Sexta-feira, Julho 23, 2021

“Touro como Nós”: Luís M. Vicente afirma que touro sofre na tauromaquia

“Touro como Nós”: Luís M. Vicente afirma que touro sofre na tauromaquia
D.R.

“Touro como Nós” é o nome do livro escrito por Luís M. Vicente e que aborda a questão da tauromaquia, na perspectiva científica de um biólogo.

Biólogo, professor universitário e investigador integrado no Centro de Filosofia das Ciências da Universidade de Lisboa, escreveu este ensaio em coautoria com Ngombe, um touro.

O objectivo é explicar a festa brava de uma perspetiva biológica.

Entende o autor que este livro é uma abordagem “estritamente científica de um tema polémico e fraturante que tem estado na agenda política e sociológica de Portugal nos últimos anos”.

Acrescenta, ainda, “uma discussão sobre sofrimento, a qual é o objetivo deste livro, não pode ser baseada em senso comum, em crenças, em preconceitos religiosos ou em subjetividades. Ela só faz sentido se o seu campo for o campo da ciência”.

O livro chegou às livrarias no dia 13 de maio, com selo da Pergaminho.

A entrevista:

Quando surgiu a ideia para a escrita deste livro e qual o principal objectivo?

Em face dos debates sobre sofrimento animal e tendo-me apercebido de uma falta evidente de bases científicas sólidas, tanto nos argumentos a favor como contra as touradas, julguei importante escrever um livro de biologia que fornecesse sustentabilidade científica a esses debates. O principal objectivo é a partilha de conhecimentos. É o objectivo de sempre de quem faz do ensino e da investigação o seu modo de vida.

A tauromaquia é uma área fraturante, há quem goste e quem não goste. O autor, enquanto cidadão, onde se posiciona?

Do lado da vítima, naturalmente.

Este livro, baseado na parte científica da análise e não na emoção sempre associada à tauromaquia, toma partido de algum dos lados opinativos, seja a favor ou contra?

Trata-se apenas de um longo argumento que sugere que o animal toureado sofre. O meu posicionamento é contra causar sofrimento ao outro, seja ele quem for.

Na tauromaquia diz-se muitas vezes que esta arte salva o touro bravo e a sua existência. Primeiro, questiono se existe ‘touro bravo’ e seguidamente pergunto se a tauromaquia é realmente importante para a salvaguarda desta espécie?

Não se trata, do ponto de vista biológico, de uma espécie. Trata-se de uma linhagem artificialmente seleccionada. O touro pertencente à espécie Bos taurus, existe. São as vacas e os bois que abundam no nosso planeta. A linhagem “touro de lide” não tem qualquer valor conservacionista, em nada contribui para a biodiversidade e assim nada existe para salvaguardar. Se se abandonar a selecção artificial desta linhagem, Bos taurus continuará a existir e é bom que exista livre da tortura.

Há um interesse económico travestido de “salvaguarda da espécie”?

Aparentemente sim, mas a argumentação com base na “salvaguarda da espécie” é falaciosa. O “touro de lide”, por si, não é uma espécie. Pertence à mesma espécie de todos os bovinos que encontramos no nosso país.

Considera a tauromaquia cultura? E sendo cultura, deve ser preservada ou extinta?

Sim, a tauromaquia é cultura. Mas para além da cultura existe a ética que está na base do direito. Diria que a montante de qualquer especificidade cultural existe uma cultura de direitos e o direito à felicidade é universal e sobrepõe-se a qualquer outro. Por isso somos contra a escravatura que também foi cultura, por isso somos contra a mutilação genital que é cultura nalgumas zonas do globo, por isso somos contra qualquer cultura que não obedeça ao primado de uma cultura de direitos, e os bovinos têm direito a ser felizes.

Neste livro refere que os animais, touro em específico, são sencientes, ou seja, que sentem. O touro sofre física e emocionalmente?

Ser senciente é uma condição sem a qual não existiriam animais. É uma questão de sobrevivência, é a base subjectiva da sobrevivência. Mas mesmo que o não fossem, isso não seria o mais importante. O mais importante é saber que eles sofrem e que a tourada lhes provoca sofrimento.

O touro é criado em liberdade e com excelentes condições, defendem os aficionados e criadores da espécie. Qual o seu posicionamento enquanto biólogo?

