Quinta-feira, Outubro 21, 2021

Última da Feira de Outubro em Vila Franca de Xira: Emoção, Disputa e “O Grupo da Vila”, Xeque mate

Última da Feira de Outubro em Vila Franca de Xira: Emoção, Disputa e “O Grupo da Vila”, Xeque mate

Última da Feira de Outubro em Vila Franca de Xira: Emoção, Disputa e “O Grupo da Vila”, Xeque mate.

Se há noites míticas e castiças por essas praças fora, a terça-feira da feira de outubro é uma delas. A Palha Blanco e as gentes de vila franca de Xira, engalanaram-se, como manda a tradição, para esta noite sempre especial, registando uma grande entrada de público. 

Texto: Francisco Potier Dias
Fotografias: Catarina Pedro

Desta feita, compuseram cartel os cavaleiros João Ribeiro Telles e João Salgueiro, em substituição de Francisco Palha que se lesionou já no decorrer desta feira de Outubro. 
Mas, sem desprimor pelos cavaleiros, o “brilharete” da noite, vai para os Amadores de Vila Franca de Xira, que bateram as palmas a um bem rematado e sério concurso de Ganadarias, composto pelas ganadarias Palha, Prudêncio, Veiga Teixeira, Pinto Barreiros, Passanha e Canas Vigourox, em disputa pelos prémios de bravura e apresentação.

A noite pedia pompa e galhardia e assim começou, com o primeiro da noite da Ganadaria Pinto Barreiros, que tem o efectivo na herdade de Monte Branco, em Arraiolos. Olhando para a ganadaria, sabemos estar diante de um toiro com procedência em Gamero Civico e Félix Suarez, bem como, em José Lacerda Pinto Barreiros, sendo encaste atual Puro Parladé ou, porque é mesmo seu característico e referência, Pinto Barreiros.  

Trouxe hoje à Palha Blanco, em representação da divisa Azul, Encarnada e Branca, um exemplar, com boa cara, mas um tanto ou quanto “escorrido” de carnes, mas de comportamento disponível e aguerrido, vindo constante durante toda a lide, permitindo uma faena de entusiasmo, mas, sem apertos na investida do animal, que apesar do perigo não era “sacana”.

João Ribeiro Telles, a vestir casaca bordeux bordada a ouro, recebeu em sorte gaiola o toiro da ganadaria Pinto Barreiros com 475kg, que veio a apitar, ligando logo o toureiro ao público. 

O toureiro que começou bem, acabou no mesmo plano, procurando reuniões praça a praça, dando vantagem ao toiro para depois reunir com batida ao píton contrário. Conseguiu reuniões mais bem conseguidas que outras e com isso, naturalmente, ferros menos de verdade e de livro que outros. Nota para o primeiro e últimos curtos que foram de boa nota. 

Abriu esta noite dos Forcados de Vila Franca de Xira, o Forcado Ivo Carvalho, que brindou ao Grupo. De frente ao toiro, esteve bem o forcado, a citar calmamente, a aguardar pelo sinal do toiro e a carregar com galhardia, recuando e reunindo de forma exímia, para depois aguentar duas mangadas intensas e terminar a viagem “meio descomposto” entre pitons, mas, com vontade de lá ficar e bem o grupo a acreditar, consumando à primeira tentativa.

Para a lide do segundo da noite, em praça outro toureiro de dinastia, desta feita, João Salgueiro da Costa, vestindo casaca castanha bordada a ouro.

Dar que conta que o cavaleiro vem no seu duplo compromisso, já tendo actuado na praça de Redondo, nesta terça-feira. 

Em sorte, um Veiga Teixeira com 480kg, a ganadaria Veiga Teixeira com solar na herdade de Pedrogão e com uma procedência de Tovar-Suarez, Oliveiras e Alcurrucén, tendo atualmente um encaste mais “alinhado” com as linhas Oliveira e Irmãos e Parladé. É uma ganadaria do “toiro toiro”, levando consigo muita da afición “tourista” e por isso, uma das favoritas do público vila-franquense. 

Apresentou hoje, em representação da divisa Encarnada e Preta, um exemplar negro, curto e baixo, mas muito bem rematado de carnes e com uma cara imponente, que andou constante em toda a lide, mostrando bravura, disponibilidade e nobreza, uma estampa em todos os aspectos. 

Salgueiro da Costa andou voluntarioso e aguerrido nesta sua primeira lide, que de forma digna, brindou a Francisco Palha.  Começando com três compridos de boa nota, aludir apenas ao excesso da necessidade de capote, facto que, prontamente, o público da Palha Blanco não tolerou e castigou com coro de assobios. 

Em curtos e perante este Teixeira que transmitia que se fartava e enchia a praça, soube Salgueiro estar toureiro e aguentar-se com ele, desenhando uma série de curtos de alto a baixo e à tira, maioritariamente com o toiro a arrancar-se de meia praça, mas de valor! 

Nesta que é a sua noite, novamente em praça os amadores da vila, na cara o forcado Rafael Plácido. De fronte ao toiro, fez o necessário o forcado, não tendo tempo para “grandes floreados”, carregou e reuniu quase sem recuar, tendo uma viagem pelo alto, acomodado por, mais uma, grande primeira ajuda e com o grupo a fechar bem! 

