Rita Ferro Rodrigues divide o Passadeira Vermelha e provoca confronto entre Liliana Campos e Joana Latino, ontem.
O pedido de ajuda de Rita Ferro Rodrigues a António Lacerda Sales, quando a amiga Irina Fernandes estava em fase terminal, dividiu o painel do “Passadeira Vermelha”. Na SIC Caras, o debate passou da discussão sobre o acesso aos cuidados de saúde para um confronto direto entre Liliana Campos e Joana Latino.
A apresentadora defendeu que a situação deveria ser analisada à luz do sofrimento da doente e da família. A jornalista insistiu que o recurso a contactos políticos coloca em causa a igualdade entre utentes.
Filipa Torrinha e David Motta também se pronunciaram em defesa da iniciativa de Rita Ferro Rodrigues. Fora do estúdio, Jéssica Athayde manifestou solidariedade com a antiga apresentadora.
Um pedido de ajuda numa situação terminal
O episódio remonta a julho de 2022. Segundo o relato que esteve em discussão, Irina Fernandes encontrava-se no Hospital de Santa Maria, com doença oncológica em fase terminal, quando o marido foi informado de que teria de regressar a casa por falta de camas.
Rita Ferro Rodrigues contactou então, por WhatsApp, o secretário de Estado da Saúde, António Lacerda Sales. A amiga acabaria por ser transferida para o IPO de Lisboa, onde morreu.
As mensagens vieram a público no contexto da investigação ao caso das gémeas luso-brasileiras. Rita Ferro Rodrigues apresentou entretanto um esclarecimento, enquadrando a sua intervenção como uma denúncia da situação em que a amiga se encontrava.
Foi sobre a legitimidade desse contacto, e sobre as suas implicações, que os intervenientes do “Passadeira Vermelha” divergiram.
Liliana Campos recorda a doença da mãe
Liliana Campos trouxe para o debate a experiência que viveu com a mãe, sublinhando as dificuldades sentidas no acesso a cuidados paliativos.
“Eu por mim falo que, quando tive a minha mãe muito mal, precisava que ela entrasse com os cuidados paliativos e não tive ninguém que me ajudasse”, afirmou.
A apresentadora citou também um estudo, sem identificar a sua origem na intervenção reproduzida, para defender que o recurso a contactos pessoais é uma realidade frequente.
“Em Portugal foi feito um estudo e 76% das pessoas recorre a cunhas dentro daquilo que é o Serviço Nacional de Saúde porque infelizmente não funciona”, declarou.
Na sua análise, as dificuldades dos serviços tenderão a agravar-se: “Se achas que em 2026 isto acontece, lamento informar-te que vai ser bem pior porque nós estamos a estourar por todos os lados.”
Liliana Campos contestou ainda a ideia de que Irina Fernandes tivesse retirado o lugar a outra pessoa, lembrando que a transferência para o IPO foi conduzida pela equipa médica.
“Criticar uma pessoa que pediu ajuda (…) acho que temos que ser humanos e perceber o que é que aquela pessoa estava a viver às portas da morte e a ter que ir para casa sem ter condições para ser tratada em casa”, defendeu.
A apresentadora assumiu que, nas mesmas circunstâncias, teria procurado apoio: “Eu, se tivesse alguém, também tinha pedido. Infelizmente não tinha ninguém. E esta é a minha opinião, que eu também posso ter neste programa.”
Joana Latino questiona a desigualdade no acesso
Joana Latino colocou o foco nas consequências do recurso a contactos junto do poder político, defendendo que a urgência de um caso não pode afastar as regras aplicáveis aos restantes doentes.
“O problema aqui não é uma questão moral, é uma questão legal e ética”, afirmou, acrescentando que “não pode haver dois pesos e duas medidas a tratar doentes do SNS”.
A comentadora sustentou que a pressão exercida em benefício de uma pessoa pode prejudicar outra que também aguarda resposta.
