
Um dos melhores discos que ouvi este ano tem a assinatura de Carlos Menezes e intitula-se ‘Groove Grooving’. Em entrevista ao Infocul, Carlos Menezes falou sobre este disco, sobe o seu percurso e também sobre o Alentejo.
O músico alentejano apresenta um disco que pode ser enquadrado no Jazz Fusão, com convidados de excepção e um alinhamento que em nenhum momento torna o disco desinteressante.
O que mais se destaca neste disco é a extraordinária sensibilidade, reconhecida pelos ses pares e por quem lhe é próximo, de Carlos Menezes.
Nem sempre a qualidade é sinónimo de grande reconhecimento público, porém Carlos Menezes prova que quando a música é servida, e não o inverso, a Arte (na sua forma mais pura e genuína) arrebatam quem a ela está disponível para a apreciar.
Neste disco conta com as participações especiais de Mara, Soukaina Fahsi, Joana Ricardo e Rui Nuno. Os músicos que integram este disco são (além do próprio Carlos Menezes) Mário Lopes, Rui Gonçalves, Rodrigo Lino, Sérgio Rodrigues, João Baião, Jean Marie e Nilson Dourado. A produção tem assinatura de Carlos Menezes, sendo destaque ainda três temas com assinatura, na letra, de Carlos Leitão.
Apresentamos de seguida a entrevista, na íntegra, a Carlos Menezes:
O que diria Carlos Menezes, enquanto consumidor e amante de música, ao músico Carlos Menezes, após ouvir este disco?
Olá Rui, é para mim muito difícil responder a esta questão, mas vou tentar. Quando comecei a ouvir jazz foi com este tipo de som, Jazz fusão, tinha o sonho de um dia poder tocar este género, mas longe de mim pensar em gravar. O disco é um tributo a esse sonho, acho que é um disco bem conseguido.
Há quanto tempo tinhas estes temas ‘na gaveta’?
Os temas foram sendo construídos ao logo dos anos e de uma forma muito solitária. Sempre que surgia alguma vivência intensa, e que de alguma forma me marcava, eu “aproveitava” esse estado de alma e compunha.
Os temas estavam na gaveta por timidez?
Por timidez e por achar que era algo demasiado intimo. Na verdade o meu percurso musical é amplo e incluí vários géneros musicais, Erudito, Étnico, Pop e efectivamente é onde sou mais reconhecido. Portanto, para muitos este álbum poderá ter sido uma surpresa.
Quais as palavras de Mário Lopes que te despertaram a vontade de nos presenteares com este disco?
Foi muito simples, o Mário ouviu dois temas e disse:
-Temos de gravar isto! És maluco! Tens isto aqui guardado. Bora lá!
Eu não hesitei e gravei com os meu próprios meios e com a ajuda técnica de alguns amigos.
Quando estás a produzir e gravar um disco teu, em algum momento pensas naquilo que poderá ser a reacção do público?
Para mim, enquanto músico, a reacção do público é importante e pelo qual eu tenho muita consideração, no entanto, confesso que no meu trabalho a solo sou fiel ao meu coração.
Apresentaste este disco na edição deste ano do Artes à Rua. Apresentar o disco perante as tuas gentes é uma responsabilidade maior ou dá mais conforto?
É uma responsabilidade acrescida tocar para amigos na terra que nos viu crescer enquanto músicos. Apesar de sentir que não tenho que provar alguma coisa, não deixa de ser difícil. O único a quem devo provar alguma coisa é apenas a mim próprio.
Consideras que o Jazz é apreciado ou valorizado em Portugal? Ou é um género musical ‘de nicho’?
Estou muito fora desse nicho de mercado. Acho que é um mercado muito fechado, que continua a ser só para alguns ouvintes. Acho que ainda não foi valorizado pelo grande público.
Dois dos títulos que dás aos temas são numéricos. A faixa 4 intitula-se ‘15/8’ e a faixa 6 intitula-se ‘10/16’. Têm algum significado especial e que possas desvendar?
Estes títulos são muito fáceis de explicar, são compassos musicais que usei nestes temas. Foi uma brincadeira.
Tens convidados neste disco. Porquê a escolha de cada um deles?
