Fred Martins apresenta o novo disco e fala sobre o momento político no Brasil

“Para além do muro do meu quintal” é o novo disco de Fred Martins que o gravou em Portugal, sendo também o seu primeiro trabalho lançado na Europa. Em entrevista ao Infocul.pt fala-nos um pouco do disco, do seu percurso e também da actualidade politica no Brasil.

 

Fred Martins é um cantor e compositor fluminense que teve algumas das suas obras cantadas por nomes maiores da cultura brasileira como Zélia Duncan ou Ney Matogrosso. O nome deste seu mais recente disco é extraído do poema Noite de São João da autoria de Alberto Caeiro, heterónimo de Fernando Pessoa.

 

 

O disco conta com onze composições, a produção musical está a cargo do açoriano Paulo Borges e conta com duas participações muito especiais: Nancy Vieira e Renato Braz. Neste disco o cantor juntou as suas composições mais emblemáticas e também as que que escreveu para serem cantadas por grandes nomes da musica brasileira, quase que um Best Off.

 

 

Com um percurso já firme no Brasil, quando começou a ser preparado este primeiro disco na Europa?

 

Em 2009 participei do festival Cantos na Maré, em Pontevedra, cujo director musical é o pianista açoriano Paulo Borges. Tivemos uma boa interacção musical e ao fim de algumas conversas o Paulo trouxe a sugestão de que seria interessante apresentar o meu trabalho ao público português (já um desejo meu antigo). Passei um tempo envolvido em outros projectos e em 2012 senti que havia chegado a hora de levar a cabo a ideia do cd. Convidei o Paulo Borges para trabalhar comigo na produção deste disco que foi maioritariamente gravado em Lisboa.

 

 

Já teve composições suas interpretadas por alguns dos maiores nomes da música brasileira. Como surgiu essa possibilidade e como sente ao ver o seu trabalho valorizado por alguns dos maiores artistas da música brasileira?

 

Surgiu de maneira muito natural. O primeiro artista já consagrado a gravar uma canção minha foi o Ney Matogrosso. Ele queria fazer um disco (que se chamaria Olhos de Farol) dedicado a novos autores e pediu à Lucina que o ajudasse na garimpagem das canções. Lucina conhecia bem o meu trabalho e pediu-me uma fita cassete com algumas músicas para encaminhar ao Ney. Ele escolheu a canção Novamente. Desde então vários outros artistas passaram a gravar canções minhas. É sempre uma alegria quando um colega criterioso elege para si uma canção que fiz.

 

 

 

“Para Além do Muro do Meu Quintal” é o nome deste novo disco. Questiono quando começou a ser preparado e qual a principal mensagem do disco?

 

Começamos os trabalhos em 2012, e pelo facto de eu não morar em Portugal, além de viagens e o envolvimento em outros projectos, o cd somente foi finalizado no início de 2015.

 

A ideia é a quebra de fronteiras que está presente neste trabalho, desde o Título: “Para Além do Muro do Meu Quintal”( Verso de um dos Poemas In conjuntos, de Alberto Caeiro, que musiquei). Esse disco capta um momento em minha trajectória que se inicia em 2010, quando vim morar na Espanha. Nele participam músicos com os quais tenho travado contacto neste período. Com eles estão presentes instrumentos que ainda não imaginara em meus arranjos, como o acordeão diatónico, o cümbüs (da turquia) ou mesmo a guitarra portuguesa (neste caso tocada também com o arco). Neste trabalho pude exercitar a capacidade de universalidade comunicativa própria da linguagem musical. Músicos de várias nacionalidades ajudaram a vestir as canções (que sempre me parecem muito brasileiras) sem que resultasse em fácil exotismo. Creio que pude retomar na Península – em Portugal com mais ênfase – o fio matricial de algumas expressões sonoras e poéticas que formam a base da música popular brasileira. 

 

 

Como tem sido até agora a reacção do público?

 

O público em geral tem sido bastante generoso na recepção ao meu trabalho, e sinto que em Portugal isso acontece de forma mais intensa. Há aqui intimidade com a música brasileira. É muito bom constatar que a referência da música brasileira de qualidade ainda está muito viva em Portugal (talvez mais que no Brasil de hoje), e que o público reconhece e valoriza o trabalho que segue esta trilha.

 

 

O que está a ser preparado para a apresentação do disco em Portugal? Já há datas que possa revelar?

 

Haverá a apresentação do disco no dia 11 de maio, no B.leza. Logo em seguida irei ao Brasil, mas há planos para uma tour portuguesa no último trimestre deste ano.

 

 

O Brasil atravessa neste momento um período conturbado. De que modo a industria musical e a cultura em geral são afectadas?

 

De facto vêm acontecendo coisas que minha geração ainda não tinha visto. É mesmo preocupante. A estrutura social do Brasil foi e é violenta e excludente desde o começo e naturalmente isso gera uma série de conflitos pesados. Mas é novidade pra mim presenciar nas atitudes e discursos, nas redes e nas ruas, tamanha e desavergonhada expressão de ódio por questões de classe, raça, género ou preferência política. Creio que aqui o problema do monopólio mediático no Brasil cobra a sua factura. Umas poucas famílias controlam os principais canais de comunicação social do país e acabam por pautar, segundo seus critérios e interesses, os temas que devem ganhar corpo (e em que termos devem ser discutidos) na sociedade. É o que vêm fazendo da forma mais irresponsável nesse exacto momento estes mesmos grupos  de comunicação: Estão em franca campanha política para defender seus interesses privados e de seus parceiros, deitando ao chão legalidade e princípios democráticos. Infelizmente o discurso maniqueísta e a fomentação de ódio são parte da estratégia. 

 

No plano geral os efeitos disso ao longo das últimas 4 décadas foram avassaladores em termos de empobrecimento cultural. Com uma programação padronizada a níveis decrescentes em criatividade e informação relevante, rádios, tv’s e jornais deixaram de pautar o que seria mais representativo na produção musical/cultural no país. Nesse contexto o grande público é privado do acesso ao que há de melhor no Brasil. Então, fora da grande Mídia, na internet e em salas de circuitos alternativos, passa a circular de modo residual e marginal toda uma variada gama de expressões culturais próprias de um país tão grande quanto diverso.

 

 

Como se encontra neste momento a industria musical no Brasil?

 

Com o fechamento da indústria convencional para projectos de envergadura artística (faz tempo que a indústria da música abandonou a música), outros esquemas de circulação já se desenham. Músicos e público passam a estabelecer um contacto mais horizontal, basicamente através da internet. Pequenos selos discográficos e distribuidoras independentes também cumprem papel importante para a promoção musical. Já há alguns anos grandes nomes da nossa música como Chico Buarque, Maria Bethânia por exemplo, migraram de majors para selos menores. Para os que estão chegando esse passa a ser o caminho natural.

 

 

Está prevista alguma parceria musical, com base neste disco, com algum artista português? Se sim, qual?

 

Além do Paulo Borges, que assina produção musical do cd, participou também a cantora Nancy Vieira (cabo-verdiana que vive em Lisboa há muitos anos).

 

 

 

Uma mensagem para o público português?

 

 

Desejo que o lançamento deste trabalho seja o início de uma relação crescente e duradoura com a cultura, os músicos e o público português. Tenho já aqui amigos queridos e imenso carinho pelo país.


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