Tânia Laranjo critica reação à crise da habitação: “O sofá é bastante mais confortável”, destacou a jornalista.
Tânia Laranjo questionou a capacidade de mobilização dos portugueses perante a crise da habitação, numa publicação no Facebook em que comparou as reações em Portugal e Espanha. A jornalista recorreu à ironia para criticar uma indignação que, na sua perspetiva, se concentra nas redes sociais e raramente se prolonga para lá delas.
No texto, partilhado esta terça-feira, 6 de outubro, apontou as dificuldades de acesso à casa e a distância que considera existir entre os problemas da população e a resposta política.
Portugal e Espanha com dificuldades semelhantes
A jornalista começou por aproximar as duas realidades, defendendo que os obstáculos enfrentados pelas famílias não são muito diferentes.
“A crise da habitação em Espanha não é muito diferente da nossa. Casas caras, rendas absurdas, jovens que trabalham mas continuam em casa dos pais e uma política que parece viver noutro planeta. Os escândalos também não nos distinguem assim tanto.”
Na sua análise, a principal diferença está na forma como esse descontentamento se manifesta.
“O que nos distingue dos nossos hermanos é mesmo a capacidade de mobilização. Em Espanha, quando a coisa aperta, vão para a rua. Em Barcelona, houve protestos, confrontos, barricadas e contentores pelo ar. Noutras cidades, milhares ocuparam as ruas para dizer que uma casa não pode ser um artigo de luxo.”
As referências aos protestos integraram o argumento apresentado por Tânia Laranjo para contrastar a mobilização nas ruas com as reações que observa em Portugal.
“Primeiro fazemos um post. Depois outro”
A publicação prosseguiu com uma descrição irónica dos hábitos de protesto dos portugueses.
“Nós também protestamos. Claro que sim. Primeiro fazemos um post. Depois outro, porque o primeiro não teve alcance. A seguir fazemos uma sondagem: ‘Acham isto normal?’. Mandamos o resultado para o grupo da família e ficamos furiosos durante exactamente três dias. Depois passa.”
Tânia Laranjo reforçou a crítica com uma comparação entre a pressão exercida na rua e o conforto de permanecer em casa.
“Os espanhóis parecem ter descoberto que a rua pode incomodar o poder. Nós descobrimos há muito que o sofá é bastante mais confortável.”
Prestação da casa dá o mote para o final
A jornalista terminou por questionar se essa atitude resulta de resignação ou da expectativa de que os problemas acabem por se resolver sem intervenção.
“Não sei se é civismo, resignação ou simplesmente uma extraordinária capacidade portuguesa para achar que tudo se há de resolver sozinho.”
A conclusão recuperou o tema da habitação, mantendo o tom irónico da publicação.
“Até agora, a única coisa que se resolveu sozinha foi a prestação da casa. Essa subiu sem lhe pedirmos autorização.”
