Vítor Besugo destaca: “Sabores no Barro já se afirmam não só aqui no nosso concelho, mas já também em toda a região”, disse.
Texto: Rui Lavrador
Fotografias: André Nunes
Um evento que cresce sem perder a alma
Logo à chegada a Beringel, percebe-se que o Sabores no Barro já não é apenas um evento local. Há uma energia diferente no ar. Um pulsar coletivo que ultrapassa fronteiras.
De facto, essa dimensão é assumida sem hesitação por Vítor Besugo, presidente da Junta de Freguesia de Beringel.
“Portanto, as expectativas são altas porque, felizmente, os Sabores no Barro já se afirmam não só aqui no nosso concelho, mas já também em toda a região.”
Ainda assim, este crescimento não aconteceu por acaso. Foi sendo construído, edição após edição, com consistência e identidade.
“E depois temos a sorte também de ter já um conjunto de órgãos de comunicação social, como é o caso da Infocul, que nos ajudam a promover o evento além da nossa região.”
Por conseguinte, Beringel deixou de ser apenas palco. Passou a ser destino.
Um cartaz pensado para emocionar e surpreender
Entretanto, a programação deste ano revela uma ambição clara. Não apenas trazer nomes fortes, mas criar uma narrativa ao longo dos dias.
Desde logo, a abertura com António Caixeiro e os Bafos de Baco marcou o tom. Porém, o alinhamento vai muito além desse primeiro impacto.
“E as expectativas são muito grandes porque o programa está aliciante, desde começando com o embaixador António Caixeiro, com os Rumo ao Sul, que vêm de Elvas de propósito a participar na festa, e também aqui pelos vizinhos da Cuba, que são a Casa da Joana.”
Além disso, o evento aposta numa continuidade que mistura tradição e novidade.
“Depois também para dizer que nos restantes dias iremos ter o Canta Alentejano puro, aqui na Embaixada do Cante.”
Por outro lado, há espaço para mostrar o que se faz dentro da própria terra.
“Vamos ter os Alma Sul, que é um grupo tradicional de música alentejana aqui de Beringel, com dois discos lançados e que vai aqui apresentar as músicas do terceiro álbum.”
E, como se o Alentejo se abrisse ao mundo, surgem também outras influências.
“E para além disso temos os Sonido Andaluz, ainda, no sábado, com o embaixador Antelmo Serrado, que tem um cartaz muito grande em Beringel”.
Finalmente, o domingo promete fechar em intensidade.
“Domingo teremos novamente o Cante Alentejano com os pequenos cantadores de Ourique… e ainda os Vozes Ibéricas, um grupo que está a surgir com muitas visualizações nas redes sociais.”

Onde nascem os nomes que depois conquistam o país
Contudo, há algo que distingue verdadeiramente o Sabores no Barro. Aqui, não se limita a receber talento. Aqui, cria-se percurso.
Essa ideia surge de forma clara nas palavras de Vítor Besugo.
“Isto é o sinal que os Sabores no Barro são a rampa de lançamentos para muitos grupos.”
E não se trata de exagero. Os exemplos são concretos.
“Como não só para o Bubba, para os Descendentes, mas também Bandidos do Cante, Luís Trigacheiro, que começou aqui.”
Aliás, o caso dos Descendentes ilustra bem essa dinâmica.
“Há um ano vieram a Beringel… estavam a dar os primeiros passos… e passado três meses estavam na Rádio Comercial e estão a assinar pela Universal.”
Portanto, este palco tem algo raro. Dá visibilidade. Mas também dá impulso.
“Ou seja, é algo que a nós nos orgulha.”
E mais do que lançar artistas, cria-se uma rede de afetos.
“É saber manter essa amizade. Que eles regressem todos os anos, que tragam mais amigos.”
Entre a emoção e a responsabilidade: o lado pessoal do presidente
Porém, esta edição traz um elemento ainda mais íntimo. O filho de Vítor Besugo sobe ao palco, integrado no grupo Vozes Ibéricas.
E, de repente, o discurso deixa de ser apenas institucional.
“É um orgulho muito grande para mim.”
Ainda assim, há uma linha clara que não se cruza.
“Mas também tenho que saber separar as coisas.”
Porque o caminho faz-se com etapas.
“Ainda vão ficar na Tenda dos Sabores para fazer o percurso… um dia chegarão aqui à Embaixada.”
Aliás, essa lógica de crescimento é quase simbólica.
“Eles começam na Tenda e acabam na Embaixada porque é o natural.”
E mesmo com números impressionantes nas redes sociais, a preocupação mantém-se.
“O que é certo é que têm 15 mil seguidores… 800 mil views… Isto assusta-me um pouco porque eu quero é que eles estudem.”
Manter os melhores, abrir portas ao futuro
Entretanto, há quem critique a repetição de nomes. Mas a resposta é direta e sem rodeios.
“Nós temos os melhores e se temos os melhores não os vamos trocar.”
Ainda assim, existe espaço para renovação.
“Vamos alterando pouca coisa… colocando grupos que estão a aparecer.”
Ou seja, o equilíbrio constrói-se com critério.
“Dando oportunidade a outros de aparecerem.”
O cante entre tradição e reinvenção
Por outro lado, a questão da evolução do cante surge inevitavelmente. E a resposta não foge à complexidade.
“O cante é de quem o canta… e de quem o ouve.”
Há uma base que não se perde. Mas há caminhos que se abrem.
“Há o cante tradicional… mas também há outras variações.”
E essa transformação não é vista como ameaça.
“Para mim é um orgulho.”
Aliás, o impacto já é visível.
“Agora começam a ver o Alentejo a ganhar um festival da canção… nas rádios nacionais todas.”
Mesmo que isso provoque desconforto em alguns, o sentimento é outro.
“Isso pode incomodar muita gente, mas a nós dá-nos orgulho.”
O barro como identidade e futuro
Por fim, há uma ideia que atravessa tudo. O Sabores no Barro não é apenas um evento. É uma estratégia cultural.
“O que estamos a fazer no barro não é só esta festa… é preservar uma identidade.”
E essa preservação tem efeitos concretos.
“Desenvolve a economia… há pessoas que veem a Beringel para ver o barro.”
Além disso, há mudanças visíveis no território.
“O mestre oleiro começou a assinar as suas talhas… agora é uma marca conhecida.”
E novos ciclos começam a nascer.
“Sabemos que há aprendizes a aprender, isso é muito importante.”
No fundo, o barro transforma-se em motor.
“O barro só pode ser positivo.”
Beringel: onde o futuro se constrói com raízes
Assim, o Sabores no Barro afirma-se como muito mais do que um evento/festival. É um lugar onde o passado se honra e o futuro se constrói.
Entre o cante e o silêncio. Entre a mesa e o palco. Beringel continua a provar que há territórios que não se explicam. Sentem-se.




