Bruno Nogueira: dirigente da Caminhada pela Vida nega censura e contesta sketch de “Ruído”, sobre a igreja.
José Maria Seabra Duque rejeitou a acusação de querer cancelar Bruno Nogueira, depois de ter apelado a protestos contra a transmissão de um sketch de “Ruído” na RTP1. O coordenador-geral da Caminhada pela Vida e membro da direção da Federação Portuguesa Pela Vida considera que a rábula sobre a comunhão ofende os católicos e insiste que a sua contestação se dirige ao uso de dinheiro público para a produzir e emitir.
Num esclarecimento publicado nas redes sociais esta quinta-feira, o dirigente respondeu às críticas que recebeu após a primeira tomada de posição. O texto aborda a acusação de censura, a decisão de restringir comentários, a reação de católicos que não se sentiram ofendidos e os limites que entende deverem aplicar-se ao humor.
A polémica centra-se numa sequência em que Bruno Nogueira surge vestido de sacerdote a distribuir a comunhão, num registo satírico com conotação sexual.
Protesto começou com críticas ao conteúdo e à RTP
Na publicação inicial, divulgada na terça-feira, José Maria Seabra Duque descreveu o sketch e atribuiu-lhe a intenção de ridicularizar um dos momentos centrais da prática católica.
“Infelizmente, o humorista decidiu encerrar o primeiro episódio da série com uma rábula cujo único objectivo é gozar com a Sagrada Comunhão. Não há qualquer contexto, qualquer conversa, nada: é apenas ele, paramentado, com uma píxide na mão, numa igreja, a fingir que distribui a comunhão, variando entre os comportamentos lascivos de quem a recebe e os dele próprio, no papel de sacerdote.”
O dirigente distinguiu o conteúdo de uma crítica à instituição religiosa: “Não se trata de uma crítica à Igreja, nem de uma graçola sobre padres. É apenas uma ofensa ao que de mais sagrado há no Cristianismo: o Corpo e Sangue de Nosso Senhor Jesus Cristo, tão vivo e realmente presente como nos Céus.”
No mesmo texto, chamou “parvo” ao humorista e considerou que a sua carreira estava estagnada.
“Alguma coisa tem de fazer para chamar a atenção. Mas existem uma enorme quantidade de plataformas onde o pode fazer e onde eu posso optar por não assistir. O problema é a RTP transmitir uma rábula que, para além da sua legalidade duvidosa, tem como único e claro objectivo ofender os católicos.”
Apelou, por isso, a que os leitores escrevessem “ao Conselho Geral Independente da RTP (cgi@rtp.pt) e ao Ministro da Presidência (gabinete.mp@mp.gov.pt), protestando contra este evidente ataque aos católicos, produzido com dinheiro público”.
“Ele tem todo o direito a fazê-lo, mas não com o dinheiro público”
Depois das reações à primeira publicação, José Maria Seabra Duque regressou ao tema para negar que pretendesse impedir Bruno Nogueira de se expressar.
“Fui acusado de querer cancelar ou censurar o Bruno Nogueira. Não é verdade. Limitei-me a protestar por o dinheiro público ser usado para humilhar os católicos. Percebo que haja muitas pessoas que considerem complexa a tal rábula, no sentido em que há pessoas que consideram As Cinquenta Sombras de Grey literatura e Bordalo II arte. Mas tratou-se apenas de uma forma básica de expressar o preconceito do Bruno Nogueira contra a Igreja. Ele tem todo o direito a fazê-lo, mas não com o dinheiro público.”
O dirigente respondeu também à contestação da sua decisão de limitar os comentários na publicação.
“Também fui acusado de censura por, a certa altura, ter restringido os comentários no post sobre o tema. Ora, é normal que, ao fim de centenas de insultos, eu decida não aceitar mais. Mas não se trata de qualquer censura, uma vez que as pessoas podem continuar a insultar-me nos seus próprios murais sem qualquer problema. Não permitir que venham ao meu espaço insultar-me não é censura, é apenas bom senso. Considerar que sou obrigado a aceitar todos os insultos que me querem fazer no meu mural seria como dizer que a RTP tem o dever de me dar tempo de antena para eu expressar o meu desagrado em relação ao Bruno Nogueira.”
