
‘Tempo’ é o nome do mais recente disco de Rodrigo Costa Félix. O fadista concedeu entrevista ao Infocul.pt para abordar o processo criativo deste disco, a escolha de repertório e também falar um pouco de si.
A produção do disco ficou a cargo de Rodrigo Costa Félix e Tiago Torres da Silva. O fadista foi acompanhado por Henrique Leitão (guitarra portuguesa), Miguel Ramos (viola de fado) e Paulo Paz (contrabaixo). Conta ainda com as participações de Tiago Machado, Pedro Jóia e Jon Luz.
‘Tempo’ é o nome do teu mais recente disco. A que tempo se refere?
É um disco que reflecte o meu tempo de agora, a forma como me vejo, me assumo como artista, como homem, marido, pai. É também o tempo que demorei a pensá-lo, a reunir os versos que fui escrevendo, a idealizar a mensagem que queria transmitir com este trabalho.
Além de letras da tua autoria, este disco conta com poemas de Tiago Torres da Silva, José Fialho Gouveia, Vasco Gato e António Aires Mateus. Também esta escolha revela uma aposta no conhecimento que alguns deles têm sobre ti?
No caso do Tiago, sem dúvida. É uma colaboração que não é de agora, já nos conhecemos tão bem que o diálogo criativo é sempre estimulante e produtivo. Ele sabe com que tipo de poesia me identifico mais, as temáticas de que gosto, etc. Ao Zé Fialho pedi um tema sobre Lisboa e ele ofereceu-me este “Lisboa é Assim”, que é um retrato incrível desta cidade maravilhosa, cosmopolita e multicultural que tanto me fascina. A música do Luiz Caracol – um fado-morna-samba – assenta-lhe como uma luva! O Vasco Gato foi-me apresentado pelo Tiago Torres da Silva e conseguimos, entre os três, que o seu “Obscura Sina” se transformasse num Fado extraordinário, abrilhantado pela música e interpretação do Tiago Machado. “Terra Nossa” foi um poema que o meu pai (António Aires Mateus) escreveu há anos e que sempre adorei. Antes de nos deixar, há pouco mais de 1 ano, consegui dizer-lhe que o gravaria neste disco. Sei que está feliz por isso. E eu também.
Numa publicação nas redes sociais, revelaste que este era o teu disco mais pessoal. De que forma te revelas neste disco?
Principalmente e naturalmente pelos versos que escrevi, que neste disco são metade dos temas que gravei. Eles são fruto de experiências, sensações dos últimos anos. Amores, desamores, alegrias, tristezas, vida. O fado é isso, a nossa vida, as nossas emoções retratadas numa canção. Mas também pelos poemas que escolhi de outros autores. Porque me identifico muito com todos, pessoal e artisticamente. Depois porque há temas que pediram de mim uma outra abordagem, outra atitude, outro tipo de interpretação. Mais recato, mais introspecção, mais sensibilidade.
Nessa publicação abordaste o tempo que demoraste a sonhá-lo, pensá-lo e prepará-lo. Quanto tempo demorou e como foi todo o processo?
Muito! Cerca de dois anos. Entre a recolha de repertório – que é todo original – o amadurecimento dos temas, o contacto com poetas e compositores, enfim, tudo feito com tranquilidade, sem pressas. Porque nunca senti aquela necessidade de gravar de dois em dois anos, como muitos artistas sentem. O “Fados de Amor” é do final de 2012. Eu compreendo que devemos, precisamos de estar regularmente a recordar as pessoas que existimos, mostrar-lhes que continuamos a criar, a actualizar repertório. Mas eu nunca senti que isso para mim fosse fundamental. Para mim o Fado deve, sempre que possível, escutar-se ao vivo. Um disco de Fado é sempre uma meia-verdade, o contrariar da essência do que é uma música que vive do instante, do improviso, da intuição e da espontaneidade. Por isso deverá ser, na minha opinião, o menos artificial possível, para que se consigam sentir os diálogos entre cantor e músicos, aqueles momentos de criatividade que são fundamentais. O Fado vive dessa troca de energia entre quem toca, canta ou mesmo quem nos ouve.
Dos 12 temas que integram este disco, qual o mais pessoal ou pelo menos aquele que melhor te descreve?
Não consigo escolher um. Identifico-me muito com todos. Talvez uma parte substancial de mim seja o somatório de todos eles.
És um homem com ‘sangue frio’?
Nem pensar. Completamente latino, vivo com o coração ao pé da boca, sou emotivo, abraço muito, rio e choro muito. Frio só o vinho branco. [sorri]
Costumas cometer muitos ‘Enganos’?
Claro que sim! É a única forma de crescer, de evoluir. Aprender com os nossos erros é fundamental para seguirmos tentando ser cada vez melhores.
‘Lisboa é assim’ é a terceira faixa deste disco. Que Lisboa retratas aqui no disco?
Uma Lisboa de agora, cosmopolita e multi-cultural, mas que não perdeu a alma, o lado mais castiço, mais puro que nos inspira e apaixona a todos. É uma Lisboa que é feita de muitos mundos, mas que é ela própria um universo à parte. Não admira que tantos e tantos turistas a queiram agora conhecer e sentir, porque é de facto uma cidade única, especial.
Em quem te inspiraste para escrever a letra do tema ‘Mais que tu’?
