Cristiano Ronaldo acusa Jorge Jesus de faltar à palavra, pede punição e admite regressar à Seleção

Cristiano Ronaldo acusa Jorge Jesus de faltar à palavra, pede punição e admite regressar à Seleção, em carta enviada às redacções.

Cristiano Ronaldo afirmou que continua disponível para representar Portugal, mas defendeu que deve ser punido por ter abandonado o estágio da Seleção Nacional. Num extenso comunicado divulgado esta terça-feira, 6 de outubro, o capitão apresentou a sua versão do conflito com Jorge Jesus, a quem acusou de faltar por duas vezes à palavra dada.

O avançado pediu desculpa aos adeptos e aos companheiros de equipa, revelou que tinha preparado uma carta de despedida depois do Mundial de 2026 e descreveu as conversas que, segundo o seu relato, antecederam a saída do estágio.

Ronaldo sustentou que o desentendimento não nasceu de uma exigência sua para jogar. Na sua versão, existia um plano definido pelo selecionador, posteriormente alterado, e um compromisso para esclarecer publicamente o sucedido que não terá sido cumprido.

Capitão quer consequências e mantém disponibilidade para jogar

Uma das posições mais claras do comunicado prende-se com a responsabilidade que Ronaldo assume pela decisão de sair do estágio.

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“A consequência deste meu ato deve ser avaliada e punida pela Federação Portuguesa de Futebol. Entendo que a punição não deve ter atenuantes. Não sou um jogador qualquer, sou capitão de equipa e isso constitui uma agravante. Já pedi desculpa, mas sei que as atitudes têm de ter consequências. Quem está no futebol como estou sabe que, independentemente do estatuto de cada um, as regras são iguais para todos”, escreveu.

Apesar do conflito que descreve, o jogador não anunciou o fim do percurso internacional. Pelo contrário, manifestou vontade de voltar a competir depois de cumprir a sanção que eventualmente lhe seja aplicada.

“Portanto se estiver bem fisicamente, a jogar no meu clube, com golos espero, a seguir ao cumprimento da suspensão que me for aplicada, estarei disponível, como sempre estive até hoje, para competir e ganhar pela nossa Seleção.”

O comunicado termina com uma reafirmação da versão apresentada: “Esta é, acreditem, a mais pura das verdades.”

Carta de despedida estava preparada desde o Mundial

Ronaldo começou por explicar que ponderava deixar a equipa nacional antes da chegada de Jorge Jesus.

“Tal como prometi, decidi contar, na primeira pessoa e de forma direta, as circunstâncias que envolveram o último estágio da Seleção Nacional.”

“Após o Mundial 2026 preparei uma carta aos portugueses, que ainda guardo, com as palavras que lhes quero dirigir quando abandonar, definitivamente, a nossa equipa”, revelou.

Segundo o capitão, foi o presidente da Federação Portuguesa de Futebol quem insistiu na sua continuidade.

“No final da competição, logo no voo de regresso dos Estados Unidos, o Presidente da Federação pediu e insistiu que eu ponderasse a decisão de sair porque a FPF queria que eu continuasse.”

Ronaldo afirmou que também lhe foi pedida uma opinião sobre o nome de Jorge Jesus para suceder a Roberto Martínez.

“Logo a seguir pediu que lhe desse a minha opinião sobre o nome do atual Selecionador e que ele estava a ponderar, a par de outros nomes que não me revelou.”

A resposta, garantiu, foi favorável: “Respondi ao Presidente da Federação que, em minha opinião, seria a escolha certa. Por isso, no dia em que o atual Selecionador foi apresentado fiquei genuinamente feliz pela escolha. Era a opção certa, como os resultados vão comprovando.”

Plano previa participação no primeiro e no último jogo

O jogador relatou que o primeiro encontro com o novo selecionador aconteceu na Cidade do Futebol, onde o Al-Nassr realizava o estágio de pré-temporada.

“Poucos dias depois recebi um primeiro contacto do novo selecionador nacional a dizer que gostava de estar comigo pessoalmente. Respondi que sim e agendámos para o final das minhas férias.”

