Bruno Correia critica mediatização de Stella após episódio com Bluay: «O talento merece mais manchetes do que a interrupção do talento», afirmou.
O fenómeno criado em torno de Stella e do inesperado «O que tem no carro? O Pingo Doce» continua a provocar reações. Desta vez, Bruno Correia publicou uma carta aberta dirigida às televisões, rádios e órgãos de comunicação social, na qual questiona não tanto aquilo que aconteceu no palco durante a atuação de Bluay, mas sobretudo tudo o que veio depois.
O cantor começa por deixar claro que não pretende voltar ao assunto.
«Falo pela primeira e última vez sobre este assunto. Não vou expor o vídeo, pois estaria a compactuar com o insólito.»
Bruno Correia sublinha igualmente que respeita quem encontrou humor no episódio e rejeita que a sua posição resulte de ressentimento.
«Respeito a opinião de quem achou piada, espero que respeitem a minha e de tantos outros que discordam. A isso chama-se liberdade de expressão. E faço-o não por frustração, não por inveja, não por dor de corno, nem porque me falta sentido de humor.»
O artista reconhece mesmo Stella como «uma pessoa feliz, brincalhona e que gosta de se rir das situações da vida», mas estabelece de seguida a diferença que considera essencial: «Há momentos em que o silêncio também é uma forma de concordar. E eu não concordo!»
«O que me preocupa é aquilo que aconteceu depois»
O episódio aconteceu durante uma atuação de Bluay no «RFM Sem Olhar a Quem», no Cais do Sodré. Stella subiu ao palco sem que a sua presença estivesse prevista, aproximou-se do músico e ficou com o microfone, improvisando a frase que entretanto se tornou viral.
A RFM esclareceu posteriormente que nenhuma das partes sabia quem era Stella: a equipa da rádio julgava que estaria ligada a Bluay, enquanto a equipa do músico pensava que faria parte da iniciativa da estação. O próprio Bluay também desconhecia a sua identidade.
É precisamente esta circunstância que leva Bruno Correia a levantar questões sobre a segurança.
«Aquilo que mais me preocupa não é uma jovem ter subido a um palco, tirar o microfone da mão de um artista e começar a cantar sobre um hipermercado. O que me preocupa é aquilo que aconteceu depois.»
O cantor questiona a facilidade com que alguém conseguiu chegar ao palco durante um evento público:
«A verdadeira notícia deveria ser como foi possível acontecer. Ainda para mais quando falamos de um artista com limitações visuais, num evento público que deveria garantir condições mínimas de segurança para quem está em palco.»
E deixa várias perguntas: «Porque hoje correu tudo bem. Mas e se não tivesse corrido? E se a pessoa que subisse ao palco tivesse outras intenções? E se quisesse magoar alguém?»
Bruno Correia aponta o dedo à atenção mediática
O centro da carta aberta, porém, está na dimensão que o episódio ganhou posteriormente. Stella tornou-se um fenómeno nas redes sociais, foi entrevistada na televisão e o próprio Pingo Doce aproveitou a inesperada exposição da marca. Esta terça-feira, a jovem esteve na CMTV e explicou como tudo aconteceu.
Bruno Correia contrapõe essa atenção às dificuldades sentidas por muitos artistas portugueses.
«Vivemos num país onde existem artistas que envelheceram a servir a cultura portuguesa e raramente têm espaço nas televisões. Vivemos num país onde milhares de músicos, cantores, atores e criadores investem do próprio bolso para gravar canções, produzir videoclipes, criar espetáculos e manter vivos os seus sonhos porque muitas vezes ninguém aposta neles.»
E prossegue:
«Há jovens talentos extraordinários que batem às portas das televisões, das rádios e dos grandes meios de comunicação e encontram essas portas fechadas. Há projetos incríveis que passam anos a lutar por alguns minutos de atenção.»
É por isso que contesta a transformação de um episódio inesperado numa sucessão de conteúdos mediáticos.
«E depois, de repente, um episódio que, noutro contexto, levantaria sérias questões de segurança transforma-se numa das maiores histórias do momento.»
Para Bruno Correia, «o que assusta não é o acontecimento em si», mas «a mensagem que fica quando se transforma este tipo de situação num fenómeno mediático, numa sucessão de manchetes, entrevistas, memes e momentos virais».
«Porque sem nos apercebermos podemos estar a transmitir a ideia de que invadir um palco é apenas uma brincadeira inofensiva e permissiva nos dias de hoje. E não é! Ou não deveria ser.»
«Um palco é um local de trabalho»
O cantor insiste particularmente no respeito por quem está a atuar.
«Um palco é um local de trabalho. É um espaço conquistado com anos de dedicação, sacrifício, investimento e persistência.»
Na sua opinião, «a arte em Portugal já enfrenta dificuldades suficientes» e aquilo de que os artistas menos precisam é «contribuir para a banalização do respeito pelo trabalho artístico».
Mas Bruno Correia também deixa uma reflexão aos próprios músicos. Reconhece as críticas frequentemente dirigidas aos meios de comunicação pela falta de espaço para novos projetos, mas considera que os artistas também têm responsabilidade na procura dessa visibilidade.
«Tudo isso pode ser e é verdade. Mas também é verdade que, se nós não mostrarmos o nosso trabalho, alguém ocupará esse espaço. Se nós não falarmos dos nossos projetos, das nossas músicas e dos nossos sonhos, ninguém poderá descobrir aquilo que fazemos.»
«A visibilidade continua a ser importante. Continua a ser necessária.»
O artista admite até que a tomada de posição lhe poderá trazer consequências: «Possivelmente, depois deste texto, ainda sou posto de “castigo” por algumas delas. Tantos artistas comentam entre si… muitos não se expõem publicamente, porque serão castigados ou vão sofrer represálias. O mesmo de sempre!»
Recado a Stella: «Peça cachet»
Apesar das críticas, Bruno Correia termina sem hostilizar a protagonista do fenómeno e dirige-lhe mesmo um conselho.
«E quanto à jovem que esteve no centro desta história, desejo-lhe sinceramente tudo de bom. Espero que aproveite a atenção que recebeu para construir algo positivo para o seu futuro.»
Depois, deixa uma provocação relacionada com a enorme exposição que Stella acabou por proporcionar gratuitamente ao Pingo Doce:
«Peça cachet, pois estão a ganhar às custas da mesma. Lá a vamos ver no próximo anúncio de Natal do hipermercado.»
A dimensão alcançada pelo fenómeno é, de resto, mensurável: dados do Google Trends divulgados esta terça-feira indicam que as pesquisas por «Pingo Doce» aumentaram 41% face à semana anterior e que «pingo doce música» cresceu 1.250%.
Bruno Correia fecha a carta aberta regressando àquilo que considera ser o essencial:
«Mas desejo ainda mais que um dia as televisões, as rádios e os grandes meios de comunicação deem o mesmo destaque aos artistas que passam anos a lutar por uma oportunidade sem nunca invadirem palco nenhum.»
E conclui: «Porque o talento merece mais manchetes do que a interrupção do talento. E porque um país que valoriza a arte deve celebrar quem a constrói, não apenas aquilo que a interrompe.»
