
A tauromaquia é uma área artística que engloba vários talentos. Nem só de toureiros, campinos, forcados, bandarilheiros, ganadeiros ou maioriais vive a festa brava. Quem a capta, tornando-a assim eterna, é também parte integrante.
O fotógrafo Pedro Batalha celebra, em 2020, 25 anos de dedicação à fotografia tauromáquica e concedeu uma entrevista ao Infocul.pt.
Tarde quente em Vila Franca de Xira. Dirigimo-nos à Tertúlia Naturales, na qual Pedro guarda um valioso espólio com fotografias suas e outros materiais. A tertúlia junta a simplicidade arquitectónica e a grandiosidade de alguns elementos ali expostos.
Pedro abriu-nos a porta e recebeu-nos, na companhia do seu pai. Conversámos durante duas horas. Quase sempre sobre touros e tudo o que envolve este meio.

A 5 de Agosto de 1995, na Praça de Touros de Setúbal, foi a primeira vez de Pedro Batalha a fotografar touros. Mas “o gosto é desde muito pequenino, que sou um amante e apaixonado pelos touros. Comecei a filmar nos anos 80, em Vila Franca filmei tudo o que era corrida de touros, tenho lá os VHS, e as K7 das corridas. Depois, a paixão da fotografia tornou-se uma realidade nos anos 90. Ainda andei nos forcados de Vila Franca, nos juvenis, mas apenas por brincadeira, porque não tinha muita arte para pegar touros. Mas achei que deveria estar ligado aos touros e comecei a fotografar”, começou por nos dizer.
Explicou que “na altura, o bandarilheiro de Luís Miguel da Veiga, João Carlos Chambre, aqui de Vila Franca (eu estava muitas tardes com ele) e ele dizia-me “Pedro, um dia vais comigo e vais para a trincheira fotografar uma corrida de touros. Vejo que gostas disto!”. E combinámos. Foi desde aí que o bichinho ficou cá e para mim é uma paixão enorme”, recordando a data: “Isto foi em 1995, fez agora 25 anos no dia 5 de Agosto”.
A corrida ocorreu na Praça se Touros Carlos Relvas, em Setúbal, sendo o cartel constituído por Luís Miguel da Veiga, João Moura, Luís Rouxinol e João Salgueiro. Frente a 8 touros da ganadaria Pinto Barreiros, actuaram os forcados de Montemor e Lisboa.
Sobre quantas corridas de touros já fotografou, disse-nos não ter ideia, até porque “são entre 60, 70, 80, corridas por ano”, mas com a garantia de que já ultrapassou as 1000 corridas fotografadas.

Por entre as muitas histórias caricatas por contar, revelou-nos duas.
“A mais caricata é sempre que um touro salta [a trincheira], porque aquilo é uma adrenalina enorme. Uma cena engraçada ocorreu em Vila Franca, numa corrida com 6 touros Quinta da Foz, e na altura, era o Canário, o maioral da ganadaria. Penso que essa corrida foi de noite e o velho Canário disse-me, estava eu entre barreiras, “Pedro sai daí que este touro vai saltar”. E eu abalei. Sei que quando cheguei perto da porta dos cavalos, o touro já estava dentro da trincheira. Nessa noite, saltaram 3 touros. Essa foi uma das cenas caricatas”, antes de assumir que “tenho tantas… num ano inteiro, são umas atrás das outras”.
Mas lembrou-se de outra: “Tenho uma engraçada no Sobral [de Monte Agraço], na corrida em que Ana Batista teve um acidente. O António [Telles] e o Rouxinol depois tiveram de lidar o segundo touro dela, no fim. Com entrada do INEM e maca, a corrida prolongou-se, e no último touro já quase não havia luz. Esse touro investe e levanta o painel [tábua da trincheira] e eu e o Curro ficamos na cara do touro. As trincheiras daquela praça quase não têm espaço, o touro atira o painel ao ar e quando o painel volta a descer, o touro encara com o painel. Eu olho para o Curro e digo “agora o que fazemos?”. Eu abalo, os forcados de Coruche agarram-me e colocam-me em cima da trincheira e o Curro sai pelo buraco e manda o capote para a cara do touro. Foi uma adrenalina enorme e daquelas em que pensamos “é hoje que levas!”, não evitando as gargalhadas.
A tauromaquia acontece além das praças de touro, começando na labuta do campo. Daí, perguntei ao Pedro o que era mais desafiante: fotografar na praça ou no campo. “Epá, na arena nunca sabemos o que pode acontecer. Agora, o campo é a minha paixão. Se me derem a escolher ir um fim-de-semana para o campo fotografar ou ir a corridas e fotografar, se calhar prefiro o campo. Estar no campo e junto dos maioriais é uma coisa única. Tenho estado a contar as histórias na Catarina, e as pessoas têm perguntado muito. Há coisas que as pessoas desconhecem. E são giras pelo facto de as pessoas não saberem que elas existem”, referiu.

