“Porque é que o mundo precisa do Super-Homem?” – a pergunta vestida de azul e vermelho, carregada de esperança.
Um novo capítulo cinematográfico
A 10 de julho de 2025, foi lançado o filme “Superman” de James Gunn, com a personagem principal retratada pelo até agora desconhecido do grande público, David Corenswet.
Desde 2017 que não víamos uma versão do primeiro super-herói no cinema. E essa última aparição foi pelas mãos de Zack Snyder no filme “Liga da Justiça”. Para uma geração, foram os filmes de Zack Snyder, desde “Homem de Aço” de 2013, que foram a biblioteca de referências da personagem.
Há algo de profundamente simbólico na forma como olhamos para o Super-Homem. Mais do que um herói de banda desenhada, ele é, há décadas, a encarnação de um ideal: força sem corrupção, poder sem ambição, compaixão sem limites. Mas esse ideal tem sido posto à prova. E nenhuma prova foi tão intensa como aquela que Zack Snyder nos apresentou nas suas versões da personagem de banda desenhada, criada em 1938.
A visão de Zack Snyder: o messias em crise
E, realmente, esta versão deu uma roupagem diferente. Uma roupagem mais sombria e também com um estilo mais realista face àquilo que é a frieza, àquilo que é o “não querer saber” que temos no nosso mundo e paisagens carregadas de simbolismo e cores neutras e tristes.
Era uma versão que não agradou a muitos puristas do Super-Homem, mas com extrema qualidade artística do ponto de vista visual e do ponto de vista dos temas retratados. Snyder não quis apenas filmar o Super-Homem. Quis repensá-lo. Quis questionar o que significa, hoje, um ser quase todo-poderoso cair do céu para viver entre nós.
Esta encarnação dividiu o público. Para uns, era um sacrilégio à pureza da personagem. Para outros, uma lufada de profundidade e realismo. Porque, convenhamos, vivemos num mundo que se tornou cínico — onde até a bondade parece suspeita.
O Super-Homem como Cristo, de Snyder
Foi um Super-Homem que se inseriu num universo muito específico em que, na verdade, é uma figura mais messiânica, quase que uma figura de Jesus Cristo, com muitas imagens, muitos ângulos, muitas luzes, a retratar tal como Cristo em algumas pinturas e noutros filmes. Ou seja, era uma figura de um salvador que estava aqui para tentar levar o melhor de nós a surgir à superfície. Para, se cairmos, ele ajudar-nos a levantar, ter paciência connosco e salvar tudo o que podia. Isto levou-o a uma personagem mais violenta, levou-o a uma personagem mais distante.
A comparação com Cristo não é subtil. É assumida. Snyder constrói um mito messiânico, cinematográfico, onde Kal-El é menos um escuteiro bondoso e mais um profeta angustiado. O mundo não o entende. O mundo teme-o. É divino, mas exilado. Um salvador com as mãos sujas pela dureza do mundo.

O “S” é de Esperança: entre crítica e reverência
O Super-Homem não é apenas um herói. É um espelho do que, em cada tempo, gostaríamos de ser — ou do que tememos já não conseguir ser. É por isso que as diferentes versões desta personagem nos dizem tanto sobre o mundo em que vivemos. A mais recente, a de Zack Snyder, mergulhou-nos num universo denso, sombrio, quase apocalíptico.
Neste sentido, essa encarnação dividiu o público. Para uns, era um sacrilégio à pureza da personagem. Para outros, uma lufada de profundidade e realismo. Snyder fez um Super-Homem que não nos dizia apenas “vou salvar-vos”, mas que nos perguntava: “valerá a pena salvar-vos?”
A proposta de James Gunn: o regresso à esperança
Por outro lado, o Super-Homem de James Gunn regressa às origens da bondade e da ingenuidade como valor e não como falácia da perceção da vida. Este é o tipo de personagem que, tal como a Christopher Reeve diria aos passageiros após salvar resgatá-los de um avião em queda: “Bem, espero que esta experiência não vos tenha tirado a vontade de voar. Estatisticamente, continua a ser a forma mais segura de viajar”. Com uma leveza que nos lembrava que ser herói é também dar segurança — emocional, quase familiar.
