
Miguel Gameiro actuou este sábado, 15 de Setembro, no Auditório Municipal Augusto Cabrita, no Barreiro. Um espectáculo inserido na digressão do seu mais recente disco, Maria, tendo o Infocul apresentado a reportagem desse espectáculo. Antes de subir a palco, Miguel Gameiro falou ao Infocul sobre o disco, a digressão, a emancipação das mulheres e também sobre a sua paixão pela cozinha.
O disco ‘Maria’, editado a 8 de Março, é uma homenagem às mulheres e conta com vários duetos de Miguel Gameiro com Katia Guerreiro, Cuca Roseta, Mariza, Ella Nor, Mafalda Veiga, Rita Marrafa de Caravalho, Fátima Lopes, Miss Lyl e a participação especial de Helena Sacadura Cabral.
Miguel Gameiro começou por nos dizer que “mais do que uma homenagem é uma celebração”, sendo que “ao longo destes anos as ideias vão-me surgindo, em momentos diferentes da minha vida, e chegam aquelas alturas em que eu decido ‘É agora que eu vou avançar para isto!’. E já algum tempo a esta parte que eu tinha esta vontade de fazer um disco que fizesse esta celebração da mulher, pelo facto de já ter composto para muitas mulheres, de ter cruzado o palco com muitas mulheres, também da influência que algumas mulheres tiveram na minha vida, nomeadamente a minha mãe e a minha avó. E quis de facto que este disco fosse a celebração da mulher, ‘Maria’, que foi editado no dia 8 de Março, deste ano, o dia da mulher”.
Revela que o disco tem tido “aceitação muito positiva”, destacando o facto de “fazer alguns duetos inesperados, eventualmente o mais conhecido neste momento será o dueto que tenho com a Mariza, “O Teu Nome”. Mas tenho muitos duetos, com Mafalda Veiga, Katia Guerreiro, Susana Félix, entre outras”. Em palco “o que eu tento fazer nestes espectáculos é conciliar um bocadinho esses dois mundos: o disco novo, as canções novas, canções novas que são canções que eu acabei por reformular e que fizeram parte dos meus álbuns a solo. Mas o espectáculo é isso mesmo, são as canções deste disco e as canções que eu fui compondo ao longo dos anos e que fizeram também parte da setlist dos Pólo Norte, durante muito tempo”.
Sendo este disco uma celebração da mulher, fiz uma breve provocação a Miguel Gameiro e questionei que Maria seria ele, caso fosse mulher. Perante risos disse que “seria uma Maria porreira”.
Quanto ao espectáculo no Barreiro, relembrou que “este concerto faz parte de um ciclo e concertos que eu faço em auditórios e teatros, este ano. Mas tenho tido uma tournée bastante grande este ano, tocando em festas de algumas cidades. E acabo por ir conciliando, porque o espectáculo acaba por ser um bocadinho diferente, apesar do alinhamento ser até muito semelhante, o espectáculo em si acaba por ser muito diferente. Aqui é tudo mais intimista, mais próximo, consegue-se perceber tudo melhor, há menos efeitos, há menos luzes, há menos distracções das pessoas também, as pessoas estão mais atentas. Aqui, também só vem quem realmente quer e gosta da minha música. Às vezes ficamos com a sensação que quando são aquelas grandes festas, as pessoas vão porque é dia de festa. Até podem conhecer e gostar mas a entrega nunca é a entrega total, igual a um concerto em que pagam bilhete, porque gostam das músicas e das palavras que são cantadas. As coisas têm corrido bastante bem com este álbum”.
Sobre a emancipação e o actual papel das mulheres na sociedade, diz que “o papel das mulheres, nas sociedades mais avançadas, é hoje em dia completamente distinto. Voltamos aqui uns anos atrás e o papel da mulher era muito mais redutor do que aquilo que é hoje em dia. O que eu acho é que ainda continua a haver muito preconceito e esse preconceito é parte da condição humana. A condição humana assim o determina. O preconceito existe e irá continuar a existir, sempre, na igualdade. Quando falo na igualdade falo relativamente a tudo. Portanto eu acho que isso vai continuar a existir”. Acrescentou ainda que “nas sociedades mais desenvolvidas a mulher tem conseguido atingir o seu lugar e aquilo que lhe é permitido, dentro da sua condição. Porque, de facto, a sua condição não é igual á condição do homem. Porque mulher tem sempre o papel de mãe que depois vai entrando ali sempre em conflito com a sua situação profissional, sendo mais difícil de gerir, portanto há sempre essa dificuldade, mas eu acho que o papel das mulheres tem sido cada vez mais aquilo que deve ser, um papel igualitário”.
Além de músico, Miguel Gameiro é Chef. Sobre esta sua, outra, paixão, diz que “tem sido uma viagem gira, essa área nestes últimos dois/três anos tem crescido imenso. Eu fiz o meu curso, há oito anos, na Escola de Hotelaria do Estoril, depois estive três meses em Paris, depois fiz estágios, no inverno, em alguns restaurantes do país, com estrelas Michelin. E sempre que posso, ainda agora estive na Holanda duas semanas a estagiar, é uma coisa que eu gosto de fazer. Eu faço-o, mas quando comecei as coisas não tinham esta dimensão. Tornou-se quase uma moda e eu até falo muito pouco nisso para depois não dizerem ‘epá este agora também é cozinheiro’, e então gosto mais de fazer e menos de falar. Mas é uma área que eu gosto muito, é uma forma que eu tenho também de partilhar com os outros aquilo que eu tenho para dar. A mesa, no fundo, acaba por ser um concerto mais pequenino mas não deixa de ser, também, uma partilha”.
A conversa foi rematada com uma tirada quase poética “a comida também pode ser emocional, também transmite emoções, tal como a música e é uma coisa que me dá muito prazer, cozinhar”. Revelou ainda que “nunca” criará uma cadeia de restaurantes e que o objectivo é “criar cada vez mais coisas distintas, pequenas e pessoais”.
