João Moura Caetano no Redondo: vinte anos de alternativa e o perfume de um toureio com identidade, numa tarde especial.
Texto: Rui Lavrador
Fotografias: Carlos Pedroso

João Moura Caetano quis celebrar vinte anos de alternativa diante de seis touros. Ontem, no Coliseu do Redondo, o cavaleiro de Monforte assumiu a responsabilidade de uma tarde inteira, numa encerrona em que pôde mostrar a maturidade do seu toureio, o gosto pela estética e essa classe que ganha outra dimensão quando consegue dar à lide o seu tempo.
E ao sexto touro deu.
Foi ali, já no último capítulo da corrida, que Moura Caetano pôde rendilhar com maior liberdade. Um touro com mobilidade, a responder às chamadas, permitiu-lhe desenvolver a sua expressão artística numa sucessão de ferros de bom nível. A atuação cresceu, ganhou continuidade e deixou no Coliseu aquele perfume que se reconhece no seu melhor toureio. O perfume de uma arte trabalhada ao longo de vinte anos, mas que conserva o prazer de se descobrir diante de cada novo adversário.
A tarde teve outros momentos importantes. Teve, sobretudo, um toureiro a procurar celebrar a sua carreira da forma mais exigente que escolheu para o fazer: voltando a pô-la à prova.

Vinte anos depois, a responsabilidade de se apresentar inteiro
“Pelo sonho é que vamos”, escreveu Sebastião da Gama. A escolha de uma encerrona tem muito dessa vontade de ir, de assumir o risco de uma tarde que tanto pode oferecer como pedir, de confiar no trabalho de uma vida sem fazer dele uma garantia para o que ainda está por acontecer.
Moura Caetano levou ao Redondo essa responsabilidade. Perante dois terços fortes de lotação, a aproximarem-se dos três quartos, enfrentou um touro de Torre d’Onofre, três de Paulo Caetano e dois de Irmãos Moura Caetano.

Vestiu três casacas: verde e ouro, cinzenta e azabache, encarnada e ouro. A apresentação acompanhou a importância que quis dar à ocasião. Afinal, vinte anos de alternativa representam milhares de decisões tomadas diante dos touros, tardes felizes, aprendizagem e a construção de uma maneira de estar que o público identifica como sua.
Os dois primeiros exemplares e o quinto colocaram-lhe maiores dificuldades e não favoreceram o acoplamento ideal. Caetano resolveu a função, procurando os caminhos possíveis, antes de encontrar nos restantes as condições para desenvolver um toureio mais próximo da sua intenção.

Numa corrida de seis touros, também essa capacidade faz parte do balanço. Mas foram os momentos de maior inspiração que deram à tarde a sua dimensão.

A classe está na maneira de fazer
Ao terceiro touro, na série de curtos, João começou a soltar algumas das suas melhores características. O toureio ganhou pausa, as reuniões tornaram-se mais harmoniosas e a lide adquiriu a vistosidade que resulta de uma execução bem composta.

Moura Caetano tem uma forma peculiar de tourear. Gosta de preparar, de desenhar a sorte, de procurar uma ligação estética entre os seus diferentes momentos. Quando encontra resposta do outro lado, consegue fazer com que acompanhemos a lide para lá do instante em que deixa o ferro.

Há gosto no que faz. E esse gosto sente-se na importância que concede ao remate, na forma como procura sair da reunião conservando a elegância com que entrou, na intenção de apresentar uma obra cuidada.
É aí que a sua classe se afirma com maior nitidez. O cavaleiro de Monforte tem uma identidade que amadureceu, um toureio que se reconhece e uma preocupação artística que continua a valer a pena ver desenvolvida.

Ao terceiro, começou a mostrá-la com outra expressão. Ao sexto, haveria de a apresentar na sua versão mais completa daquela tarde.
Na lide do segundo touro participou também Gonçalo Fernandes, destacando-se em dois ferros curtos, que desempenhou as funções de cavaleiro sobressaliente nesta encerrona.



Um convite ao pai, uma lição para todos
Ao quarto touro, João Moura Caetano chamou Paulo Caetano à arena para partilhar a ferragem curta.
Foi um dos momentos grandes da corrida. Pelo significado do convite, naturalmente, mas sobretudo pelo que Paulo fez depois de o aceitar.