Nota para o critério, tanto ou quanto duvidoso do Sr. Diretor de corrida, como pode não haver direito a volta ao ganadeiro neste toiro…?! Incompreensível. 

Momento então, de sair à praça o toiro da ganadaria Prudêncio com 550kg, esta ganadaria que tem solar no Porto Alto, com procedência de José Manuel Andrade e Passanha, vulgo, Murube.  Trouxe hoje, em representação da divisa Verde e Branca, um exemplar, negro comprido e bem-apresentado, com murrilho para dar e vender, de comportamento era díspar da sua apresentação, distraído, a adiantar-se nas reuniões procurando o cavalo “pela certa” e com tiques intensos de mansidão. 

O cavaleiro coruchense, procurou dentro do possível, entender-se e retirar alguma coisa deste seu terceiro, que não foi missão fácil.  Em compridos, foi apertado com o toiro a buscar o cavalo e a adiantar-se nas reuniões, em curtos, ainda conseguiu deixar perfume e cravar dois curtos de estrondo, com reuniões justíssimas. Ainda assim, demorou a entender ou a levar por empreitada, o necessário para o toiro, mas, levou por diante a velha máxima de que “os mansos também se lidam.”

Em praça, o Forcado João Luz, pelos amadores da Vila, brindando ao céu. 

De fronte ao toiro, esteve bem a citar na primeira tentativa, acabando, no entanto, por reunir mal, após uma investida a ensarilhar deste mansarrão. 

Na segunda, esteve novamente bem, já conseguindo agora uma reunião vistosa, mas o forcado da cara e o grupo a não conseguirem conter a investida a derrotar deste Prudêncio. 

Consumaram à terceira, já de ajudas carregadas, não havia outra forma, bem e com honra! 

Abriu a segunda parte do espéculo o toiro da ganadaria Passanha, com divisa Azul e Encarnada e com 545kg. Esta ganadaria tem encaste Murube-Urquijo e solar na Herdade da Pina, em Évora. Apresenta maioritariamente um tipo de toiro com uma pelagem maioritariamente negra, sendo uns com caras menos a “jeito” mais afeiada, sendo este um exemplar, muito bem-apresentado, de cara, diga-se. 

Para caracterizar o tipo de comportamento do toiro Passanha, no qual o desta noite se incluiu, usarei uma expressão do pai do cavaleiro que o teve em sorte, é um toiro “nhoc nhoc”, daqueles que agrada ao toureiro, pelo seu galope cadenciado e controlado e pela sua investida e reunião suave e quase “telecomandadas”, mas que, em noite extrema… quase adormecem o público, não foi o caso, apesar do encaste, trouxe emoção e permitiu toureio. 

Na sua segunda lide da noite, o cavaleiro de Valada, esteve aguerrido e a tourear com afición.  Em compridos andou depressa demais, trazia ganas e vontade, mas, perante o toiro que tinha em praça, não havia necessidade de tourear a 200km/h, ainda assim um comprido de boa nota à tira.  Embalado na velocidade, embarcou em curtos a ir para cima do toiro, com vontade, alarido e ganas, resultou. Salvo excepção para os dois primeiros curtos, que ainda vinha com mudanças a mais, nos restantes levou consigo a Palha Blanco, resultando especialmente bem os últimos três curtos. Ferros esses em que dá vantagens ao toiro, cravando de alto e baixo e com verdade e rematando com bonitas bregas que levam consigo o público. 

Em praça, para a pega deste toiro, o forcado João Matos, uma das pega bombas do grupo da vila, brindou ao presidente de câmara cessante. 

Na sua primeira tentativa, esteve enorme o forcado da cara, a reunir bem e a lutar até mais não na cara do toiro, mas, a não aguentar uma quarta mangada para baixo duríssima.
Na segunda e derradeira tentativa, esteve novamente enorme o forcado da cara, a citar até onde podia, a carregar e a sacar-se do toiro de forma exímia e a reunir bem, aguentando uma viagem dura, com o toiro ainda a tentar despachar todos e mais quem viesse, mas com querer e um grande par de braços, consumou brilhantemente! 

Em praça o toiro da Ganadara Canas vigourox com 515kg, ganadaria com solar na Herdade de Emaús, Vila Franca de Xira  com procedência em de procedência Cabral Ascensão e Duque de Veragu. Trouxe hoje a Vila Franca, em representação da divisa Branca e Amarela, um toiro de pelagem uniforme, negro, com uma cara imponente, larga e um corpo equilibrado e muito bem rematado.

De comportamento, foi disponível, ainda que a vir de mais a menos, fechando-se em tábuas, sem apertar nem dar risco em demasia, mas também sem investidas de emoção, mas, a ser agradável de ver, dentro do “nhoc nhoc”.

João Ribeiro Telles, começou a sua lide, com um toque de classe e aficion, chamando à praça, local onde se brindam as figuras e dedicou esta sua última lide a João Salgueiro Pai, antigo cavaleiro tauromáquico. Lembro que João Salgueiro Pai é precisamente da geração de João Ribeiro Telles Pai e um dos ícones doutros tempos da tauromaquia em Ribatejano. 

