António Zambujo levou ‘Oração ao Tempo’ ao Coliseu dos Recreios: A arte suprema de deixar-nos viciados

António Zambujo levou ‘Oração ao Tempo’ ao Coliseu dos Recreios: A arte suprema de deixar-nos viciados e a pensar.

Texto: Rui Lavrador
Fotografia: N. Almeida / D.R.

No Dia Mundial da Voz, António Zambujo subiu ao palco do Coliseu dos Recreios, em Lisboa, para apresentar o mais recente disco, ‘Oração ao Tempo’.

E foi um daqueles raros concertos em que nos apanhamos a pensar.

António Zambujo apresentou “Oração ao Tempo” sem pressa de provar seja o que for. E talvez tenha sido exatamente por isso que tudo fez sentido. Não houve urgência, nem tentativa de impressionar. Houve espaço. E hoje em dia, espaço é coisa rara. E tempo também.

Um concerto que obriga a ficar

Logo no início, percebeu-se que não ia ser uma noite de consumo rápido. As músicas não entravam para marcar posição. Entravam devagar, como quem pede licença.

E isso obriga-nos a uma coisa a que já não estamos habituados: ficar.

Ficar sem mexer no telemóvel. Sem pensar no que vem a seguir. Ficar ali, inteiro.

Pode parecer pouco. Não é.

O tempo não foge – nós é que fugimos dele

Há uma ideia que atravessa todo o concerto, mesmo quando não é dita: o tempo não anda a fugir de nós.

Nós é que andamos constantemente a fugir dele. Fugimos com distrações, com rotinas, com aquela sensação permanente de que há sempre mais qualquer coisa para fazer. E no meio disso, adiamos o essencial.

Ontem, não deu para fugir.

As músicas iam puxando por esse sítio onde guardamos o que deixamos para depois. Pessoas, sobretudo. Conversas que ficam por ter. Gestos que não fazemos. Sem dramatismo. Mas com verdade.

Amar com tempo – mesmo quando ele falta

Há também uma forma muito particular como Zambujo fala — ou canta — sobre o amor.

Não é idealizado. Não é grandioso. É real. É o amor que existe com presença e o que resiste na distância. O que muda, o que falha, o que fica mesmo assim.

E isso toca mais fundo do que qualquer declaração perfeita. Porque todos reconhecemos esse lugar.

A certa altura, já não estamos só a ouvir músicas. Estamos a pensar em alguém concreto. Não numa ideia. Numa pessoa. E isso acontece sem aviso.

Quando a música abranda tudo

Houve um momento – difícil de marcar – em que o Coliseu inteiro abrandou.

Não no tempo real. No interior. As pessoas estavam mais quietas. Mais atentas. Mais dentro do que estava a acontecer. E isso não se força. Acontece ou não acontece.

Ali aconteceu. Principalmente, na primeira parte do concerto em que foram apresentadas todas as canções do disco.

O passado não ficou para trás

Na segunda parte, quando entraram músicas de outros discos, não houve rutura.

Parecia tudo parte da mesma conversa. E talvez seja essa a melhor forma de olhar para o tempo: não como uma linha de cortes, mas como um contínuo onde tudo se acumula. O público foi ligeiramente mais reativo por já conhecer de cor as canções anteriores.

Aquilo que fomos não desaparece. Fica em nós, com outra forma.

E ontem isso sentiu-se.

No fim, ficou o que importa

Quando o concerto acabou, não houve aquela sensação de clímax típico. Houve outra coisa.

Uma espécie de silêncio interno. Saímos para a rua, para o barulho habitual, para a pressa de sempre. Mas com qualquer coisa diferente.

Talvez uma ideia simples. Que andamos demasiado ocupados para aquilo que realmente importa.

E que, no meio disso, vamos deixando pessoas para depois — como se o tempo estivesse sempre garantido. Não está.

Se um concerto consegue lembrar-nos disso sem moralismos, sem discursos, só com música — então não foi só um concerto. Foi outra coisa qualquer.

E ontem foi.

António Zambujo esteve acompanhado em palco por um sexteto composto por José Manuel Conde, João Moreira, Frederico Brito, Bernardo Couto, André Santos e João Salcedo, todos eles em patamar elevadíssimo artisticamente.

Por mais que a tristeza se deite ao meu lado, eu sei que o sonho não está a dormir“, declamou a dada altura do concerto. “Eu estou aqui, para o que der e vier, para ti“, acrescentou.

Mais adiante, assinalou “Na verdade são poucas as coisas que verdadeiramente importam na vida. Poder amar quem nos ama. E não morrer depois dos nossos filhos“.

O disco é uma beleza rara, juntando autores consagrados com outros da nova geração, numa ponte lusófona, na qual Zambujo se move como peixe na água.

Ao vivo, foi ainda melhor. E o mais fascinante em Zambujo é a sua capacidade de simplificar tudo em palco. Talvez seja esse o grande segredo para a grandiosidade do que apresenta.

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Rui Lavrador
Rui Lavradorhttp://www.infocul.pt
Jornalista e Director Infocul.pt

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