“O Selecionador disse-me nesse dia que contava comigo e que a minha presença era fundamental para o seu projeto. Apresentou-me, logo ali, um plano para a minha participação. Disse-me que jogaria o primeiro jogo e o último e que por razões de gestão física iria fazer sempre três a quatro mudanças por jogo”, explicou.

Ronaldo acrescentou que Jorge Jesus lhe propôs ficar em Portugal durante as deslocações ao estrangeiro.

“Nessa altura colocou-me a hipótese de eu não viajar com a Seleção para Noruega e Dinamarca. Propôs-me que fizesse o primeiro jogo e ficasse em Portugal, para depois me juntar de novo antes do jogo do Dragão.”

O capitão disse ter recusado: “Recusei de imediato esta proposta. Parecia-me evidente que não a poderia aceitar. Não seria por não jogar os jogos no estrangeiro que deixaria de capitanear a nossa equipa. Esse privilégio de ficar em Portugal não seria um bom exemplo.”

Segundo o relato, “o Selecionador acabou por concordar” com essa posição.

Simão Coutinho é apontado como testemunha das conversas

No comunicado, Ronaldo identificou Simão Coutinho, diretor desportivo do Al-Nassr, como uma das pessoas que acompanharam os contactos.

“Esta conversa foi acompanhada pelo Simão Coutinho, diretor Desportivo do Al Nassr, pessoa a quem reportava o atual selecionador durante toda a época passada e um dos responsáveis pela sua contratação pelo clube em 2025.”

O avançado relatou ainda um segundo encontro, na sua casa em Lisboa, antes do início do estágio.

“Na véspera do estágio começar o Selecionador deslocou-se a minha casa, em Lisboa, para ter nova conversa comigo, a seu pedido. A conversa foi tranquila e todos os princípios combinados em agosto foram mantidos.”

Ao recordar a partida em Alvalade, Ronaldo garantiu que aceitou a substituição.

“Joguei o jogo de Alvalade, e apesar de substituído, não fiz nenhum problema. Coloquei a braçadeira eu mesmo ao Bruno Fernandes, longe de imaginar que pudesse estar a dar os últimos passos, como atleta e capitão da Seleção Nacional. O importante desse dia, para mim, foi a nossa vitória. Ganhar é sempre bom, em Portugal e pelo meu País, ainda melhor.”

Ronaldo diz que Jesus lhe anunciou 30 minutos na Noruega

O encontro na Noruega surge no comunicado como o primeiro momento de rutura. Ronaldo afirmou que não contava jogar, mas que foi chamado para uma conversa com Jorge Jesus no próprio dia.

“Para minha absoluta surpresa, o selecionador perguntou-me se estava bem para jogar 30 minutos. Eu estava totalmente focado na minha recuperação física, integrado com os meus companheiros como sempre e a pensar que não jogaria naquele dia. Sem nenhum problema.”

Apesar de considerar que a proposta alterava o que estava previsto, disse ter aceitado.

“Este pedido era algo fora do meu plano de recuperação física e de treino – porque apenas iria jogar dia 4 no Dragão – mas obviamente disse que sim. Respondeu-me que então estivesse preparado porque jogaria 30 min.”

O jogador descreveu depois o que considera ter sido a primeira quebra de confiança.

“O resto todos conhecem. Aqueci desde o intervalo, vi os minutos a passar e não fui chamado. O Selecionador tinha-me falhado com a sua palavra.”

Pedido de desculpa por não cumprimentar os adeptos

Ronaldo assumiu a responsabilidade por não se ter dirigido aos adeptos no final desse encontro.

“No fim do jogo só queria que tudo acabasse com a vitória e ficar sozinho. Não fui cumprimentar os adeptos. Uma falha que é apenas da minha responsabilidade e que não deveria ter acontecido.”

O capitão deixou um pedido de desculpa aos portugueses e também a quem se tivesse deslocado para o ver jogar.

“Peço desculpa aos portugueses que ali nos apoiaram intensamente, peço desculpa aos adeptos e peço desculpa aos que, sem serem portugueses, ali se possam ter deslocado para me ver e a quem eu possa ter desiludido.”

