
Sofia Ferreira é fadista, natural da Madeira e lançou um dos melhores discos da música portuguesa em 2019. Aproveitámos tudo isto para uma conversa na qual nos falou de si, das tradições natalícias, do Natal na Madeira e respectivas tradições e, claro, sobre o disco que editou este ano e sobre o qual aqui apresentámos apreciação.
Sofia, como vive esta quadra festiva do Natal e do Ano Novo?
Esta época é sem dúvida para mim a mais festiva de todo o ano, confesso que o Natal e Ano Novo são dias muito especiais para mim desde pequenina, é uma época que começo a preparar quase meio ano antes.
Sendo, a Sofia, natural da Madeira, há algumas tradições muito próprias da ilha. Quais as que mais destaca?
Existem de facto muitas tradições na ilha, mas muitas vezes distintas de famílias para famílias, na minha família existe a tradição da confecção dos licores, aos quais começamos a preparar, alguns, cerca de 6 meses antes. Outra das tradições que não dispenso é sem dúvida a típica carne de vinho e alhos e o cacau bem quente logo pela manhã do dia de Natal, carne que já é preparada com cerca de 1 semana de antecedência em uma panela de barro para apurar todos os sabores típicos.
Um dos destaques, nesta altura do ano, na Madeira são os Presépios e há também um termo muito próprio: ‘Lapinha’. Para quem desconhece, o que é?
A lapinha é um típico presépio que em muitas casas encontramos em forma de escadinha, mais pequenino, com os típicos animais e as figuras principais de um presépio, na lapinha também é hábito colocarmos fruta como oferta ao menino Jesus principalmente as nossas tangerinas, que são quase obrigatórias nesta época. Confesso que não tenho por hábito em minha casa fazer a lapinha assim como não era hábito da minha mãe nem da minha avó, mas quase em todos os concelhos e freguesias existe um grande presépio ou lapinha e faço questão de visitá-los acompanhada da minha filha e marido, existem presépios que são verdadeiras obras de arte e levam meses a ser elaborados.
O que são as Missas do Parto?
As missas do Parto ou Novenas, como muitos chamamos, são realizadas em celebração da gravidez da Virgem Maria até ao nascimento de Jesus, até ao parto tal como o próprio nome o diz. Na verdade são verdadeiras festas que começam com uma missa típica e depois se reúnem centenas de pessoas, nos adros de cada paróquia logo pela madrugada 5h/6h da manhã, é um derradeiro convívio onde se partilham entre todos bolos, licores, broas tudo, onde se canta e dança, daqueles ambientes que não dão espaço à tristeza e só se celebra a alegria típica desta época.
A Sofia é mãe. Houve alguma mudança na forma como vive o natal?
Nenhuma, tal como disse anteriormente esta época é para mim a mais especial, única diria mesmo, vivo-a como uma criança e passo isso à minha filha que já prepara tudo comigo também e já tem o mesmo gosto, tudo me encanta nesta época, não sei se sou só eu mas até o cheiro do Natal para mim é diferente, a alegria é diferente.
Quais as memórias que tem do natal na sua infância?
As memórias são as melhores, tive a sorte de nascer num ambiente familiar incrível, éramos 9 em casa, comigo viviam tios e primos, pai, mãe e irmão numa rua onde quase todos éramos família e mesmo os que não eram passavam a ser, uma rua onde todos se conheciam, onde todos nós nos juntávamos assim como nas missas do parto, a noite de 24 e a noite de 31 eram vividas como se não houvesse amanhã, o que mais me recordo eram as portas das casas nunca se fechavam fazíamos questão de mantê-las abertas e nunca paravam de entrar e sair pessoas, família, vizinhos, amigos era uma correria linda, daquelas que me recordo com muitas lágrimas de saudade, nostalgia e alguma tristeza pois hoje em dia já quase nem conhecemos o nosso vizinho, onde tudo se faz a medo e com desconfiança, na minha infância não era assim.
Houve muitas mudanças na forma como se vivia o natal e o vivemos actualmente?
Exactamente o que expliquei anteriormente, mantenho muitas tradições mas não todas como gostava, mantenho a ceia de Natal em família, junto daqueles que amo, a noite de Final de Ano igual mas infelizmente não há a cumplicidade com o próximo como havia na minha rua de infância, infelizmente não posso deixar a minha filha correr livremente com os amigos e com os primos como eu fazia. Hoje há mais perigo, há carros em todos os sítios, há menos respeito pelos outros e há muito menos alegria.
Como vê o excessivo consumismo nesta altura do ano?
Acho um absurdo, claro que entendo que no Natal se queira fazer algo mais ou algo diferente na consoada nas festas, mas acho que hoje em dia compramos muitas prendas ou muito do que é mais caro só porque sim, só por querer mostrar que podemos mais que o outro. Acho que o Natal é das crianças e mesmo assim devem ser dadas lembranças, não montanhas de prendas, até porque as crianças hoje gostam, amanhã já não.
Em termos gastronómicos o que mais destaca da Madeira nesta quadra festiva?