“Ao fazer essa pressão a favor de uma pessoa, há outra necessariamente que fica na mesma situação”, argumentou. Mais adiante, reforçou: “A lei é dura, mas é lei. (…) Se a cama não existia inicialmente e passou a existir, quer dizer que alguém perdeu a cama para outra pessoa.”
Estas foram as conclusões defendidas pela jornalista em estúdio, em oposição à interpretação apresentada por Liliana Campos.
Referindo-se ao antigo governante, Joana Latino afirmou que “recebeu sempre uma série de telefonemas em relação aos vários casos para passar pessoas à frente” e acrescentou: “Contorna-se a lei, prejudica-se outra pessoa, prejudicam-se outras famílias (…) porque aquele caso vem com a nota celebridade.”
A jornalista considerou ainda que Rita Ferro Rodrigues “desaproveitou uma oportunidade” para centrar a discussão nas falhas do sistema e nas razões pelas quais “ainda é preciso meter uma cunha para alguém ter às portas da morte aquilo que o país tem o dever de dar”.
Debate termina em troca de acusações
As diferenças de opinião deram lugar a um momento de tensão quando Liliana Campos estabeleceu uma comparação com a experiência familiar da comentadora.
“Deixa-me só dizer-te isto, mas felizmente para ti a tua mãe esteve num hospital particular”, afirmou.
Joana Latino manifestou desagrado com a intervenção e pediu para continuar: “Ó Liliana, posso fazer o meu comentário?”
A apresentadora voltou a reivindicar o seu espaço no debate e criticou a forma como sentia que a sua opinião era recebida.
“Não, Joana, não és. Porque sempre que eu te digo alguma coisa, tu olhas para mim com desdém, como se eu não pudesse dar a minha opinião”, declarou, depois de a jornalista garantir que respeitava os restantes intervenientes.
Liliana Campos acabou por avançar no alinhamento do programa, encerrando a troca de palavras.
Filipa Torrinha e David Motta defendem a intervenção
No mesmo debate, Filipa Torrinha considerou que a discussão deveria começar pelas circunstâncias que levaram Rita Ferro Rodrigues a pedir ajuda.
“O problema não é o que a Rita Ferro fez, o problema é o motivo que a levou a fazer. E o motivo que a levou a fazer é tão simples quanto o nosso Sistema Nacional de Saúde não funciona corretamente”, afirmou.
A psicóloga rejeitou a leitura de que estivesse em causa a procura de um benefício indevido: “O que a Rita fez foi interceder para que uma cidadã, uma contribuinte, uma mulher tivesse os seus direitos concedidos. É só isto. Não foi privilégio, não foi passar à frente, não foi ter alguma coisa que não era suposto ter.”
David Motta acompanhou essa posição e admitiu que agiria da mesma forma perante uma situação semelhante.
“Se algum de nós aqui, ou até mesmo um estranho, tivesse sido mandado para casa com cancro terminal para morrer (…) eu faria o mesmo se tivesse o telefone do Dr. Lacerda Sales ou de alguém”, declarou.
O comentador recordou também que o encaminhamento para o IPO foi realizado pela equipa clínica.
Jéssica Athayde deixa mensagem de apoio
Durante a emissão, Liliana Campos leu ainda a reação de Jéssica Athayde, que se pronunciou nas redes sociais.
“A Rita fez aquilo que muitos de nós gostaríamos de acreditar que faríamos: tentou alertar para o que estava a passar e indignou-se. Usou os contactos que tinha, sim, mas não para conseguir um privilégio, um favor pessoal ou para passar alguém à frente”, escreveu a atriz.
Na mesma mensagem, Jéssica Athayde defendeu a importância de agir perante o sofrimento de outra pessoa: “Prefiro mil vezes pessoas que se mexem por humanidade a pessoas que, com medo do que possam dizer delas, escolham não fazer nada.”
