À conversa com Ana Sofia Carvalheda sobre os 20 anos do Viva a Música

O Viva a Música da Antena comemora 20 anos em 2016 e o Infocul conversou com Ana Sofia Carvalheda, que em conjunto com o seu pai, leva a música para junto do público, promovendo a música portuguesa.

É uma grande aventura sempre com as palavras “ganhar” e “felicidade” associadas. Se há 20 anos atrás o panorama musical português andava mais por outras áreas. A influência da música anglo-saxónica era grande, havia muito rock do outro lado do atlântico e cantada em inglês. De início não foi assim tão fácil mas hoje em dia até é bom ver que há músicos que se nos anos 90 cantavam em inglês, hoje em dia cantam em português. Todos nós crescemos juntos nestes 20 anos. Equipa técnica, eu enquanto produtora e o Armando com o seu trabalho na rádio que já leva com quase quarenta anos” começa por nos confessar Ana Sofia Carvalheda num balanço a estes 20 anos.

 

 

O meu trabalho é precisamente esse trabalho do antes. Trabalhamos todos os dias no “Viva à Música”. Chegamos aqui às 8:30 ou um quarto para as nove. Tudo parece mais fácil mas eu começo a trabalhar o “Viva à Música” com dois meses de antecipação pois começamos a fazer o alinhamento desse mês que vem ai. Já estamos em Julho e temos o Setembro e o Outubro programados. Temos que fazer os tais alinhamentos onde metemos o fado tradicional e a música ligeira. Para não ser sempre fado. Não faz parte da filosofia do programa. Podemos mostrar um bocadinho de tudo o que se faz com qualidade em Portugal. Vão chegando propostas pois nós também vamos a muitos festivais e concertos. Também vamos vendo na internet. Vamos acompanhando. O Facebook é uma ferramenta fundamental para ir acompanhando os trabalhos dos músicos. Para ouvir os discos às vezes basta ir a um concerto. Temos que estar sempre de acordo. Eu na produção e o Armando na realização do programa. Nunca em 20 anos veio cá alguém que nós não nos revíssemos no projecto. Pode não ser a área que goste mas tenho que perceber esse projecto e o Armando é a mesma coisa. Às vezes mando os dados para cima da mesa. Outras vezes é ele e convence-me. Tenho que tratar do alinhamento e das autorias para fazermos o roteiro da Sociedade Portuguesa de Autores, temos que combinar horários e isso tudo. É um trabalho que faço sempre com a antecedência de um mês, para não haver grandes sobressaltos. Depois, na própria semana faço um telefonema diário, mando um sms ou email pois precisamos de fotos para o online ou precisamos de saber se há alguma coisa para por lá. Tudo isso vai sendo feito. Começa num mês esse trabalho de produção. O mais fácil é o dia do “Viva à Música” diz-nos, desvendando um pouco de como é produzir o formato.

 

 

A gestão dos convidados é difícil. Porque não só temos muitos e bons artistas em Portugal, como as propostas que chegam ao programa são também elas numerosas. Para Ana Sofia Carvalheda “2015/2016 foi o ano mais complicado de gerir o “Viva à Música” devido a tanta boa oferta que nos foi chegando e ainda bem. Tivemos desde a Mariza, Ana Moura, Camané, Ricardo Ribeiro ou Joana Amendoeira. São nomes que foram difíceis de trazer a um “Viva à Música”, por mês, dedicado ao fado. Vamos fazendo mas ainda temos alguns nomes que ainda não fizeram. Esperamos que venham até ao final do mês de Dezembro, ao natal, e tenho a certeza que virão. Também temos que combinar agendas. É difícil trazer até cá uma Ana Moura mas não é pela parte da Ana Moura, agenciamento ou da editora. É arranjar uma data disponível. É arranjar uma quinta-feira disponível na agenda dos muitos e muitos concertos da Ana Moura, nomeadamente lá fora. Não se trouxe a Ana Moura antes do natal mas conseguiu-se arranjar uma data especial antes do concerto grande em Lisboa e dos concertos no Porto. O Camané só veio cá antes dos concertos no CCB. Temos sempre uma grande delicadeza de ambas as partes para ter cá esses grandes nomes. Repito, às vezes não é porque o artista não quer, o agenciamento e a editora. É por falta de quintas-feiras disponíveis que não são tão rapidamente como nós gostaríamos que fosse”.