Sem dúvida a carne de Vinho e Alhos.
Quais as iguarias a que não resiste mesmo?
Não resisto a um bolo de mel cheio de fruta, não resisto mesmo, tento mesmo mas não dá [risos].
Gosta de confeccionar ou prefere a parte de saborear?
Adoro cozinhar, desde bolos a pão, a pratos principais, tudo. Na cozinha sou eu e mais ninguém, não gosto de ninguém a mexer nas minhas panelas, em nada e nesta altura gosto de fazer tudo, o pão, a carne vinho de alhos, as sobremesas, o prato principal sempre diferente, com cheiro a Natal, tudo. Se eu não o fizer para mim não é Natal.
Por norma como é a vossa noite de consoada?
Desde o momento que casei que passou a ser em minha casa, a família reúne-se ao final da tarde, lanchamos, jantamos, fazemos a ceia tudo até madrugada, jogamos as cartas, brincamos tudo.
Costumam esperar pela meia-noite para abrir os presentes ou não?
Sempre. Essa é uma das coisas que nunca prescindo, é uma tradição que mantenho mas confesso que custa esperar [risos] mesmo, eu sou daquelas pessoas que gostam de espreitar, não resisto [risos] ou então vou dando dicas às pessoas das prendas que comprei [risos].Ansiedade mata-me [risos].
Espiritualmente como vive esta quadra?
Com muita, muita alegria e sempre a dar o melhor de mim.
É uma mulher de fé?
Tenho muita fé, mesmo nos dias menos bons.
Qual a importância da fé na sua vida?
Para mim fé e esperança andam de mãos dadas na nossa vida e na falta de uma delas nada dá certo, nada funciona. É como viver sem objectivos, sem ideais.
Qual a mensagem que devemos reter do natal?
Custe o que custar devemos olhar para a vida com amor, com esperança que o amanhã será melhor, que o nosso maior dever é sermos felizes com aquilo que temos e agradecer sempre, todos os dias pelos minutos, dias vividos.
O que é ‘A Noite do Mercado’ que acontece a 23 de Dezembro, ou seja hoje?
A noite do mercado é uma noite que acontece sempre, hoje, dia 23 depois das 20h, mais ou menos, é uma tradição muito antiga e cada vez mais popular, lembro-me desta noite desde que me sinto gente [risos], é uma noite de “borga”, amigos, canja em canecas, poncha, música e milhares de pessoas em volta, rever os que já não encontramos há séculos, esquecer as intrigas, as maldades e bebermos um copo juntos, comprar fruta e verdura típica do Natal às tantas da noite, sentir os aromas diferentes dos pinheiros, das frutas das flores que são vendidas nas ruas do mercado, isso para mim é a noite do mercado.
Não quero deixar de abordar o seu disco que saiu recentemente. Como tem corrido em termos de aceitação por parte do público?
A Aceitação tem sido maravilhosa, muito acima das minhas expectativas, é disco Rádio Amália, o que não estava nada à espera, foi uma prenda maravilhosa.
Tenho recebido críticas fantásticas tanto de cá da ilha como do berço do Fado, Lisboa. Tem sido uma bênção.
Sei que teve um espectáculo de apresentação. Como correu?
O espectáculo de apresentação foi na Ilha do Porto Santo no passado mês de Novembro. Quisemos que la fosse pois é uma ilha onde quase nada acontece e quisemos levar o nosso Fado até la. Tivemos uma adesão fantástica, o Centro de Congressos encheu e foi uma noite maravilhosa, agora temos dia 4 de Janeiro a apresentação no Funchal, no Teatro Baltazar Dias, que é o meu palco de sonho e estou muito ansiosa.
Para quando uma vinda ao continente para a podermos ouvir?
Tive o convite por parte da Voz do Operário para apresentar o disco fiquei muito emocionada e contente, no entanto estamos a tentar abrir mais caminhos no continente para termos mais apresentações e assim podermos juntá-las todas numa só viajem.
Para quem for à Madeira, onde a poderá ouvir?
Pontualmente estou na casa de Fados Sabor a Fado e em alguns palcos da ilha. Também canto em diversas Unidades hoteleiras é só me seguirem na minha página de Facebook/ Instagram
Quais os desejos para 2020 e o que haverá de novidades relativamente ao seu percurso profissional?
O meu maior desejo é de facto poder apresentar o meu trabalho em Lisboa, no berço do Fado, levar um pouco do que é meu e dar a conhecer o talento dos músicos que trabalham comigo também. As novidades é que temos espectáculos agendados na Suíça, Londres e Noruega e até mesmo fora da União Europeia o que é maravilhoso, mas de facto apresentar em Lisboa é o nosso objectivo.
Qual a mensagem que deixa aos nossos leitores?
Muito obrigada pela entrevista, foi emocionante partilhar todas estas experiências mesmo, relembrar a minha infância é sempre muito nostálgico para mim e é muito bom dar a conhecer e mostrar a alegria que toda a minha infância me deu.Obrigada. Beijinho grande!