Segundo o comunicado, 48 horas depois realizou-se uma reunião com Jorge Jesus e Simão Coutinho, na qual procuraram ultrapassar o desentendimento.

“Foi um momento profundo, muito frontal, sem qualquer tipo de filtro.”

Jogador relata acordo para esclarecimento público

Na versão de Ronaldo, dessa reunião saiu um compromisso sobre o que o selecionador diria na conferência de imprensa.

“Concordamos que só havia uma maneira de encerrar este ‘caso’: que o Selecionador repetisse o que acabara de me dizer ali em privado, na presença do Simão Coutinho, mas na Sala de Imprensa.”

O avançado detalhou o que afirma ter sido combinado.

“O que foi combinado era simples: o Selecionador começaria a conferência de imprensa por este tema, procurando encerrar o assunto contando a verdade. Diria que nunca pedi para jogar minutos nenhuns, que foi o Selecionador e mais ninguém, quem me propôs o plano para este estágio e que foi um erro colocar-me a aquecer para não entrar e que se voltasse a acontecer não o faria.”

Ronaldo descreveu um final de reunião conciliador.

“Acabamos essa reunião com o Selecionador a pedir-me um abraço, a prometer-me que ia dizer na conferência o que acabara de me dizer a mim e que o assunto se ultrapassava. Eu não jogaria na Dinamarca e jogaria o jogo do Dragão. Tudo isto na presença do Simão Coutinho, sempre.”

Comunicado reproduz notas que Ronaldo diz ter validado

O jogador afirmou que houve posteriormente uma videoconferência entre Jorge Jesus, Simão Coutinho e Tiago Craveiro.

“A pedido do selecionador, decorreu depois uma reunião entre ele mesmo, o Simão Coutinho e o Tiago Craveiro em videoconferência, em que se resumiu aquilo que falámos.”

“Foi produzido um pequeno documento que eu mesmo validei e que, com o meu conhecimento, foi entregue ao Selecionador, tal como ele havia solicitado.”

Ronaldo reproduziu no comunicado o conteúdo dessas notas. Trata-se do texto que o jogador afirma ter sido preparado para a intervenção pública de Jorge Jesus, e não de declarações efetivamente proferidas pelo treinador na conferência.

A introdução seria: “Acho importante, até porque é a verdade, esclarecer algumas coisas antes de falar da Dinamarca.”

Os primeiros pontos apresentados por Ronaldo eram os seguintes:

“1. Propus ao Cristiano eu mesmo, sem mais ninguém, um plano para ele, esta época desportiva, na Seleção Nacional. Foi uma conversa demorada e muito boa.”

“2. Sei o quanto ele vive e Ama a Seleção e o peso que tem no Mundo, mais ainda, o peso e a influência positiva que tem na Seleção há 24 anos consecutivos.”

“3. O plano que propus ao Cristiano foi aceite.”

“4. Ele nunca questionou as minhas opções. Foi exemplar, leal e profissional.”

Referências a Pelé e Maradona constam do documento divulgado

As notas reproduzidas pelo capitão prosseguiam com uma explicação sobre a partida na Noruega.

“5. Do plano que tracei para ele não constava o jogo da Noruega. No entanto, senti que ele tinha conseguido recuperar fisicamente do primeiro jogo e avisei-o que poderia ter de o utilizar. O Cristiano concordou.”

“6. Errei ao colocar alguém da dimensão de Pelé ou Maradona a aquecer para depois não o colocar em jogo. Se fosse hoje não o faria.”

O sétimo ponto reafirmava a vontade de manter o jogador: “7. Para encerrar o assunto: Eu quero o Cristiano na Seleção Nacional. Aliás não quero pouco, quero muito. Felizmente ele também acredita em mim. Acreditou no Al Nassr e aqui também.”

A última nota abordava a ausência de cumprimento aos adeptos.

“8. Sobre não ter cumprimentado os adeptos. Já falámos sobre isso. Quem faz mais de 230 jogos pela Seleção não recebe de mim lições de Amor a Portugal. Foi um momento de frustração que não apaga coisa nenhuma. É o jogador que mais autógrafos dá, que mais selfies tira, que mais acarinha os adeptos. Não inventemos problemas onde eles não existem. Quando não estamos contentes reagimos. Foi só isso.”

