
‘Eternamente Lorca’ é o último disco, até à data de António Portanet. É uma homenagem e que conta com doze faixas, todas elas com poesia de Lorca.
Este disco foi apresentado pela primeira vez, em Portugal, numa edição do Artes à Rua, em Évora, em 2017, tendo agora o artista concedido uma entrevista ao Infocul para falar sobre o disco, a ligação a Portugal e também sobe o mundo.
Neste disco destaca-se a participação de nomes como Pedro Jóia, Norton Daiello, Vicky Marques, Ana Bela Chaves, entre outros.
‘Eternamente Lorca’ é uma homenagem profunda da Portanet a Lorca?
Sim, é um profundo tributo, significado e meu para o poeta. Pelo menos, essa foi minha intenção.
Lorca é um companheiro da minha alma, ele acompanhou-me a vida toda, desde tenra idade. “Ele é um amigo que eu não conheci”.
O que mais te fascina no trabalho de Lorca?
A sua sensibilidade incomensurável.
Quais foram os maiores desafios na gravação deste álbum?
A gravação em si não foi o desafio. O desafio foi encontrar uma forma musical que naturalmente recebesse estes poemas de estrutura complexa, irregular e sem rima convencional. Esse foi o maior desafio. Sinto-me humildemente orgulhoso do resultado.
No que diz respeito à gravação, tendo encontrado o apoio do Alain Vachier como produtor, juntamente com o grande talento e o firme compromisso dos músicos que me acompanharam, ressalvo o importante papel do Pedro Jóia e Norton Daiello, foi um acto maravilhoso de amizade que eu aprecio muito.
Existe algum tema que lamente não ter no disco?
Alguns temas foram deixados de fora do meu disco, é verdade. Não me arrependo, simplesmente não podia ir mais longe. Por várias razões, alguns poemas foram deixados de fora: ‘Passeio’, ‘Dança da morte’, ‘Gritar em direção a Roma’. Ficam em espera.
Apresentou este disco em Évora, numa edição do Artes à Rua. Qual a sua ligação com Portugal?
Toda a minha família é espanhola. No entanto, a minha relação com Portugal é muito forte e há muito tempo. O meu avô já morava em Lisboa, ele tinha negócios e o meu pai foi professor no Instituto Espanhol de Lisboa durante muitos anos. Eu cresci entre Espanha e Portugal e, sem perceber, sou dois, completamente bi, tenho duas almas. Não falo apenas português como português, mas também conheço formas, códigos de conduta, cultura. Não é comum encontrar um espanhol que tenha lido “Os Lusíadas” em português, certo? Eu fiz.
O que mais se destaca na música portuguesa?
Primeiro, a riqueza do seu folclore constitui um impressionante banco de DNA cultural português.
E, é claro, falando de personalidades, destaco os eleitos, aqueles que são e permanecerão na memória: Amália, José Afonso, Carlos Paredes, Maria João Pires, Ana Bela Chaves, António Vitorino de Almeida, Carlos do Carmo, Pedro Caldeira Cabral … Eles são e farão parte da história da música deste país.
Como analisa toda a sua carreira musical?
Honestamente, não pode falar de mim como alguém que fez carreira na música. A minha verdadeira carreira é viver e ser feliz, aspiração legítima de todo ser humano. A vida é um milagre irrepetível.
No que diz respeito à música, do chamado show business, de música de consumo. Digamos, eu sou um cantor offshore, longe do conceito de música de entretenimento industrial. Música, música e todas as artes, a meu ver, são manifestações solenes da alma humana, são um fenómeno espiritual que gera sentimentos e origina no mais profundo de cada ser. Todos no seu lugar devem fazer um esforço para elevar o nível das coisas ao nosso redor.
O que mudaria?
Essencialmente nada. Noutro dia eu poderei responder que mudaria tudo.
Acha que a música de intervenção ganha importância novamente, especialmente nas gerações mais jovens?
Claro, espero que sim. Vivemos num mundo cheio de injustiças e desigualdades. Devem surgir vozes que nos acordem da profunda letargia em que vivemos. A alienação à qual estamos expostos deve ser denunciada. Consumo desenfreado de coisas supérfluas e de duração premeditada. A nossa sociedade industrial comete crimes contra a humanidade num esforço para aumentar os lucros, sem levar em conta as feridas que infringem o meio ambiente, causando as alarmantes mudanças climáticas no nosso planeta. O ser humano é enfeitiçado num frenesim de consumo sem limites. É dada mais importância ao que se tem do que ao que se é. E finalmente, como eu digo: “Você só tem o que dá”. Não precisamos ter tantas “necessidades”, elas acostumaram-nos. Não precisamos tanto, não precisamos crescer mais, apenas temos que distribuir melhor a riqueza.
Quais são os maiores perigos que a sociedade enfrenta hoje?
Guerra, fome, mudança climática, doença, ignorância e – a estupidez ilimitada dos seres humanos – citando Einstein. É necessária uma profunda mudança de mentalidade para que a humanidade possa continuar a sua jornada no tempo. Uma grande mudança que inevitavelmente passa pela Paz, pela Educação, pelo Diálogo entre Culturas. A humanidade é a única nação que existe e a única raça.
O homem do século XXI precisa consciencializar-se de que devemos viver na Paz no nosso minúsculo planeta que chamamos Terra, “… que dá frutos para todos”, um planeta que só navega pela imensidão do universo.
Gosta que a sua música faça o público pensar?
“Atreva-se a pensar!”, Disse Immanuel Kant. Pensar. É o que move o mundo, digo eu. Eu canto o que canto porque gosto. Cantar poesia é o que eu gosto. Cada um tem o seu misticismo. Eu sei que o que faço não é para grandes audiências. Os outros que fazem o que querem. Compreendo perfeitamente Juan Ramón Jiménez quando ele disse: “Escrevo para uma enorme minoria”.
Como gostaria de ser lembrado como cantor daqui a 20 anos?
Ser lembrado, eu gostaria. Ser lembrado com respeito e amor, ainda mais.
Qual a mensagem que deixa aos portugueses?
Amo Portugal intensamente, a qualidade humana do vosso povo, celebro e aprecio a beleza desta terra e do seu mar, os seus deliciosos vinhos, a sua riqueza gastronómica, etc … mas, ao mesmo tempo e esta é a minha mensagem, devemos continuar a lutar para melhorar as condições de vida de uma parte considerável da população. Dói e considero intoleráveis as desigualdades sociais que ainda existem hoje em Portugal. Se me dói e me entristece, deve ser porque o meu amor por este país é verdadeiro.
