Beringel: Por entre o barro divino, o coração foi além do Cante, na tarde de ontem, em momento de profunda comunhão.
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Texto: Rui Lavrador
Fotografias: Diogo Nora
Os Sabores no Barro, em Beringel, foram ontem palco de um momento de rara beleza e profunda emoção. O Cante Alentejano, essa oração da terra, elevou-se aos céus, carregado de memórias, saudade e a força de um povo que nunca esquece as suas raízes. Como bem afirmou o presidente da Junta de Freguesia, Vítor Besugo, antes das atuações, este foi um dia onde a alma do Alentejo se fez sentir em cada verso entoado.
[Best_Wordpress_Gallery id=”7955″ gal_title=”SaboresNoBarro-2025-dia2-cantadorees-1″]Beringel foi o Altar do Cante
Subiram ao palco quatro grupos corais, cada um trazendo consigo séculos de tradição, histórias não escritas, mas guardadas nas vozes que as perpetuam. O Grupo Coral de Mombeja, o Grupo Coral e Etnografia da Academia Sénior de Serpa, o Grupo Coral e Etnográfico Vozes de Almodôvar e os Cantadores de Beringel, com a participação especial de António Caixeiro, ofereceram ao público não apenas um espetáculo, mas uma experiência de comunhão e identidade.
O público escutou como se cada moda fosse um eco dos tempos antigos, como se as vozes daqueles homens e mulheres fossem a voz dos seus antepassados a chamá-los de volta ao seu próprio chão. O silêncio reverente entre cada interpretação era a maior prova de respeito, quebrado apenas pelos aplausos carregados de gratidão e reconhecimento.
O verdadeiro luxo não tem preço
Ali, naquele instante suspenso no tempo, as dores e alegrias de gerações inteiras foram lembradas. As vozes, saídas do fundo do peito e da alma, trouxeram à vida as agruras do campo, os amores perdidos, as esperanças renovadas. O Cante não é apenas música – é a voz coletiva de um povo que resiste, que sonha, que canta para nunca morrer.
Dos mais jovens aos mais velhos, cada um entregou-se de corpo e alma, numa partilha genuína e quase sagrada, onde as emoções se tornaram palpáveis, entre lágrimas discretas e sorrisos nostálgicos. A cada verso entoado, mais fundo se gravava na memória de todos os presentes o compromisso de honrar e preservar esta herança única.
No repertório da tarde, desfilaram modas que são verdadeiros hinos à identidade alentejana: “Linda jovem era pastora”, “Pelo toque da viola”, “O emigrante”, “Quinta-feira de Ascensão”, “Verão, Alentejo e os Homens”, “Sai a pomba do pombal”, “Oliveira da Serra”, “O cheiro que a rosa deita” e “Cantarinhas de Beringel”. Cada palavra, cada nota, era um testemunho vivo da riqueza cultural do Alentejo.
Por fim, foi uma tarde em que o tempo parou, onde a alma alentejana se fez sentir em cada palavra e cada olhar emocionado. Um tributo à resistência e à beleza do Cante. Um compromisso renovado de que esta arte maior continuará a ecoar por muitas gerações. Assim, no coração de Beringel, entre o barro e os sabores, o Cante ergueu-se como um monumento vivo, intemporal e eterno.
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