Após reproduzir o documento, Ronaldo sublinhou: “Nenhuma destas notas dizia, portanto, que o selecionador me pedisse sequer desculpa.”

“Era a segunda vez que me estava a faltar à palavra”

O jogador afirmou que a conferência de imprensa contrariou o entendimento que descreveu.

“A conferência foi o que se conhece: a postura não teve nada a ver com a nossa reunião, ouvi expressões e uma agressividade que julgo não merecer, uma atitude de quero, posso e mando que nunca me manifestou, nem de perto nem de longe, em privado, na véspera.”

Para Ronaldo, esse foi o momento decisivo: “Era a segunda vez, que me estava a faltar à palavra dada.”

“Decidi abandonar o estágio sem esperar por mais nenhuma quebra de palavra. Para mim a verdade ainda é a coisa mais importante na relação entre as pessoas. Por muito que doa, que me digam a verdade.”

O avançado acrescentou que, nessa manhã, tinha falado com o presidente da FPF e com o selecionador sobre a sua continuidade.

“Reafirmei que se não me quisessem ali mo dissessem. Bastava serem francos comigo. Eu aceitaria isso e prometi que prepararíamos algo bonito, como sonho que aconteça, e ninguém ficaria zangado.”

Segundo Ronaldo, ambos rejeitaram esse cenário: “Lembro-me como se fosse hoje. Responderam em uníssono que não. Que o meu lugar era na Seleção Nacional.”

Ronaldo reconhece que não deveria ter abandonado o estágio

O capitão rejeitou interferências suas nas opções dos treinadores.

“Nunca, em nenhum momento me intrometi em qualquer decisão técnica ou tática de qualquer treinador ou selecionador em quase 25 anos de carreira. Aceito é melhor ou pior o que me propõem fazer. Respeito a decisão e quando me faltam à palavra, sinto que o meu lugar não é ali.”

Apesar das acusações que dirigiu ao selecionador, assumiu que a saída do estágio foi um erro seu.

“Devo também um pedido de desculpas aos meus companheiros de Seleção por ter abandonado o estágio. Apesar da absoluta quebra de confiança na palavra do Selecionador, como poderá testemunhar quem assistiu a estas conversas, eu não o devia ter feito. A responsabilidade é exclusivamente minha.”

Ronaldo voltou a dirigir-se aos portugueses e explicou como interpretou a sua permanência naquele momento.

“Peço desculpa aos portugueses mais uma vez, mas a quebra da palavra tem, para mim, um impacto definidor. Senti que, a partir dali, a minha permanência iria apenas prejudicar o grupo de trabalho e fiz o que sempre disse que faria se não me sentisse útil: peguei nas malas e saí.”

Despedida fica para depois da vontade de competir

No final do comunicado, Ronaldo abordou as referências públicas a uma eventual homenagem de despedida.

“A este propósito, tenho ouvido muito falar em jogos de despedida, que tenho que ter uma despedida digna e que a Federação me quer dar essa oportunidade.”

“Aprendi na vida, com fome e sem nada para comer muitas vezes, que ninguém dá nada a ninguém. Posso prometer a todos os meus fãs, naturalmente e em especial a todos os portugueses, que faremos um ou mais jogos de despedida, haverá tempo para isso.”

O avançado insistiu, porém, que a sua prioridade continua a ser jogar.

“Mas quando penso na seleção o que eu penso mesmo é em competir. Foi nisso que pensei no dia em que me deram a notícia da morte do meu Pai. Estava em estágio da nossa Seleção e lá decidi ficar até terminar o jogo do dia seguinte. Fiz por isso pelo País o que jamais faria por clube algum.”

A disponibilidade para regressar fica, no texto, associada à condição física, ao rendimento no clube e ao cumprimento de uma eventual suspensão. Ronaldo apresenta a sua versão da rutura, assume consequências pela saída e mantém em aberto a continuidade na equipa nacional.

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