 

 

O Viva a Música vai para o ar pelas 15:00, todas as quinta-feira, mas o dia começa muito mais cedo para Ana Sofia Carvalheda pois “chego por volta das nove, nove e meia. Preparamos o palco. As necessidades técnicas são fundamentais porque aqui no teatro nós só temos as nossas coisas da rádio: duas mesas de som e as suas colunas. Tudo o resto vem do nosso armazém técnico da RTP em Lisboa. Microfones e até as “girafas” de microfone vêm da nossa sede. Esse trabalho técnico é feito na véspera ou dois dias antes. Eu envio as necessidades técnicas para a sede e eles enviam-nos. O desenho do palco é essencial. A partir dai, por volta das nove ou nove e pouco, a minha equipa técnica começa a montar o palco. Os músicos chegam por volta das 10 horas. Colocam os instrumentos no palco. Depois fazemos a “micagem”, que é colocar os microfones nos sítios especiais e tudo isso. Fazemos ainda, antes do almoço, o check Sound para ver se todos os instrumentos chegam a todas as mesas e se têm ruídos, se está tudo ligado. Às vezes os instrumentos necessitam de pilhas novas. Almoçamos e fazemos uma paragem das 12:00 às 13:00,onde estamos todos na mesma mesa. Seja o fadista mais internacional, seja o músico menos conhecido. Almoçamos todos juntos e trocamos ali meia dúzia de palavras. É sempre uma conversa rica. Depois das 13:00 às 14:30 fazemos o chamado ensaio de som. Das 14:30 às 15:00 os músicos retiram-se um pouco. Vão para os camarins onde mudam de roupa e descansam um pouco. Às 14:30 entra o nosso público”, que muitas vezes esgota por completo a sala lisboeta.

 

 

É verdade que o público que vem até aqui, ao Teatro da Luz, têm uma média de idades entre os 60/70 anos. Mas também temos pensado no público que nos ouve, quer seja na rádio em casa, no carro ou na internet pelo mundo fora. Às vezes ouvem à meia-noite ou seis da manhã pois estão no outro lado do mundo. Podíamos ter começado a fazer o programa em estúdio, como há outros programas que são feitos noutras rádios ou mesmo na Antena 1. Só que o estúdio de rádio não têm público e os músicos tocam para quatro paredes. Um dos objectivos do programa foi ter a reacção das pessoas logo em directo, é serviço público. Esse também faz parte do nosso conceito. Mostrar às pessoas que habitualmente não têm possibilidade de vir a Lisboa para irem ao Coliseu, MEO Arena ou o S.Luiz. Vêm uma amostra do que esse músico está a fazer. Falo de uma amostra porque são 7 ou 8 temas. Não é o disco inteiro nem um concerto numa grande sala nacional. Não, é uma pequena amostra. Se nós disséssemos o que queriam ouvir, era sempre fado. Mas esse também é o nosso trabalho, mostrar o que está a ser feito no momento. Habitualmente, quando perguntamos se gostaram a reacção é “Não conhecia mas gostei” ou “Ah, pensava que era outra coisa”, pois há bandas com nome inglês mas cantam em português e as pessoas gostaram da letra ou de certo instrumento que nos leva a fazer o próximo “Viva à Música” com mais carinho e profissionalismo” diz-nos com um brilho nos olhos sobre a reacção do público e de que modo isso influencia a programação.

 

 

