Cristiano Ronaldo: o legado é eterno, mas a saída começa a ficar feia

Cristiano Ronaldo: o legado é eterno, mas a saída começa a ficar feia, devido a um incontrolável ego.

Nunca pensei que, nesta fase da carreira de Cristiano Ronaldo, ainda estivéssemos a discutir se ele aceita ou não ficar no banco da Seleção Nacional. E não digo isto porque ache que um jogador deve gostar de ser suplente, muito menos alguém que construiu toda uma carreira à base de uma competitividade quase obsessiva, mas porque aos 41 anos, depois de tudo o que conquistou, de todos os recordes, de todas as noites em que carregou Portugal às costas e de tudo aquilo que representa para o futebol português, esperava que a discussão fosse outra. Esperava que estivéssemos a falar da forma como queria sair, do momento escolhido para o fazer, da homenagem que merecia e da última noite de uma carreira internacional que ninguém voltará a repetir tão cedo. Em vez disso, estamos novamente a falar de uma decisão de um treinador, de uma reação de Cristiano Ronaldo e de um problema que, com outros nomes e noutros contextos, já vimos demasiadas vezes.

Cristiano ficou no banco diante da Noruega, aqueceu e acabou por não entrar. Jorge Jesus tinha pensado utilizá-lo, o jogo tomou outro rumo, Gonçalo Ramos estava bem e marcou, Portugal ganhou. Até aqui, absolutamente nada de extraordinário. O extraordinário veio depois, quando Ronaldo abandonou rapidamente o relvado, não acompanhou da mesma forma o momento final com os restantes companheiros, deixou de trabalhar normalmente com o grupo e acabou por sair do estágio em Copenhaga, deixando nas redes sociais uma frase que transformou um episódio desportivo numa novela nacional.

“A seu tempo, direi a verdade a todos os Portugueses sobre as razões que motivaram a minha saída da equipa nacional, à qual sempre me dediquei.”

Pode haver mais para saber, naturalmente. Não sabemos tudo o que foi dito dentro do balneário, não sabemos tudo o que se passou entre Cristiano, Jorge Jesus e a Federação e não me interessa inventar conversas para tornar este texto mais forte. Nem precisa. Aquilo que sabemos chega para discutir a questão principal, que não é se Cristiano tinha ou não motivos para ficar desagradado, mas a forma como reage, demasiadas vezes, quando deixa de ter aquilo que entende que devia ter.

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E é aí que começo a ter dificuldade em compreender este final.

Jorge Jesus abriu a porta, mas não devia ser preciso abri-la tantas vezes

Ontem, Jorge Jesus fez aquilo que provavelmente tinha de fazer. Baixou o tom, afastou a ideia de qualquer guerra irreversível e voltou a colocar a possibilidade de Cristiano Ronaldo regressar à Seleção. À RTP, falou num “mal-entendido” e disse claramente que não guarda qualquer ressentimento.

“Não sei o que vai acontecer. Por mim, está tudo em aberto. O Cris é que tem de decidir a vida dele. Na próxima convocatória, se o Cris estiver a jogar e quiser estar na Seleção, porque não? Ressentimento? Nada, foi um mal-entendido. Na minha opinião é fácil resolver.”

À Sport TV voltou ao assunto e procurou retirar dimensão ao caso.

“Não falei com ele. Foi um caso mal resolvido, não teve caso. Criou-se uma coisa de nada, um problema que deu o que deu.”

Jesus disse ainda algo que, para mim, explica exatamente aquilo que devia ser o papel de Cristiano nesta fase. Recordou a conversa que teve com ele quando chegou ao cargo e revelou o que lhe disse:

“Preciso de ti, preciso que estejas perto de mim, a jogar ou não jogando, preciso de ti.”

Está tudo naquela frase.

A jogar ou não jogando.

Cristiano Ronaldo pode continuar a ser importante sem ser titular em todos os jogos, pode continuar a ser uma referência sem jogar noventa minutos, pode ajudar uma geração que cresceu a idolatrá-lo sem precisar de transformar cada decisão que não lhe agrada numa questão de estatuto. Aos 41 anos, isto deveria ser perfeitamente normal, até porque ninguém está a pedir a Cristiano que deixe de competir ou que aceite um lugar meramente decorativo, está apenas a pedir-lhe aquilo que se pede a todos os outros: que aceite as decisões de quem treina.

E aqui tenho alguma dificuldade com outra frase de Jorge Jesus, quando disse: “Eu não mando. Faço parte de um todo.”

Percebo a ideia, existe uma Federação, existe um presidente, existe uma estrutura e uma Seleção não é propriedade do selecionador, mas dentro da equipa quem decide quem joga tem de ser o selecionador. Não pode haver outro caminho. Cristiano pode decidir se quer continuar disponível, se quer continuar a representar Portugal, se entende que o corpo e a cabeça ainda lhe permitem estar ao mais alto nível. O que não pode decidir é se entra aos 60 minutos, aos 75 ou se não entra de todo.