De fronte a este seu último a noite, nesta que é uma praça talismã da família Ribeiro Telles, quis o João arrimar-se e não deixar o triunfo por mãos alheias. 

Andou bem em compridos, talvez com reuniões demasiado aceleradas, mas, bem a cravar à tira de verdade. Já em curtos, cravou de verdade, com classe, toureria, rematando com bregas bonitas, tanto pela esquerda como pela direita. 

Nota para os últimos dois ferros com o cavalo Gaiato que foram de muito boa nota. E claro está, o remate de lide, com o já afirmado Ilusionista, onde cravou três curtos, praça a praça, carregando, “à carga”, procurando reunir com batida ao piton contrário, vulgo quiebro, cravando com ele debaixo da casaca e de alto a baixo. 

Devido à velocidade da sorte e da impulsividade e imprevisibilidade da batida ao piton contrário, nem sempre a questão do “debaixo do braço” é uma realidade… Mas, a emoção da batida em terrenos de compromisso e de verdade, bem como, a figura que é o Ilusionista em praça emociona e entusiasma o público. Nota para um aperto que consentiu no segundo curto, que se viu entre tábuas, sem gravidade. 

Para a pega deste quinta da noite o forcado Vasco Pereira, cabo dos amadores da Vila, que brinda ao líder do CDS-PP Dr. Francisco Rodrigues dos Santos.  De frente ao toiro, esteve igual a si próprio, com um cite templado e sereno, convicto, carregando e recuando com o toiro a ensarilhar diante de si, conseguindo uma reunião vistosa, aguentando uma viagem por alto, mas dura até tábuas, com o grupo a dar o peito e a aguentar. 

Para rematar a noite, o sempre afamado toiro da ganadaria Palha. Ganadaria que pasta no concelho vizinho, Porto Alto, na herdade da Adema, tendo procedência em Oliveiras, Vázquez, Torrealta e IbánToiros, sendo muito apreciados pelo público da vila. Apresentou esta noite um exemplar com 505kg, encastado e com toureria, apesar de alguns estranhos nas reuniões e nas bregas, tendo mais de agressividade, génio e aspereza que de nobreza e bravura.

Nesta que era a sua última lide na Palha Blanco, mas, já a quinta do dia, cavaleiro de Valada brindou a lide aos amadores de Vila Franca de Xira. Se na lide anterior já tínhamos visto que vinha com ganas, nesta então, João Salgueiro veio com vontade de levar “no saco” o triunfo. Começou logo recebendo de sorte gaiola este Palha, sorte pouco usual no cavaleiro, com um bonito comprido à tira, mas, no seu sítio, de verdade, bem! Já em curtos, veio em aspirante positiva, colocando bem o toiro, aproveitando as investidas e sabendo medir os terrenos e desenhar sortes ajustadas e que permitiram cravar de verdade e rematar com bregas ajustadas e vistosas. 

Nota para os 2 últimos curtos que colocaram em alvoroço a Palha Blanco, que lide!

Rematou a noite pelos amadores da vila, o forcado, Guilherme Dotti, mais um forcado de geração do mítico “grupo da vila”.  Frente ao toiro, esteve tal qual o fado, “a citar de largo e com graça esse forcado valente”, esteve toureiro, pecando talvez por alegrar em demasia no carregar, abrindo a investida do toiro e acabando por levar com o mau génio deste. Consumou à quarta tentativa, com ajudas carregadas, depois de nas três primeiras, mesmo havendo braços, vontade e grupo, o mau génio, o poder e a intensidade deste palha não permitiram outro desfecho.

Como anunciei no início, estavam em jogo os prémios de apresentação e bravura, neste concurso de ganadarias, sendo ambos entregues ao último toiro da noite da ganadaria Palha, decisão da bravura contestada nas bancadas, contestação à qual dou toda a razão, mau génio e agressividade, não são necessariamente bravura.

Assim termina, mais uma feira de Outubro, com um Mano a Mano de competição, com o público a assistir a um bom espetáculo Tauromáquico, por vezes o inesperado revela-se o mais interessante. 

Deixar uma ultima nota, os meus parabéns a toda a empresa da Tauroleve, pela ousadia de levar por diante uma feira, quer se discorde ou desgoste de um ou outro cartel, com tantos espetáculos, foram dignos da nossa festa, do respeito dos aficionados e sobretudo, da casa cheia que tiveram hoje!

Termino, citando um excerto de um poema sobre Vila Franca e as suas gentes, e que, nos explica que esta noite, foi muito mais, que um concurso de ganadarias, ou, um mano a mano, foi  a terça-feira de outubro do Grupo Forcados Amadores de Vila Franca.  

E se uma pega é valente
Ninguém da praça os arranca
Vibra a gente entusiasmada
Numa tourada em Vila Franca”
 
João Nobre, em Fado de Vila Franca  

Artigos Relacionados

Siga-nos nas redes sociais

23,900FãsCurtir
154SeguidoresSeguir
114InscritosInscrever