Um Terceirense em Las Ventas, um coração entregue à Arte

Um Terceirense em Las Ventas, um coração entregue à Arte, no passado dia 21 de Julho.

Um Terceirense em Las Ventas, um coração entregue à Arte

Artigo de Opinião: Rui Lavrador
Fotografias: Rute Nunes e Carlos Pedroso

Às vezes é no meio de tanta gente
Que descubro afinal p’ra onde vou
E esta pedra
E este grito
São a história d’aquilo que sou

Às vezes sou o tempo que tarda em passar
E aquilo em que ninguém quer acreditar

(Excerto de ‘Silêncio e Tanta Gente’, interpretado por Maria Guinot)

No passado dia 21 de Julho, o relógio apontava 21:00 em Madrid, quando João Pedro Pacheco Silva, bandarilheiro português conhecido como ‘Açoriano’, concretizou um dos seus objectivos profissionais: actuar na Praça de Touros de Las Ventas.

Prestes a cumprir 15 anos de alternativa, em 2023, tinha atrás de si muitas horas de trabalho, de aperfeiçoamento teórico e prático, que o têm levado a um nível de exigência que só os que se entregam verdadeiramente a uma Arte gostam de absorver.

Foi na Terceira, freguesia de Terra Chã, a 10 de Outubro de 1986 que nasceu. E é a Terceira, as suas gentes e a sua alma que carrega no coração em cada actuação. Ciente que mais importante de para onde quer ir, é nunca esquecer de onde veio. E esse tem sido, muito provavelmente, o seu maior segredo e lhe tem permitido atingir objectivos.

Nunca nada está ganho, nunca nada está garantido e todos os dias são importantes para melhorar e mostrar o valor. E se o valor artístico já todos, ou pelo menos aqueles que são sensíveis à Arte e não ao alarido dos egos vazios, reconhecem, é importante destacar, até para memória futura, os valores éticos e morais que ele pratica, sem nunca ter a necessidade deles falar.

Um percurso em que teve de lutar muito, por vezes até o triplo de alguns dos seus pares, estando ciente de que quando se entrega a alma e o coração ao que se faz, haverá o dia em que as pessoas entenderão a essência.

Confesso que o meu lado tradicional por vezes vai em contracorrente com a maioria das pessoas. É uma opção minha, assumida em pleno. Não me fecho intelectualmente em gavetas de só gostar do estilo A ou do estilo B, independentemente da área artística. Mas assumo que valorizo superiormente os que continuam a lutar a esforçar-se para perpetuar a pureza da tradição. Ele pratica-a de forma natural, porque assim a sente. Porque procura, porque questiona, porque quer sempre saber mais. Acresce a isso, uma cultura geral muito acima da média daquilo que encontramos na maioria dos intervenientes nesta área cultural.

E são estas duas situações, o conhecimento da história na área que actua, associada a uma cultura geral elevada que lhe permitem aportar algumas particularidades que o tornam num caso raro. Não sei qual será o seu limite evolutivo, mas sei que apesar de muito bom actualmente, irá ser ainda melhor futuramente.

Porque até ao último dia em que se trajar e enfrentar um touro bravo, vai sempre querer evoluir. E isso apenas os seres muito grandes de alma e espírito conseguem: Evoluir até ao último dia em que entregam a sua vida à Arte.

Portugal tem sorte em tê-lo, deve valorizá-lo e cuidar dele. Sabendo que será sempre na Terceira, junto dos seus que o seu coração está completo. Porque é o amor dos seus e o amor que tem à terra que o viu nascer que o alimenta todos os dias e o torna num artista único.

Las Ventas não foi o topo do caminho. Foi apenas uma recompensa, entre muitas outras que virão certamente, pela sua entrega à Arte.

Nota final: João Pedro Silva tirou a sua alternativa de bandarilheiro na Praça de Touros da Ilha Terceira, a 28 de Junho de 2008, tendo como padrinho Rogério Silva.

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