Isso é futebol.

E foi sempre assim, mesmo quando Cristiano era o melhor jogador do mundo.

O problema é que já vimos este filme muitas vezes

Também não quero entrar naquela moda fácil de pegar em episódios de vinte anos de carreira e transformá-los todos numa espécie de cadastro emocional de Ronaldo, porque seria profundamente injusto. Cristiano teve uma carreira gigantesca, foi profissional como poucos, trabalhou mais do que quase todos, manteve-se no topo durante um período que parecia impossível e muita daquilo que hoje lhe apontamos como ego exagerado foi, durante anos, uma das razões pelas quais chegou onde chegou.

O ego também construiu Cristiano Ronaldo.

A obsessão em ser o melhor também.

A incapacidade de aceitar a derrota também.

O problema é quando aquilo que durante anos foi combustível começa a tornar-se peso.

No Mundial de 2010, Portugal foi eliminado por Espanha e Ronaldo saiu com o conhecido “Perguntem ao Queiroz”. Depois explicou a frase e procurou retirar-lhe o sentido de crítica direta ao selecionador, mas ela existiu e marcou aquele momento.

Com Paulo Bento houve também ruído no Euro 2012, sobretudo depois da derrota frente à Alemanha, quando Cristiano abandonou rapidamente o relvado enquanto vários companheiros foram agradecer aos adeptos. Na altura falou-se de um desentendimento entre os dois, algo que Paulo Bento negou, e faço questão de o sublinhar porque não vale a pena transformar rumores em factos só porque nos ajudam a construir uma narrativa. Ainda assim, a reação de Ronaldo voltou a estar no centro da discussão.

Em 2013, com José Mourinho, já não estamos no campo dos rumores. Houve uma discussão no Real Madrid depois de Mourinho fazer uma crítica tática a Cristiano, crítica que o jogador não recebeu bem, e mais tarde o treinador português explicou publicamente o episódio, deixando uma frase que ficou célebre:

“Talvez Cristiano pense que sabe tudo.”

Mourinho também nunca foi propriamente um treinador conhecido por passar pelos clubes sem conflitos e ninguém precisa de o transformar num santo para contar esta história. A questão é outra: mais uma vez, quando surgiu uma crítica ou uma decisão que Cristiano não apreciou, a reação foi maior do que seria desejável.

Em 2016 tivemos o famoso episódio com a CMTV, quando Ronaldo pegou no microfone de um jornalista e o atirou para a água durante um passeio da Seleção. Existia na altura um conflito público com o canal, isso é verdade, mas nunca consegui perceber a necessidade do gesto. Ignorar a pergunta seria suficiente, continuar a caminhar também, dizer que não queria falar igualmente. Atirar o instrumento de trabalho de alguém para um lago foi simplesmente desnecessário.

A vida, entretanto, tratou de oferecer uma ironia que ninguém conseguiria escrever melhor. Cristiano Ronaldo é hoje acionista da Medialivre, grupo proprietário precisamente da CMTV, para além do Correio da Manhã, Record, NOW, Sábado e Jornal de Negócios, e numa visita às instalações do grupo chegou mesmo a referir-se ao espaço como “a nossa casa”.

Mudam-se os tempos, mudam-se as relações e ainda bem.

Talvez seja exatamente essa capacidade de adaptação que agora falta transportar para dentro do campo.

Nem quando tem razão consegue sempre parar a tempo

Há um episódio que, para mim, explica muito bem aquilo que quero dizer sem precisar de pintar Cristiano como alguém que está sempre errado.

Sérvia, 2021. Portugal marca nos últimos instantes, a bola ultrapassa claramente a linha de baliza e o golo não é validado. Foi um erro enorme e Ronaldo tinha toda a razão para estar revoltado, até porque aquilo podia ter consequências importantes no apuramento.

A questão não está na revolta.

Está no que fez com ela.

Cristiano saiu do relvado e atirou a braçadeira de capitão ao chão. Sempre me fez impressão aquela imagem, porque uma coisa é o jogador estar furioso com uma decisão de arbitragem, outra é a forma como um capitão reage quando sente que foi injustiçado. A braçadeira que tinha no braço não era um acessório de Cristiano Ronaldo, era a braçadeira da Seleção Portuguesa.

É um símbolo? Claro que é.

O futebol vive de símbolos.

E aquele não foi bonito.

Pouco depois, no Manchester United, vimos um problema ainda mais difícil de relativizar. Erik ten Hag quis colocá-lo em campo diante do Tottenham e Ronaldo recusou entrar, abandonando depois o estádio antes do final do encontro. O treinador confirmou a recusa e Cristiano foi afastado temporariamente da equipa.