Não nos ajuda a levantar à força, nem nos direciona no caminho que ele acha derradeiro ser o correto. Ensina-nos a ter bondade pelos outros, e qualidade no nosso caminho, seja ele qual for.
Um herói mais humano e inspirador
Assim, regressamos a um Super-Homem ingénuo sem ser tolo, bondoso sem ser cego. Isto não retira complexidade nem densidade à personagem. Pode abraçar uma complexidade de contraste com um mundo cínico e falso de outro modo: mostrando que a força também está em confiar, que a luz não precisa de fugir da escuridão, mas enfrentá-la.
O Super-Homem pode ser semideus, mas talvez o que precisamos é que ele seja apenas humano o suficiente para não nos julgar.
A verdadeira força: a esperança
No fundo, talvez o verdadeiro poder do Super-Homem não seja voar, nem ter raios laser de calor a sair dos olhos, mas lembrar-nos que ainda vale a pena acreditar no melhor de nós.
Este problema é mais do que nos “ensinar a levantar” e a caminhar como o pai de Clark Kent lhe disse na versão de Zack Snyder. Aqui é muito mais ensinar-nos a acreditar que conseguimos fazer isso. Ou seja, não precisa de ser uma figura a pairar como câmara de segurança. É uma figura que tem de emanar esperança, é uma figura que tem de emanar paz, é uma figura que tem de emanar bondade pura nos corações de quem vê. O Donner fez isso com os seus filmes. Isto estava presente.
A herança de Donner e Reeve: salvar mas também inspirar
Mas talvez a pergunta mais importante não seja se ele nos salva. É se ele nos inspira.
O verdadeiro poder do Super-Homem não está nos voos nem na força descomunal. Está naquilo que representa. A sua presença deve ser mais do que um escudo — deve ser uma faísca. Ele é aquele que, pela sua simples existência, nos faz acreditar que o bem ainda é possível. Que a paz é alcançável. Que a esperança não é uma fantasia.
É isso que Richard Donner entendeu como ninguém nos seus filmes. Foi isso que a animação dos anos 90 tão bem transmitiu. O Super-Homem de Christopher Reeve, por exemplo, não impunha medo — impunha confiança. Ele salvava-nos e depois tranquilizava-nos com um sorriso.
O seu heroísmo não era ruidoso. Era sereno.
Uma necessidade contemporânea
É essa serenidade que parece faltar no nosso tempo. E talvez por isso muitos sintam falta de um Super-Homem que não precise de se justificar. Que não precise de se martirizar. Que apenas esteja presente. Como farol. Como guia. Como lembrança de que há, sim, uma forma de fazer o bem sem deixar que o mundo nos endureça.
Porque, afinal, o “S” no peito dele não significa “Super-Homem”. Em Krypton, é o símbolo da esperança. E é esse o verdadeiro dom que ele nos traz: não o de carregar o mundo às costas, mas o de nos fazer acreditar que conseguimos carregá-lo juntos.
Precisamos deste Super-Homem
Por isso, porquê é que o mundo precisa do Super-homem? A resposta é simples — não é só o mundo que precisa. Não são apenas os vilões que têm de ser derrotados. Não são só os governos corruptos ou os planos maquiavélicos que precisam de ser travados. É a sociedade que precisa de um Super-Homem. Somos nós.
Precisamos de alguém que nos lembre que “vale a pena” tentar sermos melhores. Que há coragem e força na bondade e empatia, até porque ser bondoso e confiar nas pessoas é o “novo punk rock”, como foi dito, e bem, no último filme.
Nós precisamos do Super-Homem. Precisamos deste Super-Homem. Não por ele nos salvar — mas por nos ensinar a acreditar que conseguimos salvar-nos a nós próprios. Afinal, a esperança veste azul e vermelho.
Olhemos sempre para cima. Look up. E perguntemo-nos “É um pássaro? É um avião? Não, é o Superman!”.