Dediquei um capítulo apenas a esta questão. Em comparação com os restantes bovinos para uso humano, ou seja, carne, leite e trabalho, o touro de lide tem uma vida mais longa e com um nível de bem-estar superior. Portanto não são “todos os outros”, mas apenas “alguns outros”, os “outros” igualmente criados em cativeiro ou em semi-cativeiro. A anunciada aparente tranquilidade não o é, na prática, a cem por cento. Após o nascimento, os bezerros são identificados com brincos nos primeiros dias de vida. Com 6 a 8 meses são desmamados e, em seguida, é feito o “ferreiro”, no qual são marcados com ferros ao rubro. Para esta operação, o bezerro, depois de separado da mãe, é trancado em currais e mantido numa manga de maneio, o que gera uma situação de stress e dor. Isto não é, propriamente, felicidade.

Neste livro estabelece semelhanças entre o touro e o homem. Que semelhanças são essas e de que forma esta questão não é abordada tantas vezes, aquando dos debates existentes?

Somos todos vertebrados, somos igualmente mamíferos e partilhamos muita da nossa história evolutiva. Somos parentes próximos. Sistemas nervosos idênticos têm sensibilidades idênticas e geram respostas idênticas. Ao nível do sofrimento, quer físico, quer subjectivo, nada sugere que haja diferenças significativas entre os diversos vertebrados, incluindo os humanos.

As touradas, em princípio, deixarão de ter transmissão no canal público. Calculo que apoie a medida…

Na minha perspectiva, o que de mais grave resulta da transmissão pública, é a banalização de uma relação entre humanos e os outros animais que lhes causa sofrimento. Isto resulta numa insensibilização dos mais jovens para que a tortura do outro se torna “normal”. É o mesmo que se passa com os meninos-soldados que em África são arrebanhados para matar pessoas. É o mesmo que se passa com o “bullying” aparentemente em recrudescimento na nossa sociedade. Os praticantes de “bullying” são incapazes de empatizar o sofrimento do outro. Fazer sofrer é inaceitável na nossa cultura de direitos baseada numa ética judaico-cristã. Seja causar sofrimento a um animal, seja causar sofrimento a uma pessoa.

O fim das touradas está próximo? Se sim, refere com esperança ou convicção?

É uma questão ética, uma questão de humanismo e de compaixão. Esperança numa humanidade melhor, mais solidária e mais fraterna com os da mesma espécie e com os das outras espécies é algo que deveria ser transversal a todos nós.

Alguma vez assistiu a corridas de touros? O que sentiu? Como descreve a experiência, enquanto ser humano?

Assisti na minha infância a uma tourada no Campo Pequeno. Não tenho adjectivos à altura. Macabro, tenebroso ou desumano são adjectivos manifestamente insuficientes.

Sobre o autor:

Luís M. Vicente é biólogo, professor universitário e investigador. É licenciado em Biologia pela Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, doutorado em Evolução e Agregado na mesma instituição. Tem lecionado Comportamento Animal, Ecologia, Evolução, Bioética e História do Pensamento Biológico em várias instituições universitárias em Portugal e no estrangeiro. Foi investigador do projeto mundial das Nações Unidas, Millennium Ecosystem Assessment e coordenou o mesmo em Portugal. Sócio fundador da Sociedade Portuguesa de Etologia, e da Associação Portuguesa de Primatologia, é membro da International Primatological Society. No domínio científico tem cerca de uma centena de artigos publicados em revistas internacionais, bem como capítulos de livros de edição mundial sobre Ecologia e Comportamento Animal.

Sinopse do livro:

BRAVOS: assim temos por costume designar os touros. Encarnação da coragem, da bravura, da força. Brava é também a festa desse nome, celebração de cultura ou tradição.

MAS SERÁ MESMO ASSIM? Que bravura tem realmente cada animal – homem e touro – que faz esta dita festa? As tradições profundamente enraizadas, em diversas zonas do nosso país e do sul da Europa, fazem com que seja difícil encarar esta prática com objetividade e distanciamento. Luís Vicente, professor universitário e investigador integrado no Centro de Filosofia das Ciências da Universidade de Lisboa, traz ao debate uma muito necessária perspetiva. Escreve este ensaio em coautoria com Ngombe, um touro, e explica a festa brava de um ponto de vista biológico e cultural. Para o fazer, parte de uma fascinante exposição da consciência animal e da própria constituição daquilo a que chamamos vida, com considerações esclarecedoras mas sempre desafiantes sobre a natureza da senciência, do prazer e da dor, da perceção do mundo e do comportamento animal – tanto humano como não humano. Um ensaio indispensável não só para compreender o que realmente envolve esta tradição, como também para refletir acerca da vida na Terra e dos nossos deveres e direitos enquanto animais autodenominados racionais.

“Touro como Nós”: Luís M. Vicente afirma que touro sofre na tauromaquia
Rui Lavradorhttp://www.infocul.pt
Jornalista e Director Infocul.pt

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