Três ferros curtos extraordinariamente preparados, com as sortes a resultarem limpas, estéticas e rematadas com uma classe admirável. A souplesse, a elegância, a forma de lidar e de dar sentido a cada movimento compuseram uma verdadeira lição de toureio a cavalo.

Paulo Caetano parece guardar para si a poção da eterna juventude. A qualidade de cada regresso à arena deixa-nos a impressão de que ainda conseguiu apurar um pouco mais aquilo que já tanto apreciávamos. É absolutamente impressionante como torna tudo simples: a preparação, o desenho, a reunião e o remate surgem ligados por uma naturalidade que só o grande conhecimento permite.
Irrepreensível.

João inspirou-se no pai e soube responder, deixando dois curtos de boa qualidade. O encontro ganhou assim expressão artística dos dois lados, enriquecendo uma lide em que a história da família Caetano se pôde ver através do seu toureio.
Na celebração dos vinte anos do filho, o pai ofereceu-lhe três ferros de uma juventude intacta.

O sexto e a beleza de tourear à sua maneira
O último touro permitiu a João Moura Caetano fechar a corrida com a sua atuação mais redonda.

Acudia às chamadas, tinha mobilidade e oferecia ao cavaleiro a possibilidade de dar sequência ao que ia construindo. Caetano aproveitou-a. A ferragem ganhou consistência, os bons momentos sucederam-se e a lide deixou ver, em conjunto, as qualidades que o distinguem.
Foi o João do toureio mais pausado, da harmonia, do cuidado estético. O João que procura fazer bonito através da forma como executa, que dá importância ao percurso inteiro da sorte e que, quando se entende com o touro, consegue envolver a atuação numa elegância muito sua.

Florbela Espanca escreveu, em “Ser poeta”, “É ter cá dentro um astro que flameja”. O verso da poetisa de Vila Viçosa cabe nessa vontade de continuar a criar, de chegar a uma corrida de aniversário e ainda procurar a atuação que melhor traduza aquilo que se é.
Ao sexto, Moura Caetano encontrou-a.

Pôde rendilhar a sua obra, apresentar as suas melhores características e deixar que o aroma da sua arte perfumasse, finalmente e por inteiro, o Coliseu do Redondo. Foi um fecho com categoria, à altura da responsabilidade assumida e do percurso que ali se celebrava.
Duas grandes pegas deram destaque aos forcados de Redondo
O Grupo de Forcados de Redondo teve uma presença de grande nível, concretizando as suas duas pegas à primeira tentativa.
Foram duas grandes pegas. Merecem o destaque pela qualidade com que resultaram e pelo contributo que deram à corrida, colocando os homens da terra entre os protagonistas da tarde.
Numa encerrona em que o nome do cavaleiro concentra boa parte da atenção, importa reconhecer quem também ajuda a construir o espetáculo. Redondo fê-lo de forma convincente, com duas intervenções que ficaram entre os bons momentos desta celebração.
Participaram igualmente os grupos de Portalegre e de Beja, estando igualmente bem.
Aos forcados de Redondo, pela dimensão das duas pegas e pela eficácia demonstrada, pertence uma referência especial.











A saída em ombros e o que fica da tarde
João Moura Caetano acabou por sair em ombros, como acontece com frequência nas encerronas realizadas em Portugal. A imagem final correspondeu à celebração, embora seja no toureio que encontramos as razões mais importantes para recordar esta corrida.
Fica a melhoria ao terceiro. Fica a categoria da lide partilhada com Paulo Caetano. Fica, sobretudo, o sexto touro, com João a apresentar uma atuação em que a classe e a estética encontraram condições para se expressarem com continuidade.
Vinte anos de alternativa depois, o cavaleiro de Monforte conserva uma maneira própria de tourear e o gosto de a apresentar com a dignidade que merece. No Redondo, teve momentos em que essa identidade se mostrou por inteiro, justificando o compromisso com que quis assinalar a data.
O último touro foi o melhor deles. E talvez seja essa a imagem mais feliz que uma tarde de aniversário pode deixar: a de um toureiro que, depois de vinte anos de caminho e de cinco lides naquela tarde, ainda encontra no sexto a inspiração para nos mostrar o melhor de si.