Visibilidade do humorista e reação de outros católicos
Outro dos argumentos a que respondeu foi o de que o protesto acabaria por dar mais exposição a Bruno Nogueira.
“Algumas boas almas alertaram-me para o facto de, ao escrever sobre o assunto, dar visibilidade ao Bruno Nogueira. Lembrou-me aquela anedota das formigas que, irritadas por o elefante todos os dias esmagar o formigueiro, montam uma armadilha para lhe saltar em cima. Ele passa, elas saltam, ele abana-se e caem todas, excepto uma. O resto, lá de baixo, grita: «Pisa, pisa, pisa!» Achar que eu dou visibilidade a um famoso humorista pode aumentar um pouco a minha auto-estima, mas é bastante pouco realista. Por outro lado, ao tomar posição pública, é possível não apenas denunciar algo que me parece grave, mas também fazer chegar a outras pessoas que ficaram incomodadas um meio de expressarem esse incómodo.”
José Maria Seabra Duque reconheceu que outros católicos tiveram uma reação diferente à rábula, sem alterar a sua própria avaliação.
“Li vários católicos a dizer que até acharam graça e que não ficam ofendidos. É a liberdade dos filhos de Deus. Mas não haja dúvidas: tratou-se de um sacrilégio e de um ultraje à Eucaristia. Será que isso pode ser ignorado porque se acha graça ao Bruno Nogueira? Não me cabe a mim dizer, mas não posso esquecer que Nosso Senhor avisava que não se pode servir a dois senhores.”
“A Verdade não está dependente da maioria”
No esclarecimento, o dirigente contestou ainda a ideia de que o número de comentários discordantes demonstraria o isolamento da sua posição na sociedade.
“Li também alguns comentários a dizer que eu deveria ter vergonha, porque a maioria das pessoas que vinham comentar não concordava comigo e que eu estaria a ser humilhado, dado o isolamento da minha posição.”
Desenvolveu depois a resposta: “Antes de mais, as redes sociais dão uma visão distorcida da sociedade. Raramente uma caixa de comentários é representativa da sociedade. Em geral, representa apenas o algoritmo. Mas, para além disso, a Verdade não está dependente da maioria. Eu não escrevo para ter muitos seguidores ou para entrar no clube dos influencers fofinhos, que até acabam amigos do Bruno Nogueira. Por isso, se aquilo que escrevo agrada ou não à maioria, se aumenta ou diminui o meu número de seguidores, é-me bastante indiferente.”
Dirigente insiste nos limites do humor
Na parte final, José Maria Seabra Duque apresentou a sua posição sobre a liberdade de expressão e o uso de elementos religiosos na comédia.
“Sobre os limites do humor: dizer que não existem é uma posição bonita, mas evidentemente falsa. O humor tem limites como a liberdade de expressão tem limites. Claro que, nas sociedades civilizadas, acreditamos primeira na responsabilidade pessoal e não no controlo do Estado. Mas também por isso existem os tribunais, para quando os limites são ultrapassados. Bruno Nogueira não se limitou a criticar ou a ridicularizar da Igreja. Utilizou um espaço de culto, as alfaias e os paramentos do culto, para parodiar o momento mais sagrado do cristianismo. É antes mais profanação do lugar e dos objectos de culto. Mas para além disso não ridicularizou a Igreja, mas sim a Fé. Não foi uma crítica social, mas o ridicularizar a Fé dos cristãos. Era bom que ficasse claro a diferença.”
As referências à legalidade e à profanação traduzem a interpretação do dirigente sobre o sketch.
Bruno Nogueira já tinha abordado a contestação na “Grande Entrevista”, da RTP, conduzida por Vítor Gonçalves, questionando a diferença entre a reação ao humor e a resposta aos abusos na Igreja.
“É curioso sempre e não deixa de ser fascinante quando as pessoas se insurgem, principalmente as associações relacionadas com a Igreja que se insurgiram contra este sketch, não têm a mesma energia a insurgirem-se contra a realidade, isto é, os casos de abuso na Igreja e o que aconteceu às vítimas”, afirmou nessa entrevista.
O humorista acrescentou: “Eu gosto do desconforto porque põe em causa todos os dogmas que nos tentam impingir.”
