
A ‘encerrona‘ de Ferrera na Praça de Touros de Badajoz cumpriu o seu objectivo de homenagear toda a tauromaquia mundial. Mas acima de tudo, demonstrou a dimensão toureira e de resiliência do matador de touros espanhol.
Nas paredes superiores da praça, estavam escritos os países com actividade tauromáquica, acompanhados das respectivas bandeiras. A saber: Portugal, Espanha, México, França, Equador, Venezuela, Colômbia e Peru. Na entrada principal da praça, as bandeiras destes mesmos países, na entrada dos sectores.
Após o ‘paseillo’, Ferrera foi homenageado pela Escola Taurina de Badajoz. Posteriormente e com toda a sua equipa na arena, fez soar a primeira ovação da tarde.
Os touros desta ‘encerrona’ foram todos pertença da ganadaria Zalduendo. Com apresentação em qualidade, excepto o quinto, demonstraram comportamentos distintos mas todos eles, excepto novamente o quinto, com condições para o toureio de Ferrera.
No primeiro touro, um ‘burraco’ bem apresentado e que mostrou um comportamento de menos a mais, Ferrera destacou-se na muleta, com classe e profundidade, numa faena de qualidade. Com a espada, colocou-se a grande distância do touro, indo aproximando-se até entrar a matar. Uma orelha, como troféu.
No segundo touro da corrida, Ferrera enfrentou um oponente de comportamento distinto e que o obrigou a porfiar mais. Após receber com capote e deixar o ‘tercio’ de bandarilhas aos bandarilheiros, foi na muleta, e pela direita, que teve os seus melhores momentos, com estética, conseguindo vários momentos de bonito ‘embroque‘. Executou a sorte suprema de modo semelhante ao que na primeira actuação. Uma orelha como troféu.
A terceira actuação de António Ferrera foi baseada mais em resiliência e garra, do que em classe e inspiração. Nesta actuação de Ferrera, houve participação portuguesa através do bandarilheiro João Ferreira. O bandarilheiro luso cravou um excelente par e um outro que ficou apenas uma das bandarilhas cravada. Antes, Ferrera esteve curto no capote e na muleta foi preciso suar muito para conseguir retirar algo do seu oponente. Sofreu uma ‘voltareta’, foi ‘agarrado’ noutra situação, e pelo meio destes percalços destaca-se uma série bem desenhada e uns passes sem sequência. Ovação no final da actuação, frente a um touro muito bem-apresentado e digno de qualquer praça de primeira categoria, sério e que impôs respeito.
Na quarta actuação, recebeu o oponente com uma larga afarolada e de joelhos em terra. Um touro colaborante e ao qual, na muleta, Ferrera se impôs com um estilo nobre, cadenciado, com a muleta ao natural pela direita e com espada montada pela esquerda. Voltou a executar a sorte suprema da mesma forma, à primeira e no centro da arena. Duas orelhas como prémio pela actuação.
A Quinta actuação é a menos colorida, por assim dizer a que menos história tem, nesta tarde. Um touro fisicamente menos nobre que os restantes da tarde, com comportamento displicente e pouco bravo. Ferrera apenas pôde porfiar muito para tentar obter algo de um oponente que pouco tinha para dar. Executou a sorte suprema da mesma forma que as anteriores, mas com ineficácia e acabou silenciado.
O sexto recebeu à porta gaiola, de joelhos em terra e com uma larga afarolada que não resultou. No capote, esteve curto e deu espaço a Álvaro de la Calle e Chapurra. Destaque ainda para o salto garrocha executado por Raul Ramirez. Nas bandarilhas, Ferrera, cravou dois pares, sendo colhido com aparato no segundo quanto tentava em sorte de violino, deixando dois pares para os seus bandarilheiros. Na muleta esteve com alma e resiliência, mas visivelmente limitado devido à colhida, numa actuação sem jaqueta e sapatilhas, mas com uma alma e entrega sem fim. Cortou orelha, após sorte suprema bem executada.
Um final de tarde em que Ferrera fez valer cada quilómetro e cada euro que os aficionados tenham investido para o ver tourear. Um toureiro com percurso bem assente no crer e no querer, na resiliência e na arte, na paixão e devoção por tão nobre tradição.
A saída em ombros foi o resultado de uma tarde que ficará na memória, de quem a proporcionou e de quem a viveu.
Numa temporada atípica e em tempos de ventos fortes contra a tauromaquia, é bom existirem momentos que nos permitem sonhar e desfrutar. Ferrera fê-lo!
Mais tarde, apresentaremos a galeria fotográfica e outros detalhes desta corrida de touros.
Texto: Rui Lavrador
Fotografia: Carlos Pedroso