Mas poderia vir aí um livro com histórias da festa brava? “Poderia existir. Talvez nos meus 30 anos ou 50 anos de fotografia taurina. Gostava. Esse é o sonho que tenho”, confidenciou.
A tauromaquia tem actualmente muitos jovens a fotografar e a ganharem o gosto por esta arte, e Pedro Batalha assume mesmo que “há um leque imenso de jovens que são bons fotógrafos”.
Recorda que “antigamente era mais difícil entrar no meio. Na altura em que eu entrei, apanhei os ‘cotas’ todos. Tive dois grandes amigos que me ajudaram a entrar neste meio, que foram o Emílio e o João Trigueiros, do Burladero. Nessa altura era mais difícil entrar no meio. E actualmente há a facilidade das máquinas com cartões, em que aquilo que não presta podes apagar. Antigamente, com as máquinas de rolo tínhamos de ser muito mais selectivos, ter olho. Na altura, quando entrei para a revista Novo Burladero, o João Queiróz ensinou-me muito. Quando saíamos para corridas, o Bacatum ia connosco e também me ensinou bastante”.
Provoquei-o e questionei se actualmente havia mais fotógrafos ou disparadores e a resposta foi clara: “Há um leque de fotógrafos bons. Há alguns disparadores mas há um leque de fotógrafos bons. A tauromaquia está boa de saúde, neste campo”.
O facto de ser de Vila Franca teve influência no gosto pela tauromaquia, mas a família foi preponderante. “Influência teve, mas também vem de família. O meu avô era maioral, numa casa agrícola, e se calhar isto já nasceu mesmo comigo. Mas ser de Vila Franca também teve uma influência grande”, explicou.
Para os fotógrafos que não percebam de tauromaquia mas que queiram aprender a captar a essência desta arte deixa o conselho: “Para já, tem de focar-se no toureiro e no touro. Mas primeiro, tem de perceber um bocadinho o que é a tauromaquia. Isso é essencial. Chegar lá sem saber o que é tauromaquia, torna tudo difícil. Fotografar touros é muito difícil”.
Sendo natural de Vila Franca de Xira, terra onde as esperas de touros são marca cultural e identitária, Pedro Batalha revelou-nos que nunca foi colhido, até porque “gosto de lá estar a brincar, nos copos com os amigos, mas sempre à defesa”.
Já sobre a alcunha de Morante de Vila Franca [a lembrar Morante de La Puebla], disse-nos que “surgiu nos primeiros festivais que começámos a fazer no campo. Nós [fotógrafos] começámos a reunir-nos no final de cada temporada. A imprensa anda junta o ano inteiro, estamos praticamente mais tempo juntos do que com a nossa família. De Março a Outubro andamos nisto. Então nesse festival levamos as nossas famílias, que também merecem, e fazemos uma brincadeira em que na qual toureamos, porque também gostamos de o fazer. E nós que estamos a fotografar também nos sentimos toureiros. E ao fotografar estas artes é também sentires aquilo que está a acontecer dentro da arena. A primeira vez que toureei senti uma adrenalina e fiquei com a sensação logo de “quando vamos outra vez?”. É uma coisa fora de serie. Inexplicável!”.

E quando confrontado com a ideia de que os taurinos, apoiantes da tauromaquia, são violentos, disse-nos que “não somos nada violentos. Somos apaixonados. A tauromaquia é paixão, mas é mesmo uma paixão!”
Tem em mente celebrar “mais 25 anos, para chegar aos 50 anos de carreira. Mas ainda falta fazer muita coisa”.
Questionado sobre mensagens, acerca do seu trabalho, que o deixem emocionado, revelou-nos que “sim, há mensagens que me enviam e que ao ler no computador, em casa, me emocionam. Algumas de toureiros. Tenho uma que me emocionou imenso, foi uma reportagem que fiz para o mundotoro, sobre os touros do Paulo Caetano no Campo Pequeno, e em que no dia a seguir, o Paulo Caetano liga-me a dizer que a reportagem estava uma coisa fora de série. Eu respondi que o meu trabalho estava normal, mas nesse dia emocionei-me. O meu trabalho tinha tocado ao ganadeiro. Ele gostou imenso”.
Diz ser de poucas falas e que transmite melhor as emoções através da imagem. A fotografia é o escudo das suas emoções e também o veículo pela qual as transmite.
Disse-nos que “às vezes há corridas em que me emociono bastante porque estão lá amigos meus. Custou-me imenso a despedida do Vasco, do Platanito, do Caló, amigos meus da forcadagem, que me tocam. A do Vasco Pinto, de Alcochete, também. A do Amorim”.
Gostava de ficar conhecido como “romântico da festa, como “o fotógrafo Batalha”, para as pessoas recordarem”.
Entrevista e texto: Rui Lavrador
Fotografias: Rute Nunes & Carlos Pedroso
