bandarilheiros para ajudar a colocar a vaca. Para minha surpresa, já estavam sentados na bancada, vestidos à civil, como se fossem meros espectadores. Acabamos por ter de pedir aos recortadores que nos ajudassem a colocar as vacas com uns panos pequenos. Foi um momento inesperado e caricato que ainda hoje recordo com muito humor.

Após este fim de ciclo, tens ideia de continuar ligado à tauromaquia em outra função?

Como já mencionei anteriormente, vou continuar a apoiar e acompanhar o grupo do Ribatejo, o que para mim é uma questão de honra e compromisso. Além disso, como é de conhecimento publico, sou apoderado do cavaleiro Filipe Gonçalves. Por agora, esta será a minha principal função dentro do mundo dos toiros. Embora não esteja a explorar outros horizontes neste momento, certamente não descarto a possibilidade de abraçar novos desafios no futuro.

Como convidas o público a esgotar a lotação da praça?

Convido o público a não perder a oportunidade de assistir a um evento único desta temporada, que promete ser memorável por várias razões. Primeiro, pelo próprio cartel, que é de uma qualidade excecional e traz consigo a seriedade que só um concurso de ganadarias pode oferecer, a data escolhida para o evento é já uma data tradicional, garantindo uma atmosfera especial a este dia.

E claro com especial significativo será o papel do grupo do Ribatejo, que terá a honra de pegar o concurso em solitário, reunindo forcados antigos e atuais. Este será, sem dúvida, um marco histórico tanto para a tauromaquia quanto para o nosso grupo. E o aficionado poder participar pessoalmente em momentos históricos como este é sempre mais impactante e memorável do que apenas ouvir falar deles. Por isso, convido a todos a juntarem-se a nós e a serem parte deste momento extraordinário.

Fotografia: D.R. (cedida gentilmente por Pedro Espinheira)

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