Em primeiro lugar tive de escolher os músicos para formar a banda base do álbum. Tive a preocupação de escolher músicos do Alentejo de forma a mostrar a qualidade que existe por aqui. Foram eles Mário Lopes (bateria), Rodrigo Lino (Sax), João Baião (Guitarra) e o pianista Sérgio Rodrigues de Lisboa.
Relativamente aos convidados começo pela Mara. Para mim seria imperativo a sua participação pois para além de a considerar uma grande amiga, considero também que é uma das grande vozes do nosso pais.
Seguidamente convidei o Rui Gonçalves que se revelou muito importante no meu gosto musical pois foi ele que me despertou o interesse pelo jazz. O Rui é natural de Estremoz como eu e é um dos maiores músicos que conheço. Nasceu para ser músico.
A Joana convidei por vários motivos, mas o principal foi para que as pessoas pudessem ouvir o seu timbre e conhecer o seu gosto único. A Joana também é do Alentejo.
O Jean Marie é um musico incrível que conheci numa tour que fiz pelo Mediterrâneo com a orquestra do Festival Sete Sois e ficámos amigos. O tema “Tanão” compus de propósito para ele.
A Soukaina é uma cantora Marroquina que conheci este ano também no festival sete sois e com quem toquei pelo Mediterrâneo, África e Ásia. É uma cantora surpreendente com uma capacidade de improvisação fantástica. Foi a ultima a ser convidada numa fase em que o disco esta praticamente feito.
O Nilson Dourado foi chamado para o tema “Brasiu” que é a sua cara, tocou o bandeiro brasileiro e percussões. O Nilson é para mim o significado de mistura entre o Brasil e Portugal.
O Carlos Leitão escreveu as três letras do álbum e ficarei para sempre agradecido, pois ninguém me conhece melhor do que ele.
O Rui Nuno foi o declamador de uma das letras que fala do Alentejo, o tema “Tibi”.
Porquê ‘Groove Grooving’ como nome deste disco?
Porque todo o disco tem frases de groove de baixo e pareceu-me adequado.
O que tem este disco do teu Alentejo?
Tem tudo. Músicos, foi gravado inteiramente no meu estúdio ao ritmo do Alentejo, que por vezes é extremamente rápido ao contrario do que se pensa, e ao mesmo tempo, lento para pensar e repensar os arranjos.
A Câmara de Évora tem também papel importante neste disco. Qual e como tem sido esta relação?
A Câmara de Évora foi a grande responsável pela concretização do disco, sem ela seria muito difícil, mas também tenho de agradecer à Direcção Regional da Cultura do Alentejo, pois eles também acreditaram neste sonho.
Sendo a música a tua vida, é mais confortável estar em palco com um projecto teu ou a acompanhar outro artista?
Um palco requer sempre o melhor de nós, para dar esse melhor é preciso estudar todos os dias e manter as nossas capacidades. Com um projecto meu eu sei exactamente que pretendo musicalmente, com outro artista tenho que entender o que se pretende. A única diferença é que quando é um projecto meu sou eu a dar a cara e por vezes torna-se mais complicado. Uma máxima que eu uso diariamente na música, o músico está ao serviço da música e nunca ao contrário, quando os papeis de invertem acontecem desgraças.
Ao longo do teu percurso tens passado por vários géneros musicais. Qual o mais desafiante?
Nunca me coloquei essa questão, mas por varias vezes penso qual é o meu papel como músico. Sou músico de quê? Onde me encaixo? Fado, jazz, pop, étnico, erudito etc. E houve alguém que me respondeu, “é fácil, és musico”. Considerando esta minha versatilidade por vezes é difícil encaixar num género, respeito muito a música. Actualmente toco muito fado e gosto bastante. Tento sempre respeitar a linguagem tradicional o que é muito desafiante, exige contenção e saber escolher a nota certa para o tempo certo.
Quem é Carlos Menezes fora da música e o que mais gosta de fazer?
Sou uma pessoa tranquila, realizada e agradecida à vida. Sou pai orgulhoso de duas filhas gémeas, marido de uma mulher fantástica, filho de pais orgulhosos e irmão mais novo. Gosto de passar tempo com a família.
Onde podem as pessoas adquirir o disco ou entrar em contacto contigo?
Actualmente nas plataformas digitais. Eventualmente na Fnac.
