Bruno Nogueira responde a críticas a “Ruído” após duas queixas à ERC: “Eu gosto do desconforto”, afirmou o humorista.
A paródia à comunhão apresentada em “Ruído” levou Bruno Nogueira a questionar a reação de associações ligadas à Igreja, comparando a indignação provocada pelo humor com a resposta aos casos de abuso sexual. O sketch integra a estreia da segunda temporada do programa da RTP, emitida a 6 de outubro, que motivou duas queixas à Entidade Reguladora para a Comunicação Social (ERC), segundo informação obtida pelo Correio da Manhã junto do regulador.
Confrontado com a polémica na “Grande Entrevista”, conduzida por Vítor Gonçalves na RTP, o humorista defendeu a importância de provocar desconforto e contestou aquilo que considera uma diferença de mobilização perante a ficção e os acontecimentos reais.
“É curioso sempre e não deixa de ser fascinante quando as pessoas se insurgem, principalmente as associações relacionadas com a Igreja que se insurgiram contra este sketch, não têm a mesma energia a insurgirem-se contra a realidade, isto é, os casos de abuso na Igreja e o que aconteceu às vítimas”, afirmou.
Sketch “Corpo de Cristo” está no centro das críticas
Num dos momentos que suscitaram contestação, intitulado “Corpo de Cristo”, Bruno Nogueira surge vestido de padre, dentro de uma igreja, numa representação satírica da entrega da hóstia aos fiéis.
A sequência atribui uma conotação sexual ao ritual e inclui homens, mulheres e uma criança. Quando chega a vez desta última, o personagem interpretado pelo humorista diz “Por hoje passas”, numa passagem que o relato do Correio da Manhã associa aos escândalos de abuso sexual na Igreja.
A Associação As Quinas, apresentada como uma organização católica, patriótica e conservadora, classificou o sketch como uma “blasfémia”, criticando a associação da comunhão “a um ato lascivo e sexual”.
Na sua contestação, a associação invocou o artigo 251.º do Código Penal, sustentando que o conteúdo poderá configurar uma ofensa à religião. Essa é a posição da organização, não uma conclusão judicial sobre o programa.
Associação invoca Código Penal e humorista defende o desconforto
Ao apresentar os fundamentos da crítica, a Associação As Quinas descreveu desta forma o enquadramento penal que considera aplicável:
“O tipo criminal em questão envolve as condutas de ofender outra pessoa ou dela escarnecer em razão da sua crença ou função religiosa e de profanar lugar ou objeto de culto ou de veneração religiosa, em ambos os casos por forma adequada a perturbar a paz pública. É punido com pena de prisão até 1 ano ou com pena de multa até 120 dias.”
Na entrevista a Vítor Gonçalves, Bruno Nogueira assumiu, por seu lado, o interesse em fazer humor que questione convicções e provoque uma reação no público.
“Eu gosto do desconforto porque põe em causa todos os dogmas que nos tentam impingir”, declarou.
As duas participações confirmadas pela ERC dizem respeito à emissão de estreia da temporada. A informação divulgada pelo Correio da Manhã não identifica os seus autores nem apresenta uma decisão do regulador sobre estas queixas.
Primeira temporada também teve uma participação
“Ruído” já tinha sido objeto de uma queixa durante a primeira temporada, relativa ao episódio transmitido a 25 de junho de 2025. Nesse caso, a ERC decidiu não dar seguimento à participação.
Em esclarecimentos ao Correio da Manhã, o regulador explicou que a decisão foi tomada “por não terem sido identificados elementos que indiciassem a violação dos limites à liberdade de programação previstos no n.º 4 do artigo 27.º da Lei da Televisão e dos Serviços Audiovisuais a Pedido”.
Essa avaliação incidiu sobre a emissão de 2025 e não constitui uma decisão sobre o episódio que agora suscitou novas queixas.
