Nuno Markl elogia «Primetime» e questiona a fronteira entre justiça e espetáculo, através das redes sociais.
O humorista destacou a interpretação de Robert Pattinson e a forma como o filme confronta o público com o fascínio pela exposição de suspeitos de crimes sexuais. Chris Hansen, a figura que inspirou a personagem, rejeitou o retrato apresentado no ecrã.
O que leva alguém a assistir à exposição televisiva de suspeitos de crimes sexuais: a vontade de ver justiça ou o interesse pela queda de outra pessoa? Foi a partir dessa dúvida que Nuno Markl analisou «Primetime», filme protagonizado e produzido por Robert Pattinson, numa publicação no Instagram.
A longa-metragem de Lance Oppenheim, inspirada no programa norte-americano «To Catch a Predator», coloca no centro da narrativa as relações entre televisão, ambição e responsabilidade. O filme recupera um formato em que adultos eram atraídos a encontros através de contactos com pessoas que se faziam passar por menores.
“É televisão perigosamente viciante”
Antes de ver o filme, Markl procurou conhecer melhor o trabalho de Chris Hansen, o apresentador que serve de inspiração à personagem de Pattinson:
“Antes de ver Primetime fui ao YouTube ver o verdadeiro Chris Hansen a caçar predadores pedófilos nos seus programas. É televisão perigosamente viciante que às tantas nos faz questionar porque diacho a estamos a ver.”
O radialista apresentou depois as perguntas que essa experiência lhe suscitou:
“Porque somos fãs de justiça aplicada a monstros que poderiam fazer mal aos nossos filhos? Porque nos queremos sentir bem com a desgraça alheia? E porque é que Hansen faz aquilo? Onde acaba a missão justiceira e começa a sede de fama e fortuna?”
Pattinson e Gisondo em destaque
Na apreciação ao filme, Nuno Markl elogiou a construção das personagens e a ligação entre as ambições do apresentador e as de um jovem ator interpretado por Skyler Gisondo:
“Primetime provoca-nos. Sem moralismos exacerbados, cria em nós atracção e repulsa pelo Chris Hansen de Robert Pattinson (que está brilhante) com um argumento incrível que começa nas motivações da estrela principal de To Catch a Predator e nelas espelha as do jovem e ambicioso actor (o sempre excelente Skyler Gisondo) que vê no papel de isco fictício para pedófilos reais a tão desejada porta de entrada para Hollywood.”
O humorista terminou estabelecendo uma comparação com «Network», de Sidney Lumet. Na mesma passagem, fez uma referência a uma alegada preparação de uma transmissão de uma execução nos Estados Unidos:
“Primetime é um filme que chega na altura certa (a América – e desta vez não um canal de TV mas o governo – prepara-se para fazer o livestream de um fuzilamento) e que, tendo uma linguagem ousada e moderna, lembra a Hollywood dura e provocadora dos anos 70 (poderá este ser o Network deste milénio?). Lance Oppenheim já era um espantoso autor de documentários, agora prova que é espantoso também a dirigir ficção. Venha de lá o You Can See Everything!”
O envolvimento de Robert Pattinson
Durante o Festival de Veneza, Pattinson explicou a ligação que desenvolveu com o projeto: “Senti-me extremamente ligado a este projeto desde o início, assim como a todos os que nele estão envolvidos.”
A preparação incluiu o trabalho sobre a voz de Hansen, uma das maiores dificuldades apontadas pelo ator: “Achei o sotaque muito difícil.” O exercício acabou por deixar marcas noutro filme em que participou: “Consigo definitivamente ouvir um pouco de Chris Hansen em ‘A Odisseia’ quando o vejo.”
Pattinson esteve também envolvido na produção através da sua empresa, a Icki Eneo Arlo. À agência France-Presse, Lance Oppenheim destacou essa colaboração, afirmando que o ator “não foi apenas o meu protagonista. Foi um verdadeiro colaborador de confiança, e construímos isto juntos”.
A participação de Phoebe Bridgers, num papel de isco usado nas operações televisivas, mereceu igualmente um elogio do protagonista: “Ela estava tão tranquila e fiquei tão impressionado; ela captou perfeitamente o tom.”
Chris Hansen contesta o retrato
O entusiasmo de Markl contrasta com a reação do próprio Chris Hansen. Depois de ter reconhecido ao Entertainment Tonight “uma imitação muito boa ali no trailer”, o antigo apresentador criticou o filme num vídeo publicado no YouTube.
“Foi tão bizarro e tão fora da realidade. Obviamente que não sou objetivo porque a personagem sou, bem, eu, mas estava tão desligado da realidade ou de qualquer coisa que tenha vivido na altura”, afirmou.
Hansen contestou também a caracterização que considera ter sido feita de si, descrevendo-a como “tão distante, tão desequilibrada, tão sombria, tão antipática”.