O percurso de Ana Sofia Carvalheda começou na Rádio Energia, tendo depois integrado o grupo RDP, onde ainda hoje trabalha com o seu pai, o icónico Armando Carvalheda. “Como acontece nas famílias de médicos ou advogados, nós habituamo-nos em casa a falar e a ouvir falar daquilo que trazem para casa. Eu cresci e fico feliz em partilhar isso, com músicos em casa. Músicos que nos anos 70 e início dos anos 80 iam até lá a casa para conversar com o meu pai e iam até lá mostrar os vinis ou ensaiar. Eu cresci nesse ambiente. Se às vezes pensei “Quando for grande quero ser isto ou aquilo”, a música sempre fez muita companhia. Sempre tive essa memória ligada à música pois ia com o meu pai até ao “Rock Rendez-Vouz”, pois ele trabalhava lá e eu ficava muito quietinha. Sempre fez parte da minha vida. Depois, na escola secundária havia um centro de rádio e eu comecei a fazer rádio na escola Gil Vicente, na Graça. Conhecia aquele e outro nome da rádio e pedia ao meu pai para arranjar-me determinadas canções que via naqueles tops americanos e ingleses que passavam na televisão. Depois, numas férias de verão quando tinha dezassete anos disse ao meu pai, com grande espanto, que queria fazer rádio na Rádio Energia pois passava quase noite e dia a ouvir. O meu pai falou com o Nuno Santos para ver se me aceitavam naquele verão para arrumar discos, o que fosse. Isso começou em 92 e quando chegou a Setembro ,altura de voltar à escola, já fui acabar o secundário à noite e depois disse que queria seguir rádio. Na altura não havia cursos de rádio. Não queria seguir jornalismo. Havia a ETIC e eu sou uma das primeiras alunas da ETIC na parte de produção. Sempre quis, desde que me lembro, estar no outro lado da música e perceber o outro lado da rádio. Em 93 sai com mais vinte colegas do grupo Energia e houve o convite do Nuno Santos para ir para a RTP, Antena 1. Na altura estava a começar a Antena 3. Nunca fiz parte da Antena 3. Fiquei sempre na Antena 1 porque sempre achei que que o meu perfil se enquadrava na Antena 1. Utilizava, muitas vezes, o nome Ana Sofia Santos porque tenho um nome de família pesado, de grande profissionalismo e não é fácil. Todas as pessoas iam associar e depois comecei a utilizar com orgulho Ana Sofia Carvalheda. Quando houve o desafio do meu pai para fazer o “Viva à Música” houve muitas pessoas a dizerem que nós não nos íamos dar bem, que nos íamos chatear no trabalho e trazer a música para casa. Nós dissemos que éramos amigos e que esse não ia ser o problema. O meu marido e a minha mãe são de áreas completamente diferentes e por vezes têm que dizer para desligar o botão. Em casa é o meu pai, na RDP é o Armando Carvalheda, tal como ele, que trata-me por filha com muito orgulho mas profissionalmente sou a Ana Sofia Carvalheda. Olhando para trás foi muito bom ter aceite este desafio do Armando Carvalheda” diz-nos sobre o seu percurso.

 

 

Convidámos Ana Sofia Carvalheda a fazer um balanço e um prognóstico sobre a obra que Armando Carvalheda deixará na rádio em Portugal, tendo-nos respondido “ Divulgação musical. Acho que há excelentes profissionais de rádio. Há grandes nomes de referência de outras áreas musicais. O Armando, meu pai, ficará como dinamizador da música. Quer de nível tradicional, quer seja da nossa música de qualidade. Acho que é isso que ele vai deixar ao público e eu espero que daqui a muitos anos, sempre que me perguntarem, eu vou lembrar-me do Armando Carvalheda quer seja pela qualidade, profissionalismo e divulgação musical. Os afectos, carinho e a ligação que eu tenho com o meu pai ficam para casa. Em termos profissionais, aquilo que ele ensinou-me a mim e a todos os outros, pois ele partilha conhecimento. É uma coisa que nem sempre acontece neste meio que consegue ser muito cruel. Seja comigo ou com outros colegas, Armando Carvalheda partilha conhecimentos e troca ideias. Não se fecha no seu mundo de realizador de rádio. Não. Tanto que a equipa do “Viva à Música” também vive disso. Não somos apenas colegas do aperto de mão e tratar por você. Há carinho. Nisso o Armando também me ensinou muito”.

 

 

Para Ana Sofia e pese este percurso de 20 anos do Viva a Música ainda falta fazer tudo, porque “se não tivermos boas ambições, se não quisermos alcançar mais, não evoluímos. Eu quero evoluir na rádio, quero evoluir no meu trabalho e por isso falta fazer tudo. O quê?!… Algumas coisas sei mas outras ainda não sei. Falta-me ainda fazer muito na produção de rádio e na divulgação musical na rádio. Hoje a rádio tem imagem. Há vinte anos atrás o “Viva à Música” não tinha preocupação com a imagem. Hoje tem. Hoje filmamos. Hoje temos a internet. Muitas coisas mudaram nestes 20 anos e eu sei lá o que vai mudar nos próximos dez anos. Não adivinho e ainda bem!”

 

 

A música portuguesa está na opinião de Ana Sofia Carvalheda “muito bem. Se nos anos 90 achava que a música não estava assim tão bem, acho que a partir de 2000 e agora já encontrou o seu caminho e descobriu o fado. O que não acontecia nos anos noventa. Já não têm vergonha do seu fado e do seu cariz tradicional, do seu cante do Alentejo e dos seus instrumentos tradicionais como a viola campaniça. Já somos nós. Já não temos vergonha e a música portuguesa tem muita qualidade e está bem de saúde e de futuro não nos vai deixar pensar nisso. Vai ai muita música e boa” perspectiva.

 

 

O Viva a Música terá pelo menos mais 20 anos, “por mim e por parte dele também estou certa que sim” diz-nos Ana Sofia Carvalheda a quem agradecemos a generosidade e disponibilidade para a realização da entrevista.

 

 

Em breve apresentaremos a entrevista com Armando Carvalheda sobre os 20 anos de Viva a Música.


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