Isso fica no segredo dos Deuses do Fado. [sorri]
Relativamente ao tema ‘Não digas nada’, podemos entender que há silêncios que são mais esclarecedores do que muitas palavras?
Sem dúvida. O silêncio é imprescindível para nos escutarmos a nós próprios, à nossa alma, como digo nos versos. Esclarece muitas dúvidas, ajuda a pensar, a colocar as coisas em perspectiva, a meditar…de preferência numa noite de céu estrelado na planície alentejana.
O que existe ‘pra lá de cada beijo’?
Como diz o Tiago, “há um mundo que eu não vejo”. No fundo existem todas as emoções, sensações invisíveis que nos fazem sentir vivos. Dor, dúvida, alegria, paixão, medo…” acho que isso é que é Amor”.
O que revela esta ‘Obscura sina’ sobre ti?
Penso que todos nós já tivemos momentos na nossa vida em que nos sentimos sem norte, em que maldizemos a sorte e julgamos que tudo nos corre mal, que a nossa sina é obscura. Sou um optimista por natureza, mas obviamente já me senti muitas vezes a trautear “a morte em surdina”. É humano. Mas como diz o Vasco Gato, não entender a lei do coração e limitarmos-nos a sentir é a lição que devemos tirar da vida.
‘Vieste tarde’. Quem é que lamentas que tenha chegado tarde à tua vida?
No caso destes versos, quem chegou tarde à minha vida – “sem alma, sem carinho, apenas solidão” – acabou também por sair dela demasiado tarde [sorri] Acontece-nos a todos encontrar pessoas que acabam por nos trazer apenas angústia e ilusão. Mas é assim que se aprende. São também estes momentos que nos estimulam a criatividade e vontade de escrever.
Estamos numa fase de pandemia e com isso todo o mundo artístico, e não só, parou. Já consegues ter ideia dos prejuízos financeiros que terás devido a esta situação?
Consigo ter uma ideia de prejuízos imediatos. Tive vários concertos cancelados em Março, tive de adiar os concertos de Abril no Sá da Bandeira e no Tivoli BBVA, entrevistas canceladas, casas de Fado fechadas…enfim, o panorama não é nada bom. O pior é que não sabemos quanto tempo durará esta crise e mesmo que termine depressa, os efeitos que está a causar, demorarão muito tempo a sarar. Uma coisa positiva que vejo é a união de toda a comunidade de músicos e artistas, que têm criado iniciativas solidárias originais a alertar a população não só para as atitudes corretas a adotar durante este período, mas também para a situação difícil que esta convulsão criou a muitos de nós. Somos sempre os primeiros a oferecer a nossa arte a todo o tipo de causas solidárias. Agora que estes mesmos artistas se encontram numa situação extremamente difícil, seria bom que surgissem projetos em prol dos casos mais complicados.
A questão da precariedade da classe artística tem estado em destaque. O que poderá ser feito para que estas situações sejam evitadas?
A cultura foi talvez o primeiro sector da sociedade a ser afectado por esta crise. Sempre que solicitados, os artistas são incrivelmente solidários. Penso que deveria haver, por parte do governo, um maior cuidado e atenção para com estas situações, nomeadamente aumentando o apoio dado a quem esteja a recibos verdes, que têm menos protecção. Também já seria tempo de haver uma organização que protegesse e defendesse a classe, que zelasse pelos seus direitos. Há situações demasiado precárias que infelizmente a opinião pública não só desconhece como normalmente desvaloriza.
Para quem quiser adquirir o disco, onde poderá fazê-lo?
Para já, dada a situação em que nos encontramos, a partir de dia 20 o disco estará apenas disponível nas plataformas digitais. No futuro, colocarei o disco em algumas lojas, como a do Museu do Fado, por exemplo. Pontualmente nas lojas FNAC onde conto fazer showcases, mas não será distribuído por todas, pois decidi não fazer um contrato de distribuição. O que irei fazer será colocar o disco à venda no meu site (www.rodrigocostafelix.com) e no da minha agência, a Fado World (www.fadoworld.com) , que depois será enviado directamente para casa. Muito fácil e cómodo [sorri]. Para além disso, disponibilizarei também nos dois sites o booklet do disco para que quem o ouvir nas plataformas digitais possa ter acesso aos poemas, ficha técnica, etc.
Em termos de redes sociais, qual o tempo que lhes dedicas para interagires com quem segue o teu trabalho?
Neste momento de isolamento, dedicarei naturalmente mais tempo do que o normal. Mas costumo ser relativamente activo nas redes sociais e tento manter o meu site e páginas oficiais actualizados. A minha mulher, Rita, também me tem ajudado bastante nessa tarefa. Mas sou muito pronto a responder quem me contacta por essa via. De resto, aliás, tenho páginas no Facebook, Instagram, LinkdIn, YouTube…para além do site, claro. É fundamental os artistas estarem presentes nas redes sociais. Cada vez mais é aqui que se dão a conhecer, até porque os discos se vendem cada vez menos. É um novo mundo a que temos de nos adaptar. [sorri]
Alinhamento:
– Sangue Frio
– Enganos
– Lisboa é Assim
– Mais que Tu
– Não digas Nada
– Obscura Sina
– Pra lá de cada Beijo
– Redondilha
– Sem fim
– Tempo
– Vieste tarde
Tema extra: Terra Nossa