Depois veio a entrevista a Piers Morgan e uma rutura total com o clube.

“Não tenho respeito por ele porque ele não mostra respeito por mim.”

Poucas semanas mais tarde, estava terminado o regresso ao Manchester United.

Pensemos no contraste. Ronaldo tinha regressado a Old Trafford recebido como um herói, com um estádio inteiro rendido ao filho que voltava a casa, e pouco mais de um ano depois saía em guerra com o treinador e com o clube. Podemos discutir Ten Hag, claro que podemos, e seguramente houve erros do outro lado, mas recusar entrar num jogo porque não se concorda com a decisão do treinador não cabe em nenhuma ideia séria de profissionalismo.

Nesse mesmo ano, no Mundial, Fernando Santos também chegou ao limite. Cristiano não gostou de ser substituído frente à Coreia do Sul, reagiu, o selecionador viu posteriormente as imagens e foi muito claro:

“Se gostei? Nada. Não gostei mesmo nada.”

No jogo seguinte, Ronaldo ficou no banco diante da Suíça. Portugal ganhou 6-1 e Gonçalo Ramos, precisamente o homem que entrou no onze no seu lugar, marcou três golos.

Agora, quatro anos depois, voltamos a encontrar Gonçalo Ramos no meio da mesma discussão. Jorge Jesus escolheu-o, Gonçalo marcou, Ronaldo não entrou e o problema voltou.

Pode ser coincidência.

O que já começa a ser difícil chamar coincidência é a quantidade de vezes em que mudam os treinadores, mudam os clubes, mudam os contextos e Cristiano Ronaldo volta a estar no centro de um conflito relacionado com o seu papel.

O legado não está em causa, precisamente por isso tudo isto é tão desnecessário

Há uma coisa que me irrita particularmente nesta discussão: a ideia de que criticar Cristiano Ronaldo equivale a diminuir aquilo que fez por Portugal.

Não equivale.

Cristiano Ronaldo é, para mim, o maior jogador português de sempre. O que fez não tem paralelo, os números são absurdos, a longevidade ainda mais, e tivemos o privilégio de acompanhar uma carreira que atravessou gerações e colocou Portugal num patamar mediático que antes parecia impossível.

Ganhou o Europeu, venceu Ligas das Nações, bateu recordes de internacionalizações e golos, passou por Manchester, Madrid, Turim e voltou a Manchester, ganhou cinco Bolas de Ouro e construiu uma carreira que nenhum texto crítico escrito em outubro de 2026 consegue apagar.

Nem quero.

O que me custa é precisamente saber que alguém com um legado destes podia estar a preparar uma saída enorme e está, em vez disso, a deixar que os últimos capítulos sejam escritos entre bancos de suplentes, saídas antecipadas, declarações enigmáticas e reuniões para resolver problemas que nem sequer deviam existir.

Portugal ganhou sem Ronaldo.

Voltou a ganhar sem Ronaldo.

Isto não significa que seja automaticamente melhor sem ele, seria uma conclusão preguiçosa. Significa apenas que a Seleção continuou, como teria sempre de continuar.

Cristiano Ronaldo é parte da história de Portugal, provavelmente a maior figura que alguma vez vestiu aquela camisola, mas não é a própria Seleção.

Pedro Proença disse que Cristiano “faz parte do nosso património” e a frase está certa. Faz parte, e fará sempre.

Mas património não é sinónimo de titularidade eterna.

Cristiano poderia ter escolhido uma despedida preparada ao detalhe, um estádio cheio, antigos companheiros, família nas bancadas, crianças com a camisola 7, uma Federação a homenageá-lo e milhares de pessoas a agradecer-lhe aquilo que fez. Mesmo quem passou vinte anos a discutir se Messi era melhor teria de reconhecer a dimensão daquele momento.

Ainda pode acontecer.

Mas começa a ser tarde para perceber que sair em grande não significa jogar até ao dia em que já ninguém sabe como lhe dizer que vai ficar no banco.

Talvez Jorge Jesus tenha razão e tudo isto seja apenas um “mal-entendido”.

Gostava que fosse.

Só que, depois de Queiroz, Paulo Bento, Mourinho, Ten Hag, Fernando Santos e agora Jorge Jesus, já não consigo olhar para cada episódio como se não existisse o anterior.

O denominador comum está à vista.

Cristiano Ronaldo construiu parte da sua grandeza porque nunca aceitou ser menos do que aquilo que imaginava poder ser. Só que o tempo não negoceia com ninguém, nem sequer com Cristiano Ronaldo, e talvez a última grande demonstração de inteligência competitiva da sua carreira seja perceber isso antes que um final que podia ser bonito se transforme apenas numa longa resistência à evidência.

O legado está garantido.

A saída é que ainda está por escrever.

E essa, ao contrário dos recordes, depende apenas dele.

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