Fernando Póvoas conduziu quando teve os primeiros sintomas de ataque de miocárdio e pede desculpa: “É de uma negligência que me envergonha”, referiu.

Fernando Póvoas teve um enfarte do miocárdio há cerca de um mês e esteve ontem no programa Júlia, da SIC, para uma conversa com Júlia Pinheiro.
A 13 de maio, o médico acordou com uma forte dor no peito, que lhe deu também “peso nos dois braços”.
Tentou encontrar aspirinas, que evitam criação de coágulos, mas não foi bem sucedido, algo que o deixou irritado.
“Pensei duas vezes… o meu pai morreu de enfarte e morreu de enfarte porque ficou à minha espera e uma hora e meia depois. Não vou esperar por ninguém. Deixei um papel a dizer: ‘Fui para o hospital’. Meti-me no carro e fui a tossir e a respirar fundo pelo caminho a pensar: ‘O que é que me vai acontecer’”, disse Fernando Póvoas.
Cerca de 10 minutos depois, estava no Hospital de São João, no Porto, e parou “a 50 metros da porta de urgência”, sob o olhar dos seguranças: “Pensaram que eu ia trabalhar”.
“Como pessoa, não se deve fazer; como médico, é muito mais grave, porque sabe que não deve fazer. É de uma negligência que me envergonha perante si, perante o povo português, mas que é importante dizer que eu portei-me mal”, destacou.
“Nunca ninguém com um enfarte deve conduzir, porque a paragem cardíaca ou fibrilação auricular é uma das situações mais comuns que pode acontecer. E eu pensei nisso. Eu ia a uma velocidade moderada, mas nada justifica”, acrescentou.
“Sabia que tinha de ser rápido. De certa maneira, estava a ser egoísta, porque podia acontecer-me de ter uma paragem cardíaca, bater em qualquer lado… se morria, a culpa foi minha porque eu é que fiz para isso; agora, podia matar alguém e, aí, eu não posso ser tão egoísta. Não pensei nisso nessa altura”, continuou.
Disse que “a primeira coisa que se deve fazer é chamar o INEM, porque eles têm medicamentos próprios para pôr de urgência”: “Mas eu fiquei na dúvida entre eles encontrarem a minha casa, chegarem aqui”.
“Mas, mesmo assim, nada justifica”, reforçou.
“Fui um bocadinho egoísta, que é uma coisa que me incomoda”, revelou.
“Não quis acordar ninguém porque tinha de conversar, tinha de explicar o que tinha… não havia tempo! O facto é que, uma hora e um quarto depois de ter estado no hospital, estava no bloco operatório a fazer o cateterismo”, informou.
“Às vezes, dizemos mal do Serviço Nacional de Saúde e, se não estivesse no Serviço Nacional de Saúde, não estava cá a falar consigo. Das coisas que mais me fez sentir e que mais me faz vir as lágrimas aos olhos é a maneira como tratam as pessoas… tratavam toda a gente com um carinho… independentemente da sua condição social, eram todos iguais. Acho que a gente tem de ter mais respeito, nós e o Estado, porque eles ganham tão pouco para o muito que fazem”, elogiou.
O médico contou que teve uma obstrução na artéria coronária de 95%: “Foi mesmo na hora certa… 100% era morte súbita”.
Contou que depois do incidente mudou alguns hábitos, mas não se sente “o Póvoas”.
Agora, faz “mais exercício” e come menos doces: “Nunca resisti tanto na minha vida”.
“Eu sei que estou a trabalhar demais e preciso de trabalhar menos”. P
Porém, de forma a conseguir cumprir isso, disse estar com um dilema que lhe causa “alguma ansiedade”.
“Tenho as consultas todas marcadas até início de outubro. E tenho 28/30 consultas por dia. Agora, vou dizer às pessoas que só 50% é que vou ver? Vou escolher: A Júlia vejo, não vejo o Manuel… Vou escolher agora as pessoas, que sempre foram tão queridas comigo, escolher A ou B e não vou ver outro? O outro vai para um colega meu?”, questionou Fernando Póvoas.
“Não vai ser fácil! É esse o meu grande problema a partir de hoje. É escolher dentro dos que estão marcados. (…) Digam-me qual é a justiça disso? Como é que eu vou gerir isto? E isso cria-me stress e ansiedade… é injustiça e ingratidão”, assumiu.
“Fazer escolhas? Isso é que me custa. Como é que eu vou fazer de maneira a que seja elegante com aqueles que sempre foram gratos comigo? Como é que eu vou escolher? Eles vão estar lá na clínica e vão saber que eu não vou vê-los”, continuou, referindo tratar-se de “ética e respeito” pelas pessoas que o procuram.
“Tudo o que tenho devo a eles. Agora, vou ver só 50%, os outros não quero, não preciso deles… Não é verdade”, afirmou Fernando Póvoas.
Explicou que ia deixar a decisão com as suas rececionistas, que “são brilhantes e têm boa capacidade de argumentação”.
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